Aspectos Básicos da Aprendizagem Motora

Aula 1

Introdução à Aprendizagem Motora

Introdução à aprendizagem motora

Olá, estudante!

Nesta videoaula você irá compreender por que cada indivíduo apresenta um desempenho de aprendizagem diferente e quais os fatores que influenciam este desempenho. Além disso, você irá aprender as diferenças entre capacidades motoras e habilidades motoras, acompanhando, por meio de exemplos, suas definições e classificações.

Esse conteúdo é muito importante para a sua atuação profissional, pois, ao ensinar novas habilidades, você saberá os fatores que podem influenciar o aprendizado, ajudando-o a organizar melhor as sessões de prática.

Prepare-se para essa jornada de conhecimento!

Ponto de Partida

Estudante, esta aula traz os assuntos introdutórios da aprendizagem motora. Desta maneira, você verá os fatores que interferem na aprendizagem motora relacionados ao próprio aprendiz, ao ambiente em que ele se encontra e à tarefa a ser realizada. Sabendo que cada pessoa é única, você vai aprender também sobre as diferenças individuais e como elas afetam o processo de aprendizagem. Além disso, você, como profissional que irá ensinar novas habilidades, precisa saber diferenciar capacidades motoras de habilidades motoras e compreender as classificações de habilidades motoras.

Para compreender tudo isso, vamos para a nossa situação: Mariana é formada em Educação Física e vai ensinar novas habilidades motoras para crianças e adolescentes. Para poder fazer um bom trabalho com esse público, ela decide relembrar os conteúdos vistos na graduação e estudar mais a fundo os aspectos que envolvem a aprendizagem motora. Ao separar o material para estudar, Mariana percebe que precisa retomar os fundamentos básicos da aprendizagem motora. Assim, ela se pergunta: o que pode influenciar a aprendizagem dos meus alunos? Somente as questões individuais ou algo mais? Habilidades motoras e capacidades motoras são as mesmas coisas? Existem classificações de habilidades motoras que precisam ser levadas em consideração na hora de ensinar?

Depois desta aula, você e Mariana saberão responder a cada pergunta e conseguirão aplicá-las na prática ao ensinar novas habilidades motoras.

Vamos Começar!

Para começarmos a nossa aula de hoje, precisamos definir alguns conceitos para compreender o que é aprendizagem motora. Para começar, precisamos definir primeiro comportamento motor. Comportamento motor é uma grande área de estudo que envolve as mudanças no controle dos movimentos, por meio do aprendizado e do desenvolvimento motor. Assim, podemos dizer que comportamento motor está subdivido em três áreas: a aprendizagem motora, o controle motor e o desenvolvimento motor.

A aprendizagem motora se refere às mudanças relativamente permanentes do comportamento motor relacionadas à prática ou à experiência (Schimidt; Wrisberg, 2016; Haywood; Gretchel, 2010). O controle motor está relacionado aos aspectos neurais, físicos e comportamentais do movimento (Haywood; Gretchel, 2010), e o desenvolvimento motor são as mudanças no comportamento motor ao longo da vida (Tani et al., 2010).

As três subáreas do comportamento motor sofrem influência de três fatores importantes: o próprio indivíduo, o ambiente e a tarefa, sendo estes três fatores relacionados entre si. Vamos entender melhor a seguir.

Restrições do indivíduo, do ambiente e da tarefa

O comportamento motor como um todo, ou seja, seus aspectos ligados à aprendizagem, ao controle e ao desenvolvimento motor, sofrem influência constante de três fatores, que são: o indivíduo, o ambiente e a tarefa. Isso quer dizer que, para que uma habilidade seja aprendida (seja adquirido o controle motor) e uma pessoa se desenvolva, os fatores relacionados a quem está aprendendo, o que será aprendido e onde esse aprendiz irá aprender devem ser levados em consideração. Para explicar melhor esse fenômeno, Karl Newell (1986) criou um modelo de restrições chamado de Modelo de Newell.

Esse modelo explica que existe uma interação entre o indivíduo que está realizando a ação, o ambiente em que o movimento ocorre e a tarefa a ser realizada. Assim, se qualquer um desses fatores mudarem, o movimento final muda. Por exemplo: a sua marcha é diferente na areia e no chão molhado (ambientes diferentes). No entanto, a marcha de um idoso é diferente daquela de um jovem (indivíduos diferentes). Já uma pessoa quando anda de salto é diferente de quando anda de tênis (tarefas diferentes).

Apesar de Newell utilizar a palavra restrição remetendo a algo que limita ou desencoraja, a restrição aqui também remete a algo que encoraja ou permite o movimento. Sendo assim, restrição pode ser algo que limita e desencoraja ou pode ser algo que permite ou encoraja o movimento. Assim, as restrições do indivíduo são consideradas as características físicas e mentais únicas de quem está aprendendo. Elas podem ser estruturais, ou seja, dizerem respeito à estrutura corporal do aprendiz (massa corporal, estatura, comprimento das pernas) ou funcionais, relacionadas à função comportamental (motivação, foco de atenção, medo). Já as restrições do ambiente são aquelas relacionadas ao mundo que nos envolve (temperatura, luz, umidade, tipos de superfícies, ambiente sociocultural), ou seja, onde essa habilidade será aprendida. Por fim, as restrições da tarefa são aquelas relacionadas às metas de um movimento, às estruturas de regras ou aos equipamentos utilizados (tamanho da bola, altura da cesta de basquete), ou seja, ao que será feito.

Sendo assim, para que ocorra o aprendizado de novas habilidades, o seu sucesso vai depender tanto do indivíduo (suas características físicas e mentais), quanto do ambiente em que essa habilidade está sendo ensinada (tipo de piso na quadra, chuva, sol) e da tarefa a ser ensinada (bolas mais leves para crianças menores, cesta de basquete mais baixa para crianças). Por exemplo, um bebê aprendendo a andar deve ter amadurecido o suficiente para isso (restrição do indivíduo), deve estar em um ambiente propício (local amplo, sem coisas que podem machucar, com incentivo de pais e cuidadores) e com sapato ideal ou descalço.

Siga em Frente...

Diferenças individuais

Por que algumas crianças aprendem uma habilidade motora mais rápido que outras? Por que algumas crianças são melhores que as outras, mesmo sendo da mesma idade e treinando no mesmo lugar pelo mesmo período?

A resposta para estas perguntas está nas diferenças individuais.

Cada ser humano é único e é influenciado pelo meio em que vive. Até mesmo os gêmeos idênticos, que apresentam o mesmo DNA, ou seja, o mesmo código genético, apresentam comportamentos e personalidades diferentes. Sendo assim, diversos fatores podem contribuir para essas diferenças entre os indivíduos e, consequentemente, para o processo de aprendizagem; são eles:

  1. Capacidades motoras: são as características funcionais de uma habilidade motora, como a força, a flexibilidade, a aptidão cardiorrespiratória. Mesmo duas crianças tendo a mesma idade, suas capacidades motoras podem ser diferentes, uma pode ser mais forte que a outra e a outra ter mais resistência aeróbia que a primeira.
  2. Tipo corporal: pessoas mais baixas têm mais dificuldade de jogar vôlei devido à altura da rede. Já pessoas com pernas mais longas têm mais facilidade em fazer corridas com obstáculos. E pessoas mais leves têm mais facilidade de fazer movimentos de saltos, pois a massa que irão deslocar é menor.
  3. Background cultural: algumas crenças determinadas culturalmente e socialmente, como a participação das mulheres em alguns esportes ou a permissão para a prática devido à religião, podem influenciar a aprendizagem.
  4. Nível emocional e motivacional: uma pessoa mais alegre e disposta aprende com mais facilidade, assim como as pessoas mais motivadas.
  5. Nível de aptidão física: a força, a flexibilidade e a resistência cardiorrespiratória irão influenciar a realização de algumas tarefas, uma vez que quem está melhor condicionado sairá melhor do que quem não está.
  6. Experiências prévias de movimento: se a pessoa já teve experiência com o movimento ou com algum movimento parecido, pode ser mais fácil a aprendizagem.
  7. Nível maturacional: a habilidade a ser aprendida deve estar de acordo com o processo maturacional. Uma criança de 1 ano não consegue correr sem antes ter aprendido a andar. Da mesma forma, crianças de 3 anos não aprendem um movimento mais complexo, como a bandeja do basquetebol.
  8. Estilo de aprendizagem: algumas pessoas têm mais facilidade de aprender um movimento quando veem alguém fazendo; outras, quando escutam as instruções; e outras, quando realizam o movimento.

Assim, o processo de aprendizagem é único para cada indivíduo, uma vez que ele

sofre influência de diversos fatores. É importante durante o ensino de habilidade e na elaboração das aulas olhar cada aluno como um ser diferente e estruturar a aula de maneira diversificada na tentativa de abarcar a todos.

Capacidades motoras e habilidades motoras

Nesta aula já foram mencionadas diversas vezes as palavras capacidades e habilidades. Normalmente, esses dois termos são bem confundidos ou até mesmo utilizados como sinônimos. Como vamos falar muito ainda sobre eles, é melhor você já entender como diferenciá-los.

Habilidade motora é uma tarefa aprendida que possui um objetivo específico, sendo uma ação voluntária com movimentação do corpo todo ou parte dele (Gallahue; Ozmum; Goodway, 2013). Sendo assim, habilidade motora são ações como andar, correr, saltar, girar, arremessar uma bola, chutar uma bola, chutar em uma luta e assim por diante. Elas são muitas em números e precisam das capacidades motoras para que aconteçam. Por outro lado, capacidades motoras são traços estáveis e duradouros, definidos geneticamente, que vão embasar a habilidade motora. Elas são poucas em números, sendo algumas delas a força, a resistência muscular, a flexibilidade, a resistência aeróbia, a potência, a velocidade e a agilidade. O quadro a seguir vai te ajudar a diferenciar melhor:

HABILIDADE MOTORAS

CAPACIDADES MOTORAS

Desenvolvidas com a prática

Modificáveis com a prática

Muitas em números

Dependem dos diferentes subconjuntos de capacidades

Traços herdados

Estáveis e permanentes

Poucas em números

Embasam a performance de muitas habilidades motoras

 Quadro 1 | Diferenças entre habilidades motoras e capacidades motoras

Assim, para que uma pessoa consiga sacar no voleibol, além de ter que aprender a habilidade motora do saque, ela precisará de força, potência e velocidade dos membros superiores, que são capacidades motoras.

Como as habilidades motoras são muitas, podemos classificá-las de acordo com os grupos musculares utilizados, com a previsibilidade do ambiente, com os aspectos temporais, com aspectos cognitivos e motores e o propósito do movimento. Assim, teremos:

Critério de classificação

Classificação

Exemplo

Grupos musculares

Ampla/global/grossa – utilização de grandes grupos muscularesAndar, correr, arremessar, chutar
Fina – utilização de pequenos grupos muscularesEscrever, pintar uma tela, desenhar no caderno, jogar videogame

Previsibilidade do ambiente

Fechada – ambiente previsível Salto em distância, tacada do golfe, exercícios em academia
Aberta – ambiente imprevisívelJogos coletivos, lutas, rebater uma bola arremessada por outra pessoa

Aspectos temporais

Discreta – tem começo e fim definidosApertar um botão, arremessar uma bola, cobrar um pênalti.
Seriada – combinação de discretas e contínuasBandeja do basquete, ataque no vôlei, bater palmas
Contínua – não tem começo e fim definidosPedalar, correr, nadar

Aspectos cognitivos e motores

Cognitiva – maior utilização da cogniçãoJogar xadrez, jogos de tabuleiro
Motora – maior utilização motoraArremesso, chute, salto, corrida

Aspectos funcionais do movimento (propósito do movimento)

Estabilização – enfatiza o equilíbrioSentar, levantar, equilibrar-se em um pé só, andar em uma barra estreita
Locomoção – deslocamento do corpo de um ponto ao outroCorrer, andar, saltar
Manipulação – transmitir força a um objeto ou receber força deleArremessar, escrever, chutar

 Quadro 2 | Classificação das habilidades motoras

Assim, uma mesma habilidade pode se encaixar em diversas classificações, como, por exemplo: receber uma bola de manchete em uma situação de jogo será uma habilidade motora ampla, aberta, discreta, motora e de manipulação. Ampla porque utiliza grandes grupos musculares; aberta pois o ambiente é imprevisível, não se sabe onde a pessoa que está sacando vai jogar a bola; discreta porque tem começo e fim definidos; motora porque utiliza mais os aspectos motores do que cognitivos; e manipulativa porque o propósito do movimento é dominar a bola de manchete, ou seja, manipular a bola.

Sendo assim, o processo de aprendizagem é influenciado pelo ambiente em que a habilidade é aprendida (onde), pela tarefa que será aprendida (o que) e pelo próprio indivíduo que irá aprender (quem). E, quando falamos do próprio indivíduo, devemos levar em consideração suas diferenças individuais, que o tornam um ser único e com uma capacidade de aprendizagem diferente. Além disso, a tarefa motora a ser aprendida é chamada de habilidade motora, embasada pelas capacidades motoras como força, flexibilidade, aptidão cardiorrespiratória e velocidade. Compreender a classificação das habilidades motoras nos permite elaborar um plano de prática mais eficaz, que irá levar em consideração os aspectos como a temporalidade da ação, a previsibilidade, grupos musculares e utilização cognitiva ou motora. 

Vamos Exercitar?

Voltando a nossa situação do início da aula. Mariana é formada em Educação Física e vai ensinar novas habilidades motoras para crianças e adolescentes. Para poder fazer um bom trabalho com esse público, ela decide relembrar os conteúdos vistos na graduação e estudar mais a fundo os aspectos que envolvem a aprendizagem motora. Ao separar o material para estudar, Mariana percebe que precisa retomar os fundamentos básicos da aprendizagem motora. Assim, ela se pergunta: o que pode influenciar a aprendizagem dos meus alunos? Somente as questões individuais ou algo mais? Habilidades motoras e capacidades motoras são as mesmas coisas? Existem classificações de habilidades motoras que precisam ser levadas em consideração na hora de ensinar?

A aprendizagem dos alunos pode ser influenciada pelo ambiente em que essa tarefa será ensinada, pela própria tarefa e pelo próprio aluno. Assim, cada aluno é único, apresentando suas diferenças individuais, como, por exemplo, as capacidades motoras, experiências prévias, nível emocional e motivacional, nível de aptidão física, etc. Ainda, as capacidades motoras e habilidades motoras não são as mesmas coisas, sendo que capacidades motoras são traços herdados que embasam a habilidade motora, como a força, flexibilidade e aptidão cardiorrespiratória. Já a habilidade motora é a ação ou tarefa a ser aprendida, que sofre influência das capacidades motoras. As habilidades motoras são muitas e podem ser classificadas de acordo com seus aspectos temporais (discreta, seriada ou contínua), a previsibilidade do ambiente (aberta ou fechada), os grupos musculares (ampla ou fina), utilização cognitiva ou motora (cognitiva ou motora) e aspectos funcionais (estabilização, locomoção e manipulação). 

Saiba Mais

Quer se aprofundar mais e obter mais exemplos das restrições do indivíduo, do ambiente e da tarefa?

Leia o Capítulo 4 do livro Compreendendo o desenvolvimento motor, disponível na sua biblioteca digital. Neste mesmo capítulo, você poderá compreender mais sobre as diferenças individuais.

 

 

Referências Bibliográficas

GALLAHUE, D. L.; OZMUN, J. C.; GOODWAY, J. D. Compreendendo o desenvolvimento motor: bebês, crianças, adolescente e adultos. Porto Alegre: AMGH, 2013.

HAYWOOD, K. M.; GETCHELL, N. Desenvolvimento motor ao longo da vida. Porto Alegre: Artmed, 2010.

SCHMIDT, R.; WRISBERG, C. A. Aprendizagem e performance motora: uma abordagem da aprendizagem baseada na situação 5. ed. Porto Alegre: Grupo A, 2016.

TANI, G. et al. Pesquisa na área de comportamento motor: modelos teóricos, modelos de investigação, instrumentos de análise, desafios, tendências e perspectivas. Revista da Educação Física/UEM, v. 21; n. 12, p. 229-380, 2010.  

Aula 2

Compreendendo o Processo de Aprendizagem Motora

Compreendendo o processo de aprendizagem motora

Olá, estudante,

Nesta videoaula você vai ver que o processo de aprendizagem acontece por estágios, em que iniciamos o movimento mais impreciso, descoordenado e com muitos erros. Após algum tempo de prática, começamos a ficar mais confiantes, coordenamos melhor o movimento e diminuímos nossos erros, podendo chegar à proficiência. Além disso, você verá como se comporta a curva da aprendizagem e quando sabemos que o aluno está realmente aprendendo. Por fim, esta aula te proporcionará o conhecimento sobre as teorias que explicam como controlamos o movimento a partir da aprendizagem.

Todo esse conhecimento é importante para a sua prática profissional, pois, ao planejar o processo de aprendizagem de movimentos dos seus alunos, você terá o embasamento teórico necessário para esse processo ser um sucesso.

Essa aula está com muito conteúdo interessante para você.

Ponto de Partida

Ao ensinar novos movimentos, é importante que alguns conhecimentos estejam bem consolidados, para que você promova um aprendizado de sucesso. Sabendo disso, nesta aula você compreenderá que o processo de aprendizagem acontece por estágios, em que partimos de um estágio inicial e passamos por um intermediário até chegarmos ao proficiente. E, quando pensamos em cada tentativa de prática realizada, podemos verificar uma curva de aprendizagem, em que identificamos algumas características e testamos o quanto a aprendizagem persistiu no aprendiz e o quanto ele consegue adaptá-la a outros conceitos e tarefas. Por fim, todo esse processo de aprendizagem é explicado por meio de teorias desenvolvidas por pesquisadores da área, e cada uma apresenta as suas características.

Para nos aprofundarmos em todo esse conteúdo, vamos à situação da aula de hoje. Mariana acabou de se formar em Educação Física e vai ensinar habilidades esportivas para crianças e adolescentes. Para fazer um bom trabalho, ela decide se aprofundar mais, retomando os conteúdos vistos na graduação. Mariana já retomou os conteúdos sobre restrição do indivíduo, do ambiente e da tarefa, sobre diferenças individuais, capacidades motoras e habilidades motoras. Agora, suas dúvidas são: em uma turma que está em diferentes níveis de aprendizagem, eu consigo classificá-las em estágios para facilitar o aprendizado? Como eu avalio se meus alunos estão aprendendo? E como ocorre o controle do movimento com o aprendizado? Percebendo que tem muitas coisas para relembrar, Mariana sai em busca de livros e artigos para sanar suas dúvidas.

Se essas dúvidas de Mariana são as mesmas que as suas, continue firme aqui que muita coisa está por vir!

Vamos Começar!

Imagine que você vai aprender um movimento novo, que pode ser surfar, andar de skate, uma bandeja no basquetebol ou até mesmo dirigir. Tente pensar como seria esse movimento.

Pensou?

Provavelmente, esse movimento será bem descoordenado, cheio de erros, impreciso, e você colocará toda a sua atenção nele, não é mesmo?

Agora, se você continuar praticando, o movimento vai sendo coordenado, os erros vão diminuindo e você consegue até prestar atenção em outras coisas.

Pessoas proficientes, por exemplo, atletas de alto nível, fazem o movimento com fluidez, com pouquíssimos erros e quase automáticos, ou seja, sem ou com quase nenhuma demanda de atenção.

Assim, por meio desse exemplo, podemos concluir que, até nos tornarmos indivíduos habilidosos, passamos por estágios ou fases de aprendizagem. E é sobre isso que vamos falar no próximo tópico.

Modelos de estágios e desempenho proficiente

Vários estudiosos apresentaram modelos diferentes de estágios de aprendizagem motora. Por exemplo, Adams (1971) apresentou dois estágios, o verbal-motor e o motor. Gentile (1972) também apresentou dois estágios, sendo o primeiro um estágio de aquisição da ideia de movimento e o segundo de fixação/diversificação. Já Fitts e Posner (1967) trouxeram a ideia de que passamos por três estágios, sendo eles: cognitivo, associativo e autônomo. Aqui, utilizaremos os estágios propostos por Fitts e Posner (1967), pois acreditamos que existe uma fase entre o inexperiente (novato) e o experiente (expert), chamada de intermediária.

Assim, o estágio cognitivo é caracterizado pela busca em descobrir qual é a tarefa. Nessa busca, o movimento sai descoordenado, com presença de movimentos desnecessários e sem fluidez. Por tentar encontrar a melhor forma de realizar o movimento, cometem-se muitos erros, e o movimento é bem variável. Verbalizam-se os movimentos durante a execução e coloca-se boa parte da capacidade de atenção no movimento, não se conseguindo prestar atenção em fatores externos.

Já no estágio associativo, os movimentos desnecessários diminuem, a sequência dos movimentos vai ganhando fluidez e harmonia, e os erros também vão diminuindo. Já se consegue prestar atenção em outros estímulos importantes para a tarefa, e o aprendiz se torna mais confiante e menos impreciso.

Por fim, no estágio autônomo, o aprendiz já sabe como executar a ação, com mínimo de gasto de energia e tempo, com fluidez e eficiência. Como o próprio nome do estágio diz, os movimentos já estão automatizados, fazendo com que o aluno consiga dirigir grande parte da atenção para estímulos externos. O padrão de movimento é estável e preciso, com pouco ou nenhum erro. A Figura 1 mostra como ocorre a diminuição dos erros e da atenção e o aumento do desempenho conforme o aprendiz vai vencendo os estágios por meio da prática.

Figura 1 | Gráfico da melhora do desempenho e da diminuição de erros e da atenção entre os três estágios

Diante disso, um desempenho proficiente é aquele em que o indivíduo realiza a habilidade com a máxima certeza, o mínimo de gasto de energia e tempo e, consequentemente, cometendo menos erros. Caso haja qualquer alteração no seu padrão de movimento que o faça perder essa certeza e aumentar o gasto de energia e tempo, o indivíduo volta para o estágio anterior. 

Apesar de a palavra estágio remeter a algo sequencial, ou seja, acaba um e começa o outro, podemos dizer que esses estágios ocorrem em paralelo. Assim, podemos estar no estágio autônomo para a habilidade de saltar, no estágio associativo na habilidade de saque por baixo do vôlei e no estágio cognitivo no saque viagem no vôlei.

Além do mais, o padrão proficiente visto no estágio autônomo é muito comum em atletas de alto nível, por exemplo. No entanto, a maioria de nós não chega a este estágio na maior parte das habilidades esportivas e, às vezes, nem em habilidades mais básicas, como galopar e saltar em um pé só.

Como conseguimos avaliar essas mudanças de estágios, ou seja, se o aluno realmente está aprendendo? Vamos ver isso a seguir.

Avaliação: curvas de desempenho e transferência de aprendizagem

Conforme a aprendizagem de movimentos vai acontecendo, notamos mudanças no desempenho do aprendiz. Nessas mudanças, podemos observar quatro características, com as quais podemos dizer que houve aprendizagem; são elas:

  • Aperfeiçoamento: é observado quando o aprendiz está desempenhando a habilidade melhor do que quando começou, ou seja, seu desempenho é aperfeiçoado ao longo do tempo.
  • Consistência: conforme vai acontecendo o aperfeiçoamento, os níveis de desempenho devem se tornar cada vez mais semelhantes e estáveis a cada tentativa de prática.
  • Persistência: o desempenho melhorado com a prática persiste de uma sessão de prática/treino para a outra e por vários dias ou anos. À medida que o aprendiz melhora com a prática, seu desempenho melhorado se estende por períodos mais longos.
  • Adaptabilidade: o desempenho que foi aperfeiçoado se adapta a vários contextos.

Dessa maneira, podemos dizer que houve ou está havendo aprendizagem motora a partir do momento em que uma pessoa apresenta melhora com a prática, essa melhora se torna cada vez mais estável e duradoura e você consegue adaptar em um outro contexto. Por exemplo, ao ensinar uma criança a jogar tênis com uma bolinha mais leve e mais lenta, você vai observar melhora no seu desempenho com as práticas (aperfeiçoamento), vai verificar que essa melhora está cada vez mais estável. Quando ela chegar para um novo dia de treino, ela vai conseguir manter o desempenho do dia de prática anterior e, quando você utilizar a bolinha oficial de tênis, ela conseguirá manter o desempenho e se adaptar à nova tarefa.

Quando medimos a aprendizagem motora, utilizamos a curva de aprendizagem ou de desempenho e, normalmente, encontramos algo como mostrado no gráfico a seguir.

Figura 2 | Curva de aprendizagem motora

Assim, no eixo “x” do gráfico temos os blocos de tentativas. Neste caso, em cada bloco o aprendiz realiza dez tentativas. No eixo “y” temos uma medida de distância, em que quanto maior é a distância atingida, melhor é o aprendizado. Repare que o desempenho melhora de forma ascendente no gráfico, até alcançar um ponto em que quase não ocorre melhora; chamamos este ponto de platô de desempenho. Sendo assim, platô de desempenho é um período durante a aprendizagem no qual o desempenho permanece sem ou com pouca alteração. Depois do platô, a aprendizagem continua de maneira linear e crescente. Isso quer dizer que, durante a aprendizagem de movimentos, no início temos uma grande melhora do desempenho e, após algum tempo de prática, parece que estabilizamos na aprendizagem e não vemos muita melhora. Ao continuar a prática, essa melhora volta a acontecer, no sentido da proficiência.

Entretanto, já sabemos que, para afirmar que houve aprendizagem, precisamos observar as quatro características já mencionadas (aperfeiçoamento, consistência, persistência e adaptabilidade). Assim, nesta curva de aprendizagem, observamos que houve aperfeiçoamento pela melhora da distância, e essa melhora foi consistente. No entanto, não conseguimos observar neste gráfico se essa melhora é persistente (ou seja, persiste quando se para a prática por um tempo) e adaptável a outro contexto. Para verificarmos essas duas características, realizamos então dois testes: o teste de retenção e o teste de transferência. O teste de retenção é quando o aprendiz, mesmo após uns dias do término da prática, ainda consegue realizar a habilidade com um bom desempenho, e o teste de transferência é quando adaptamos essa habilidade a um outro contexto ou tarefa, por exemplo, ensino com uma bola maior e mais leve, e depois transferimos para a bola oficial.

 

 

Siga em Frente...

Teorias de aprendizagem e modelos de aprendizagem

Na tentativa de explicar como aprendemos os movimentos, ou seja, como adquirimos as mudanças no nosso comportamento motor com a prática ou experiência, estudiosos se reuniram e fizeram uma série de pesquisas. A partir disso, surgiram diversas teorias, sendo que duas delas são mais difundidas: a teoria do processamento de informação e a teoria dos sistemas dinâmicos. Essas duas teorias explicam a aprendizagem de maneira bem oposta e divergente. A teoria do processamento de informação apresenta uma hierarquia, em que o SNC é o sistema que comanda toda a ação; ele possui os comandos (programas motores) para que o movimento aconteça e os envia para os músculos para que eles realizem seus comandos. Já a teoria dos sistemas dinâmicos não entende que exista uma hierarquia e, sim, um trabalho em conjunto, em que os sistemas (nervoso e muscular) se auto-organizam para que o movimento emerja.

Assim, dentro da teoria de processamento de informação, temos dois circuitos funcionando que irão responder aos comandos com uma ação; esses circuitos são conhecidos como circuito aberto e circuito fechado. O circuito aberto entra em ação quando temos atividades que exigem respostas mais rápidas. Assim, recebemos o estímulo, programamos a resposta no cérebro e não temos tempo de mudar essa resposta para corrigi-la. Por exemplo, eu jogo uma bola muito rápido para alguém, essa pessoa percebe essa bola, decide o que fazer e, como a bola está muito rápida, ela não tem tempo de mudar sua decisão; o que ela planejou fazer, será feito. Agora, caso eu jogue essa bola mais alta e mais lenta para a pessoa, ela terá tempo de receber informações sobre o que está acontecendo e reprogramar sua resposta a partir disso, procurando uma melhor maneira de reagir a esse estímulo (no caso, a bola lançada). A esse processo em que a informação chega de maneira mais lenta, e o aprendiz tem tempo de programar e reprogramar de acordo com as informações que estão sendo recebidas durante a ação, chamamos de circuito fechado.

Os estudiosos defensores dessa teoria acreditam que o aprendizado acontece a partir de uma estrutura abstrata situada no SNC denominada programa motor, a qual armazena uma série de normas que são adquiridas durante o processo de aprendizado.

Por outro lado, a teoria dos sistemas dinâmicos contrapõe essa ideia de programas motores, defendendo que o aprendizado se desenvolve a partir do aumento da percepção e ação, sendo influenciado pelas restrições do indivíduo, do ambiente e da tarefa. Assim, ao querer realizar um movimento, os sistemas se auto-organizam, e o movimento emerge a partir dessa interrelação. Assim, o processo de aprendizagem acontece por meio de uma sinergia que surge entre os sistemas e que busca a coordenação e o controle do movimento.

Assim, quando pensamos nos estágios de aprendizagem a partir da teoria de processamento de informações, podemos sugerir que a cada estágio criamos e aprimoramos os programas motores, estabelecendo comandos cada vez melhores com a prática. Já na teoria de sistemas dinâmicos, sugere-se que em uma fase mais inicial congelamos parte dos graus de liberdade do movimento (ou seja, mantêm-se parte dos ângulos das articulações fixos ao longo da ação). No segundo estágio, os graus de liberdade mais congelados são liberados e incorporados em unidades de ações maiores, denominadas estruturas coordenativas. E, no terceiro estágio, os graus de liberdade continuam sendo liberados e ocorre uma maior exploração das forças de ação passiva.

Vamos Exercitar?

Agora que você já compreendeu muita coisa sobre a aprendizagem motora, voltamos à situação do início da aula para resolvê-la.

Mariana irá ensinar habilidades esportivas para crianças e adolescentes e, ao se aprofundar mais no assunto por meio de estudos, algumas dúvidas surgem. Dessa vez, as dúvidas são: em uma turma em que os alunos estão em diferentes níveis de aprendizagem, eu consigo classificá-las em estágios para facilitar o aprendizado? Como eu avalio se meus alunos estão aprendendo? E como ocorre o controle do movimento com o aprendizado?

A aprendizagem motora pode passar por três estágios: o iniciante, o intermediário e o avançado (proficiente). Em uma turma heterogênea quanto ao nível de aprendizagem, você pode determinar o estágio em que cada um se encontra e fazer atividades que promovam o desenvolvimento de todos. Para saber se seus alunos estão aprendendo, eles devem apresentar quatro características: aperfeiçoamento, consistência, persistência e adaptabilidade. Existem algumas teorias que buscam explicar como aprendemos o movimento; as mais abordadas são: teoria do processamento de informação e teoria de sistemas dinâmicos.   

Saiba Mais

Você quer compreender mais a fundo sobre os modelos teóricos de aprendizagem motora? Acesse o artigo de Tani et al. (2010).

Agora, para entender mais a fundo sobre os estágios de aprendizagem, procure pelo artigo:

PELLEGRINI, A. M. Aprendizagem de habilidades motoras I: o que muda com a prática? Revista Paulista de Educação Física, 2000.  

 

 

Referências Bibliográficas

PELLEGRINI, A. M. Aprendizagem de habilidades motoras I: o que muda com a prática? Revista Paulista de Educação Física, 2000.

SCHMIDT, R.; WRISBERG, C. A. Aprendizagem e performance motora: uma abordagem da aprendizagem baseada na situação 5. ed. Porto Alegre: Grupo A, 2016.

TANI, G. et al. Pesquisa na área de comportamento motor: modelos teóricos, modelos de investigação, instrumentos de análise, desafios, tendências e perspectivas. Revista da Educação Física/UEM, v. 21; n. 12, p. 229-380, 2010. Disponível em: https://periodicos.uem.br/ojs/index.php/RevEducFis/article/view/9254. Acesso em: 2 fev. 2024.

Aula 3

Processamento de Informação e Tomada de Decisão

Processamento de informação e tomada de decisão

Olá, estudante,

Quando a aprendizagem ocorre, várias mudanças acontecem no comportamento motor. Assim, nesta videoaula, você entenderá os fatores relacionados ao tempo de reação e à tomada de decisão e o que acontece com a prática. Além disso, você verá como é a nossa capacidade de atenção e o que acontece com o nosso movimento quando focamos na precisão. Por fim, você entenderá como e o que armazenamos na nossa memória.

Esse conteúdo é importante para a sua atuação profissional, pois esses aspectos farão total diferença no processo de aprendizagem do seu aluno, e você conseguirá pensar em um plano de ensino de habilidades motoras que levará em consideração esses pontos.

Você está preparado?

Então, vamos lá!

Ponto de Partida

Conforme vamos aprendendo os movimentos, mudamos a forma como percebemos o mundo a nossa volta e a forma de respondermos a estímulos. Assim, passamos a reagir com mais rapidez, a nossa tomada de decisão se torna mais rápida e diminuímos nossa atenção, podendo dividi-la com outras tarefas. Além disso, a tarefa passa de complexa para simples, e conseguimos realizá-la com mais velocidade, sem deixar de lado a precisão. Com isso, esse novo movimento aprendido fica gravado na nossa memória de longo prazo.

Na aula de hoje, vamos abordar o tempo de reação, tomada de decisão, capacidade de atenção, precisão e memória. Para nos ajudar, vamos a nossa situação já conhecida, em que Mariana vai ensinar habilidades esportivas para crianças e adolescentes. Assim, chegou o momento de pensar o que muda nos aspectos perceptivos com a prática e com a aprendizagem. Para compreender mais sobre o assunto, Mariana decide buscar ajudar nos livros e artigos para sanar as seguintes dúvidas: o que pode influenciar o tempo de reação e a tomada de decisão do meu aluno? Como é a utilização da nossa atenção em tarefas simples e complexas? O movimento aprendido fica em qual tipo de memória?

Está preparado para compreender mais sobre os aspectos perceptivos que afetam a aprendizagem?

Então, vamos lá!

Vamos Começar!

O ambiente e o nosso próprio corpo enviam estímulos o tempo todo. Conforme vamos aprendendo uma determinada habilidade, desenvolvemos também nossas capacidades perceptivas, ou seja, reagimos mais rápido a esses estímulos, tomamos decisões mais rápidas, diminuímos nossa atenção no movimento e distribuímos melhor a nossa atenção ao mundo externo. Além disso, após a prática, esses movimentos ficam armazenados na nossa memória, facilitando a sua realização. São esses aspectos perceptivos que veremos a seguir.

Tempo de reação e tomada de decisão

Imagine a seguinte situação: uma prova de 100m rasos no atletismo, todos os atletas posicionados no bloco de saída, o árbitro apita e os atletas saem correndo. Existe um tempo entre o apito do árbitro e o início do movimento dos atletas, e esse tempo é chamado de tempo de reação. Assim, podemos dizer que tempo de reação é o tempo que leva da apresentação do estímulo ao início da resposta. Em algumas situações, o tempo de reação é muito importante, como é o caso da saída da natação, pisar no freio do carro ao ver a luz de freio do carro da frente, ou o goleiro pegar uma bola rápida, por exemplo.

Além disso, podemos dizer que o tempo de reação é um indicador da eficácia e da velocidade da tomada de decisão de uma pessoa. Assim, quando você recebe um estímulo, uma bola vindo em sua direção, por exemplo, você precisa tomar uma decisão do que vai fazer você vai segurar a bola, vai se defender dela, vai rebater?

O tempo de reação é muito importante para movimentos rápidos e que precisam de uma tomada de decisão eficiente, sendo muito utilizado como um indicador da velocidade em que processamos as informações que chegam até nós. Ainda, tanto o tempo de reação quanto a tomada de decisão podem ser influenciados por diversos fatores, como, por exemplo, o número de alternativas de estímulo-resposta e a compatibilidade de estímulo-resposta. Com relação ao número de alternativas de estímulo-resposta, quando eu tenho um estímulo e uma possível resposta, meu tempo de reação tende a ser mais rápido do que quando eu tenho duas ou mais opções de escolha. Por exemplo, em uma tarefa em que você precisa apertar um único botão quando uma única luz acender, o tempo de reação será menor do que se eu tiver três luzes de cores diferentes e tiver que escolher, entre três botões, o que tem a mesma cor da luz que acender. Agora, a compatibilidade de estímulo-resposta seria o grau de associação natural entre o estímulo e a resposta que deve ser dada. Por exemplo: ao acender uma luz do meu lado direito, eu aperto um botão do lado direito; se acender a luz do lado esquerdo, eu aperto o botão do lado esquerdo. Essa associação seria mais fácil do que se eu tivesse que apertar o botão direito quando a luz do lado esquerdo acendesse ou vice-versa.

Para lidar com atrasos na tomada de decisão, é muito comum anteciparmos o estímulo, o que chamamos de antecipação. Isso acontece quando somos capazes de predizer o que irá acontecer e quando irá acontecer, antes mesmo de acontecer. Assim, a antecipação pode ser benéfica, quando nos possibilita responder a algo mais rápido, por exemplo em uma luta, quando o atleta consegue predizer o golpe que o adversário vai dar e se antecipa, conseguindo se esquivar. Por outro lado, a antecipação pode ter custos, como é o caso da largada de uma prova de 100m rasos no atletismo ou a saída da natação, em que, se o atleta antecipar, ele será desclassificado.  

Siga em Frente...

Atenção e precisão

A atenção é a nossa capacidade de processar as informações que recebemos. Esse processo é considerado um processo mental limitado, pois não conseguimos processar todas as informações à nossa volta ao mesmo tempo.

A todo momento recebemos estímulos do ambiente, mas nem todos os estímulos chegam ao nível da nossa atenção, ou seja, nem sempre processamos a informação. Para entender melhor, vamos pensar no que você está fazendo agora. Provavelmente, você está fazendo a leitura deste texto e prestando atenção e interpretando o que está escrito. Mas, se eu pedir para você sentir a sua roupa encostando na sua pele, você vai deslocar a sua atenção para lá. No entanto, a roupa encostando na sua pele estava ali o tempo todo, mas você não estava prestando atenção nisso, pois a sua atenção está voltada para os seus estudos.

Podemos dizer então que a nossa capacidade de atenção é limitada, pois conseguimos prestar atenção em poucas coisas de cada vez. Assim, quando estamos dirigindo, recebemos muitas informações ao mesmo tempo: dos carros ao nosso redor, dos pedestres, da música tocando no rádio, do caminho que estamos fazendo e assim por diante. Quando pegamos o celular para mandar uma mensagem ou fazer uma ligação, a atenção que estávamos dedicando ao trânsito se torna comprometida, o que pode fazer com que cometamos erros e coloquemos a nossa vida e a de outras pessoas em risco. Além disso, o quanto vamos colocar de atenção em cada tarefa vai depender da sua complexidade. Assim, tarefas mais simples demandam menos atenção, então conseguimos dividir a atenção com uma segunda tarefa. Por exemplo: andar e falar ao celular ao mesmo tempo. Agora, se uma tarefa for mais complexa, menos atenção conseguimos dar a uma segunda tarefa. Por exemplo: dirigir e digitar uma mensagem no celular ao mesmo tempo. A figura a seguir demonstra como a nossa atenção funciona.

Figura 1 | Atenção disponível em tarefas duplas simples e complexas. Fonte: adaptada de Schimdt e Wrisberg (2016).

Um outro fator importante no processo de aprendizagem é a precisão. Algumas tarefas exigem maior precisão do que outras; por exemplo, acertar uma cesta de basquete, acertar um tiro ou uma flecha no alvo, encaçapar a bola de golfe e assim por diante. No entanto, um aspecto a que precisamos nos atentar é a relação da precisão com a velocidade. Sendo assim, quando queremos fazer algo rapidamente, tendemos a fazê-lo de maneira menos eficiente ou com menor precisão, e o contrário também acontece quando queremos ser mais precisos, somos mais lentos. Essa troca de velocidade-precisão é sustentada por um princípio matemático desenvolvido por Paul Fitts (1954) que se tornou lei, chamado Lei de Fitts. A Lei de Fitts considera que o tempo de movimento está linearmente relacionado com o índice de dificuldade do movimento. Ou seja, quanto mais difícil é uma tarefa, mais lentos somos.

Dessa maneira, ao pensar em um processo de aprendizagem, entendemos que nos estágios mais iniciais de aprendizagem a atenção está mais voltada para o movimento, e o aprendiz não consegue prestar atenção ao ambiente ao seu redor. Além disso, na tentativa de sermos mais precisos, de acertarmos mais, somos mais lentos no movimento. Assim, quando ensinamos uma nova habilidade, precisamos diminuir os estímulos ao redor e compreender que o movimento sairá mais lento. Conforme a aprendizagem vai ocorrendo, o aprendiz consegue prestar mais atenção às informações a sua volta e vai aumentando a velocidade do seu movimento, pois a tarefa vai se tornando mais fácil de ser realizada e fica mais fácil de alcançar a precisão.  

Sistemas de memória

O que a nossa memória tem a ver com os nossos movimentos?

Quando ocorre a persistência de um movimento, ou seja, quando depois de um tempo de prática ainda o realizamos, esse movimento fica armazenado na nossa memória. Dessa maneira, existem três sistemas de memória, que são: armazenamento sensorial a curto prazo, memória de curto prazo e memória de longo prazo.

O armazenamento sensorial de curto prazo é a nossa memória mais periférica. Neste sistema, a informação que chega é mantida até que o indivíduo a identifique e seja substituída pela próxima corrente. Acredita-se que o armazenamento sensorial ocorra antes de tomarmos consciência, sendo quase ilimitado, porém de breve duração. Já a memória de curto prazo é aquela em que as informações que passam pelo armazenamento sensorial de curto prazo são selecionadas e atingem o nosso nível de consciência. Acredita-se que ela seja limitada e de duração breve. Por fim, a memória de longo prazo é aquela em que as informações e experiências da vida ficam retidas ao longo do tempo. Acredita-se que ela seja ilimitada e de longa duração. A Figura 2 demonstra o funcionamento dos três componentes da memória.

Figura 2 | Os três componentes da memória humana. Fonte: adaptada de Schimdt e Wrisberg (2016).

Dessa maneira, podemos dizer que uma pessoa realmente aprendeu um movimento quando a informação foi processada na memória de curto prazo e transferida para a memória de longo prazo. 

 

 

Vamos Exercitar?

Voltando a nossa situação no início da aula. Mariana é recém-formada e vai trabalhar ensinando habilidades esportivas para crianças e adolescentes. Para compreender mais sobre os aspectos da percepção que influenciam ou mudam com a aprendizagem, Mariana decide estudar mais. No entanto, algumas dúvidas aparecem em sua mente. O que pode influenciar o tempo de reação e a tomada de decisão do meu aluno? Como é a utilização da nossa atenção em tarefas simples e complexas? O movimento aprendido fica em qual tipo de memória?

O tempo de reação e a tomada de decisão são influenciados pelo número de alternativas estímulo-resposta e pela compatibilidade de estímulo-resposta. A nossa atenção é maior no início da aprendizagem e para tarefas mais complexas. Conforme acontece o aprendizado e a tarefa se torna mais fácil, nossa atenção vai diminuindo e conseguimos distribui-la em outras tarefas. Temos três tipos de memória: o armazenamento sensorial de curto prazo, a memória de curto prazo e a memória de longo prazo. Quando aprendemos, a memória de longo prazo armazena alguns aspectos do movimento. No entanto, quando a prática não foi suficiente e as características do movimento ficaram armazenadas na memória de curto prazo, ele pode ser facilmente esquecido.

Saiba Mais

Quer se aprofundar mais nos assuntos da aula de hoje?

Procure pelo livro: Aprendizagem e performance motora: uma abordagem da aprendizagem baseada na situação.

No Capítulo 2, da página 53 até a 61, você encontra muitas informações sobre tempo de reação, tomada de decisão e antecipação.

Neste mesmo capítulo, nas páginas 66 e 67, você poderá se aprofundar no tema sobre capacidade de atenção.

Sobre os três sistemas de memória apresentados nesta aula, você poderá ler mais nas páginas 76 a 79, também no Capítulo 2.  

Referências Bibliográficas

GALLAHUE, D. L.; OZMUN, J. C.; GOODWAY, J. D. Compreendendo o desenvolvimento motor: bebês, crianças, adolescente e adultos. Porto Alegre: AMGH, 2013.

SCHMIDT, R.; WRISBERG, C. A. Aprendizagem e performance motora: uma abordagem da aprendizagem baseada na situação 5. ed. Porto Alegre: Grupo A, 2016.

TANI, G. et al. Pesquisa na área de comportamento motor: modelos teóricos, modelos de investigação, instrumentos de análise, desafios, tendências e perspectivas. Revista da Educação Física/UEM, v. 21; n. 12, p. 229-380, 2010.

Aula 4

Aprendizagem de Habilidades Motoras

Aprendizagem de habilidades motoras

Olá, estudante,

Na aula de hoje você irá ver que é importante um planejamento de como as habilidades motoras serão ensinadas. Assim, você irá aprender sobre os tipos de práticas, os feedbacks e como avaliamos o desempenho motor.

Esse conteúdo é muito importante para o profissional que irá ensinar novas habilidades, para que ele saiba se organizar e preparar o processo de ensino para que haja uma aprendizagem mais eficiente.

Prepare-se para aprender a ensinar habilidades motoras!

Ponto de Partida

Ensinar novas habilidades motoras é uma responsabilidade grande para os profissionais que trabalham com o movimento. Sendo assim, saber como organizar a prática, como fornecer as informações para o aprendiz de maneira correta e como analisar o desempenho motor é muito importante para o sucesso da aprendizagem.

Para nos aprofundarmos neste conteúdo, vamos à situação da nossa aula. Mariana é recém-formada em Educação Física e vai ensinar novas habilidades esportivas para crianças e adolescentes. Como deseja ter sucesso e que os alunos aprendam as habilidades, ela resolve estudar um pouco mais sobre o processo de aprendizagem de novas habilidades motoras. Ao estudar sobre o assunto, Mariana tem as seguintes dúvidas: como posso organizar a prática para que meus alunos tenham um aprendizado eficiente? Como posso fornecer os feedbacks para que sejam adequados à aprendizagem? Como avalio a melhora no desempenho motor dos meus alunos?

Quer compreender como organizamos as sessões de prática para um aprendizado mais eficaz? Então, vamos lá!

Vamos Começar!

Para que uma nova habilidade motora seja aprendida, é importante planejar as experiências de aprendizagem que esse aluno irá receber. Essas experiências vão desde a instrução dada pelo professor até a estruturação dessa prática. As instruções seriam as informações fornecidas ao aprendiz antes de começar a prática. Assim, a instrução pode ser verbal, quando é só falada; por demonstração, quando o movimento é mostrado ao aprendiz; ou pode ser verbal e demonstrada ao mesmo tempo.

Além disso, durante a execução da prática, uma série de correções e dicas são dadas durante o movimento ou após ele, o que chamamos de feedback (da tradução do inglês, retroalimentação). Por fim, devemos definir como será a prática da habilidade mais eficiente. E é por esse tema, tipos de práticas, que começaremos nossa aula de hoje.

Tipos de prática

O aprendizado de habilidades motoras requer prática, ou seja, fazer repetidas vezes. Mas como essa prática é orientada vai fazer uma grande diferença no aprendizado. Para começar, podemos dividir os tipos de prática em: física e mental. A prática física seria você realizar o movimento com o seu corpo, e a prática mental seria imaginar-se realizando o movimento.

Quanto à prática física, em habilidades mais complexas podemos dividir a tarefa em partes para serem praticadas e facilitar o aprendizado. Dentro dessa prática parcial, temos três tipos: fracionalização, segmentação e simplificação. A fracionalização (ou fragmentação) ocorre quando você divide a habilidade em duas ou mais partes e as pratica separadamente. Por exemplo: ao ensinar o nado crawl, você pode ensinar a bater as pernas com os braços apoiados na prancha (isolando os braços) e depois as braçadas utilizando uma boia (pullboy) nas pernas (isolando as pernas), antes de juntá-las em uma habilidade só. A segmentação ocorre quando você pratica uma parte da habilidade durante um tempo, depois adiciona uma segunda parte, que é praticada com a primeira, e, depois, adiciona a terceira parte, que é praticada com as duas primeiras. Como exemplo, temos a bandeja do basquete. O aprendiz pratica por um tempo a passada com o drible de bola, depois adiciona o salto, o qual é praticado por um tempo com a passada e o drible e, depois, adiciona o arremesso, o qual é praticado com as outras partes. Por fim, a simplificação é quando a habilidade a ser realizada é simplificada. Por exemplo: praticar em câmera lenta ou utilizar uma bola mais leve e maior no saque do tênis. 

Para a escolha de qual utilizar, precisamos pensar na natureza da habilidade (complexidade) e na interação dos componentes. A complexidade seria o processamento de informação e número de partes e componentes de uma habilidade. E a interação entre os componentes seria o quanto eles se relacionam entre si para que uma habilidade aconteça. A Figura 1 apresenta como devemos definir: as setas amarelas representam o grau de complexidade e as azuis a interação entre os componentes. As setas voltadas para cima representam uma alta demanda e as setas para baixo, uma baixa demanda.

Figura 1 | Como definir a prática de uma habilidade complexa 

Assim, utilizamos o método de fragmentação quando a tarefa é complexa, mas os componentes têm pouca interação entre si. Já a segmentação, também utilizamos quando temos uma alta complexidade, mas a interação entre os componentes é alta. E a simplificação ocorre quando a habilidade não é complexa, mas os componentes podem ser de grande ou pequena interação entre si. Para definir qual utilizar, precisamos pensar nas restrições do indivíduo, do ambiente e da tarefa.

Como falado anteriormente, podemos realizar a prática mental, ou seja, nos imaginamos realizando as sessões de prática sem que ocorra o movimento. Esse tipo de prática não é melhor do que a prática física, no entanto, ela pode ser realizada quando o movimento não pode ser feito, como em caso de lesões e fraturas osteomusculares.

Além disso, em algumas aulas de prática física, podemos ensinar mais de uma habilidade ou variações da mesma habilidade. Então, em uma aula de vôlei, podemos ensinar o toque, a manchete e o saque (diferentes habilidades), mas podemos também ensinar o saque para diferentes posições da quadra adversária (variação de uma mesma habilidade). Dessa maneira, é importante pensarmos em como vamos organizar cada sessão de prática.

Vamos compreender primeiro como podemos organizar a prática de diferentes habilidades.

Eu posso ensinar primeiro o toque e pedir que realizem a prática por um tempo. Depois, ensino a manchete, a qual será praticada por mais um tempo e, por fim, o saque, que será praticado por mais um tempo. Esse tipo de prática recebe o nome de prática blocada. Mas eu também posso ensinar em forma de rodízio. Um aluno “A” irá sacar uma bola para o outro lado da quadra e um outro aluno “B” irá receber de manchete, passando a bola para um outro aluno “C” que está perto da rede e que fará o levantamento. Esse aluno “A” que sacou irá pegar o lugar do aluno “B” que recebeu de manchete, que irá pegar o lugar do aluno “C” que levantou de toque. E, assim, a cada tentativa de prática, o aluno fará uma habilidade diferente. Esse tipo de prática recebe o nome de prática randômica.

E como posso ensinar uma mesma habilidade com variações diferentes?

Ela pode ser ensinada de forma constante, em que o aluno irá sacar durante um tempo na posição 6, depois mudar para a 5, depois para a 4, sendo que em cada posição faz um determinado número de tentativas. Ou de forma variada, em que em uma tentativa o saque será na 6, na outra na 5 e na outra na 4, e o aluno irá variar a cada tentativa.

A escolha entre qual organização de prática utilizar vai depender do indivíduo (grau de dificuldade que ele tem, experiências prévias e estágio de aprendizagem), da tarefa e do ambiente, uma vez que as evidências de qual organização da prática é melhor não estão claras na literatura (Ammar et al., 2023).

 

 

Siga em Frente...

Feedback

O feedback é uma informação sobre o desempenho ou a resposta do movimento. Ele pode ser classificado de diversas maneiras. Quanto a sua natureza, ele pode ser extrínseco ou intrínseco. O feedback extrínseco é aquele cuja informação vem de uma fonte externa ao aprendiz, como o comentário do professor, o vídeo do jogo, a pontuação da ginástica e assim por diante. Também é conhecido como feedback aumentado. Já o feedback intrínseco é aquele em que a informação vem do próprio aprendiz, e pode chegar por meio de percepções externas, vindas pela visão, olfato, tato, audição e paladar (exterocepção) ou de percepções internas, advindas dos músculos e das articulações (propriocepção).

Além disso, o feedback pode ser classificado de acordo com o tipo, podendo ser: conhecimento de resultado ou conhecimento de desempenho. O conhecimento de resultado é a informação recebida após o término da ação sobre o resultado do movimento desejado pelo aprendiz. Pode ser informação sobre o tempo em que realizou a corrida, a nota recebida na apresentação de ginástica, o gol realizado, a cesta no basquete e assim por diante. O conhecimento de desempenho fornece informação sobre a qualidade do movimento, ou seja, se o realizou com fluidez, não quebrou o pulso no arremesso do basquete, manteve o ritmo da dança com a música, seu passe foi curto, etc. 

Quanto à frequência de fornecimento de feedback, ela pode ser: concomitante (enquanto a ação acontece), terminal (realizada após o movimento), resumida (fornecida após um número de tentativas) e autocontrolada (quando o aprendiz solicita).

O feedback serve para facilitar o alcance da meta, direcionar o foco de atenção, sintetizar as informações mais importantes, controlar períodos de assimilação das informações, controlar a quantidade e a natureza das informações e motivar o aprendiz em direção à meta. Normalmente, nos estágios iniciais de aprendizagem, o feedback se torna mais presente, com a finalidade de corrigir os movimentos do aprendiz. Depois, é importante que ocorra uma redução dessas informações para que o aluno não fique dependente do feedback para conseguir realizar o movimento (Schimdt; Wrisberg, 2016).

Aprendizagem e desempenho motor

A prática motora e as experiências levam à aprendizagem, e o desempenho motor é o resultado desta aprendizagem. Assim, uma prática bem elaborada tem mais chance de levar a um bom desempenho motor, e uma prática precária acarreta um desempenho motor ruim.

Diante disso, para que a aprendizagem gere um bom desempenho motor, é necessário ter um plano de ação. Neste plano de ação devem estar contidas as informações dos indivíduos (capacidades, experiências prévias, estágio de aprendizagem), a meta que se deseja alcançar, o ambiente em que será realizada a tarefa, como será a organização da prática e quais feedbacks serão fornecidos.

Após colocar esse plano de ação em prática, é necessário avaliar o progresso do aprendiz e compreender mais sobre o seu desempenho motor na habilidade aprendida. A avaliação é um componente muito importante de qualquer experiência de aprendizagem, pois permitirá que o professor saiba como está seu desempenho com relação a sua meta. Então, como deve ser feita essa avaliação?

A resposta é: depende! Isso mesmo, depende da meta que o aprendiz quer atingir. Por exemplo: podemos avaliar o desempenho pelo tempo realizado em uma corrida ou pela distância percorrida em um determinado tempo, ou pelo número de acertos em uma partida. Podemos analisar a qualidade do movimento, classificando-o em bom, ruim, adequado, perfeito, etc. Você pode querer algo mais quantificado ao analisar os ângulos do movimento do joelho durante a corrida, ou do punho no arremesso de basquete. O importante aqui é que você escolha uma maneira de avaliar que seja precisa e confiável e que realmente meça o que você deseja medir.

Outro aspecto importante é a frequência com que a avaliação deve ser realizada. Em alguns momentos a avaliação precisa ser realizada em períodos pré-determinados, em outras a decisão é tomada pelo professor e aprendiz em conjunto. É necessário estar atento a alguns fatores que podem afetar o desempenho no teste, como a fadiga, fatores emocionais e fatores ambientais (situações competitivas).

Assim, as avaliações mais importantes são aquelas que acontecem no contexto desejado, ou seja, se desejo ver desempenho no jogo, a avaliação deveria ser durante o jogo. Se é durante a corrida, a avaliação deve ser feita em uma prova de corrida.

Com isso, compreender os aspectos que mudam com o aprendizado não é suficiente para garantir a aprendizagem motora. É importante também um planejamento adequado da prática que acarretará a aprendizagem. Nesse planejamento estão incluídos os tipos de práticas, o feedback a ser fornecido e a avaliação do desempenho motor.   

Vamos Exercitar?

Retomando a situação do início da aula, Mariana se formou recentemente em Educação Física e vai ensinar habilidades esportivas para crianças e adolescentes. Para tornar o aprendizado incrível, Mariana decide elucidar algumas dúvidas que ela tem por meio de seus estudos. Suas dúvidas são: como posso organizar a prática para que meus alunos tenham um aprendizado eficiente? Como posso fornecer os feedbacks para que sejam adequados à aprendizagem? Como avalio a melhora no desempenho motor dos meus alunos?

A prática física de habilidades complexas pode ser realizada de forma fragmentada, segmentada e simplificada. Quanto à prática, pode ser organizada de forma blocada ou randômica se forem habilidades diferentes, ou de forma constante e variada se for a mesma habilidade com variações. Os feedbacks podem ser dados sobre os resultados (conhecimento de resultado) ou sobre o desempenho (conhecimento de desempenho). E o resultado da aprendizagem é uma melhora no desempenho motor, que deve ser avaliado de acordo com a informação que se deseja obter, tentando ser mais próximo do contexto-alvo.  

Saiba Mais

Quer ver a aplicação de feedback na prática?

Acesse o artigo científico Efeitos do "feedback" autocontrolado na aprendizagem do lançamento da bola da ginástica rítmica. Nele você verá o uso de feedback autocontrolado no lançamento de bola na ginástica rítmica.

 

 

Referências Bibliográficas

AMMAR, A. et al. The myth of contextual interference learning benefits in sports practice: a systematic review and meta-analysis. Educational research review. v. 39, 2023. 

LEMOS, A. et al. Efeitos do "feedback" autocontrolado na aprendizagem do lançamento da bola da ginástica rítmica. Revista Brasileira de Educação Física e Esporte, v. 27, n. 3, p. 485–492, jul. 2013. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbefe/a/xLSVBP4jhQMxxc3zGwVdyJk/?lang=pt&format=html. Acesso em: 28 mar. 2024.

MCKAY, B. et al. Meta-analysis of the reduced relative feedback frequency effect on motor learning and performance. Psychology of sports and science. v. 61, 2022.

SCHMIDT, R.; WRISBERG, C. A. Aprendizagem e performance motora: uma abordagem da aprendizagem baseada na situação. 5. ed. Porto Alegre: Grupo A, 2016.

Encerramento da Unidade

Aspectos Básicos da Aprendizagem Motora

Videoaula de Encerramento

Olá, estudante,

Nesta videoaula você irá compreender os aspectos básicos da aprendizagem motora, começando pelos aspectos introdutórios na abordagem da aprendizagem motora, perpassando os processos de aprendizagem motora a partir de estágios e curvas de aprendizagem e do processamento de informação e da tomada de decisão. Além disso, você aprenderá como organizar a prática de habilidades para um aprendizado mais eficaz.

Esse conteúdo te permitirá aplicar os conceitos anatômicos e fisiológicos de sistema nervoso e muscular para a aplicação de modelos teóricos na prática da aprendizagem motora no ensino de habilidades motoras.

Essa jornada está incrível e te trará muito aprendizado!

Ponto de Chegada

Estudante, a competência para esta unidade é que você seja capaz de aplicar os conceitos de sistema nervoso às teorias da aprendizagem motora e às habilidades motoras, facilitando o entendimento do processamento de informação, assim como o processo da aprendizagem e do controle motor. Para isso, você compreendeu os aspectos básicos da aprendizagem motora, começando pelos aspectos introdutórios na abordagem dos fatores que interferem na aprendizagem motora, como as restrições do ambiente, do indivíduo e da tarefa, compreendendo como as diferenças individuais afetam a aprendizagem motora. Você aprendeu a diferenciar capacidades motoras e habilidades motoras, conhecendo a classificação das últimas. Além disso, você compreendeu que passamos por estágios de aprendizagem, flutuando do estágio inicial para o intermediário e avançado, entendendo que um aprendizado não é linear, apresentando períodos em que a aprendizagem é mais rápida e outros em que é mais lenta.

A explicação para tudo isso acontece por meio de teorias e você viu duas teorias mais utilizadas que apresentam como controlamos o nosso movimento a partir da aprendizagem. Você entendeu também que, a partir das mudanças que ocorrem no comportamento motor com a aprendizagem, nossa percepção muda, o que afeta nosso tempo de reação, tomada de decisão, atenção e precisão, em que tudo fica armazenado em um sistema de memória. Ainda, para que o sistema nervoso trabalhe em prol do aprendizado motor, a estruturação da prática deve ser feita de maneira eficiente para que ocorram mudanças positivas no desempenho motor.   

Reflita

  • Quais fatores podem influenciar a aprendizagem motora?
  • Como aprendemos a controlar os movimentos com a prática?
  • Qual a melhor maneira de estruturar uma prática motora para que o aprendizado seja eficiente? 

É Hora de Praticar!

Thiago é professor de vôlei de um clube em uma cidade. Ele sempre trabalhou com a iniciação do esporte, mas agora irá começar um trabalho com o treinamento de meninas de 13 a 15 anos.

Com o passar dos treinos, Thiago nota que as alunas não estão com o desempenho motor como deveriam estar e resolve conversar com o seu professor de comportamento motor da Universidade em que estudou.

Os questionamentos do Thiago ao professor são:

  • O que pode estar afetando a aprendizagem das alunas?
  • Como a aprendizagem acontece?
  • O que muda com a prática que pode favorecer a aprendizagem?
  • Como posso organizar melhor a prática para garantir um aprendizado?  

Reflita

Como você responderia a esses questionamentos? Para resolvê-los, se necessário, revise o conteúdo desta unidade.

Resolução do estudo de caso

O professor de Thiago pensa um pouco sobre as perguntas e responde:

O aprendizado das alunas pode estar sendo afetado por fatores relacionados a elas, ou ao ambiente ou à tarefa. Relacionados a elas, podem ser as diferenças individuais, que contemplam as condições genéticas, nível emocional, experiências prévias, interesse pela prática, nível de condicionamento e aspectos culturais. Os aspectos relacionados ao ambiente seriam se o local de treino está adequado, as questões de luminosidade, temperatura, tipo da quadra e assim por diante. Com relação à tarefa, o professor questiona se não está muito difícil ou fácil para elas ou se os equipamentos são apropriados.

Ao explicar como a aprendizagem acontece, o professor expõe que ela não é linear e que em determinados momentos podemos apresentar uma melhora do desempenho pequena, e isso é normal. Ainda, a prática permite um melhor tempo de reação para responder aos estímulos e uma melhor tomada de decisão de qual movimento realizar. As alunas se tornam mais atentas e precisas.

O professor sugere que Thiago repense como ele está estruturando as sessões de prática das meninas; talvez o método esteja incorreto, o que pode estar afetando a aprendizagem. Aconselhou a pesquisar mais sobre o feedback, pois pode estar sendo realizado de maneira errada, o que pode estar prejudicando as meninas.    

Dê o play!

Assimile

A seguir, confira uma síntese desta unidade.

Aspectos básicos da aprendizagem motora   Aula 1 — Introdução à aprendizagem motora Restrição do indivíduo, do ambiente e da tarefa Diferenças individuais Capacidades e habilidades motoras   Aula 2 — Compreendendo o processo de aprendizagem motora Estágios de aprendizagem Curva de desempenho Teorias de aprendizagem   Aula 3 — Processamento de informação e tomada de decisão Tempo de reação e tomada de decisão Atenção e precisão Sistema de memória   Aula 4 — Aprendizagem de habilidades motoras Tipos de prática Feedback Aprendizagem e desempenho motor

Para ensinar habilidades motoras, sejam elas esportivas ou tarefas do nosso dia a dia, é importante compreender os aspectos básicos da aprendizagem, conhecendo os fatores que interferem na aprendizagem, como aprendemos a controlar os movimentos, o que acontece com o nosso comportamento motor com a prática e como organizamos essa prática para que a aprendizagem seja eficiente. 

 

Referências

GALLAHUE, D. L.; OZMUN, J. C.; GOODWAY, J. D. Compreendendo o desenvolvimento motor: bebês, crianças, adolescente e adultos. Porto Alegre: AMGH, 2013.

HAYWOOD, K. M.; GETCHELL, N. Desenvolvimento motor ao longo da vida. Porto Alegre: Artmed, 2010.

SCHMIDT, R.; WRISBERG, C. A. Aprendizagem e performance motora: uma abordagem da aprendizagem baseada na situação 5. ed. Porto Alegre: Grupo A, 2016.

TANI, G. et al. Pesquisa na área de comportamento motor: modelos teóricos, modelos de investigação, instrumentos de análise, desafios, tendências e perspectivas. Revista da Educação Física/UEM, v. 21; n. 12, p. 229-380, 2010.