Correntes do pensamento filosófico
Aula 1
O Helenismo
O helenismo
Olá, estudante!
Nesta videoaula, você vai saber mais sobre o Epicurismo e sobre Sêneca e Epicteto, que falaram acerca da felicidade, da resignação, da apatia e da imperturbabilidade, bem como ver qual foi a contribuição do Helenismo à Cultura Ocidental. O nosso intuído é que você conheça as diferentes interpretações de mundo conforme à visão dessas que estão entre as principais correntes de pensamento.
Este conteúdo é importante para o desenvolvimento da sua capacidade crítica diante da realidade.
Vamos lá!
Ponto de Partida
Boas-vindas a mais uma reflexão filosófica, desta vez, acerca do período helenístico, em que a maior preocupação era com a questão da felicidade, uma vez que estava difícil de ser alcançada. Com essa reflexão, queremos que conheça as diferentes interpretações de mundo conforme a visão de algumas das principais correntes de pensamento, a ponto de conseguir identificar as diferentes interpretações de mundo e da contribuição de algumas correntes de pensamento, indo desde o Epicurismo, passando pelo Estoicismo, sobretudo por meio da contribuição de Sêneca e Epicteto. Aliás, esperamos que fique mais claro como a cultura ocidental foi impactada por essas correntes filosóficas.
Para nortear a reflexão, queremos que você estude com o objetivo de, ao final, conseguir ter mais clareza acerca do motivo de algumas pessoas se mostrarem mais lutadoras e outras desistirem com facilidade, bem como que você tenha argumentos para explicar qual delas pode ser considerada a mais feliz.
Pronto para enriquecer mais um pouco os seus conhecimentos? Então, vamos lá!
Vamos Começar!
Neste momento, vamos lhe apresentar a mentalidade predominante no período helenístico, quando, de certo modo, o homem se viu sozinho, sem poder contar com a contribuição da pólis e vivendo sem a perspectiva de participar ativamente nas decisões políticas.
Helenismo foi o período em que a filosofia grega, o modo de viver dos gregos, extrapolou os limites geográficos da Grécia e passou a influenciar boa parte do mundo antigo, sobretudo Roma. Esse processo teve início com as conquistas de Alexandre Magno, pois ele foi um divulgador do modo de vida dos gregos.
Derrotadas pelos macedônios, as pólis gregas perderam a independência, a autonomia e deixaram de ser o plano de fundo indispensável à felicidade humana. Os assuntos de interesse público não foram mais debatidos por todos, mas impostos pelos dominadores, e como ser feliz vivendo assim, sendo conduzido por outros? As escolas helenísticas têm uma visão intimista e individualista acerca dessa questão e exaltam o equilíbrio como forma para o homem ser senhor de si.
Qual é nossa postura diante das dificuldades às quais somos expostos? Qual é a relação dessa postura com a nossa ideia do que é felicidade? Essa era a preocupação dos filósofos que sucederam a Aristóteles: como ser feliz imerso em um mundo conturbado, tumultuado, sem perspectivas de melhoras, sem a possibilidade de decidir sobre os rumos da própria vida? Como ser feliz em uma pólis sem autonomia, sem liberdade e sem poder de decisão? Como ser feliz obedecendo ordens e desenvolvendo atividades que contrariam a nossa própria natureza? Os filósofos do período helenístico apresentaram cinco caminhos diferentes para se alcançar a felicidade, chamadas de correntes de pensamento; são elas: ceticismo, ecletismo, cinismo, epicurismo e estoicismo.
Cabe lembrarmos que, embora a Filosofia não se paute no utilitarismo, naquele momento, ela acabou servindo a esse propósito, pois era preciso fornecer hermenêuticas sólidas e concretas que pudessem aplacar a amargura de uma vida rasa e insossa, bem como nortear o agir humano rumo ao seu maior bem: o desfrute da felicidade. Mas como ser feliz nesse emaranhado de mudanças? É isso que as correntes do período helenístico tentaram responder.
O epicurismo
O nome dessa escola se deve ao seu fundador, Epicuro de Samos (341-270 a.C.), para quem o papel da Filosofia é curar os males da alma, assim como a medicina busca curar os males do corpo. Do ponto de vista ético, os epicuristas entendem que a felicidade consiste no prazer (hedoné), mas, ainda que todos os prazeres sejam bons por natureza, nem todos devem ser buscados, pois há prazeres corrompidos — os excessos, por exemplo —, logo, a apatia ou ausência de dor e sofrimento tornou-se o grande objetivo epicurista.
“O autêntico prazer é inseparável da tranquilidade da alma e da realização plena da autossuficiência” (Abrão, 1999, p. 72). Talvez, a amizade seja a mais importante fonte de satisfação e compensações. “Epicuro julgava que os maiores prazeres eram os intelectuais, sendo o maior de todos filosofar com os amigos. Segundo ele, buscar prazer sem pensar no dia seguinte não nos permitiria maximizar nosso bem a longo prazo” (Law, 2008, p. 251).
Do ponto de vista do conhecimento, o epicurismo segue a teoria atomista de Demócrito, em que tudo o que existe são as coisas físicas, corpóreas, os átomos e o vazio. Até mesmo os deuses estavam sujeitos a essa lei e não desempenhavam nenhum papel na formação e no governo do mundo (Abbagnano, 2003). Diante disso, conhecer é acumular sensações, e a sensação é o critério da verdade e do bem.
Pode-se dizer que a base do epicurismo é o propósito de libertação, assim resumido (Abrão, 1999): não há que temer aos deuses; morte significa ausência de sensações; é fácil procurar o bem; e é fácil suportar o mal.
A morte é apenas a desagregação dos átomos, e o homem nada sente. Quem compreender que não há nada de terrível no fato de estar morto, não temerá a vida, o que o libertará do destino e dos deuses, tornando-se livre para seguir o próprio objetivo: a felicidade (Abrão, 1999). Os epicuristas também ficaram conhecidos como Filósofos do Jardim, pois Epicuro comprou uma casa com um belo jardim em Atenas, e era em seu jardim que ele lecionava.
Existem prazeres naturais e necessários que devem ser sempre satisfeitos, como comer, beber, descansar etc., pois a não satisfação compromete a nossa saúde e a nossa vida. Também há prazeres naturais não necessários que podem ser satisfeitos às vezes, como comer bem, tomar bebidas refinadas etc., além dos prazeres não naturais não necessários, que jamais devem ser satisfeitos, como as drogas, por exemplo, que comprometem a nossa saúde, a nossa vida e podem gerar dependência (Epicuro, 2002). Para alcançar a felicidade, o homem não deve depender de nada e nem de ninguém além de si.
Para os epicuristas, devemos procurar viver sem dor física, psíquica e emocional, e um dos acontecimentos que mais nos causam dor é a morte, porém eles entendem que não sofremos com a morte em si, pois quando ela chega, já não estamos mais conscientes, portanto, sofremos, com a ideia de morte. Curiosamente, tanto os epicuristas quanto Aristóteles, embora acreditassem na existência dos deuses, não acreditavam em vida pós-morte e, ainda que entendessem a morte como um marco do fim de tudo, não a temiam.
Siga em Frente...
Sêneca, Epicteto e a felicidade estoica
O estoicismo é a escola que melhor caracteriza o espírito cosmopolita da época, chegando até Roma e influenciando pessoas importantes, como Sêneca (4 a.C. – 65 d.C.) e Epicteto (50-138 d. C.), além do imperador romano Marco Aurélio (121-180 d.C.), tornando-se parte da cultura e do pensamento romanos (Abrão, 1999). Aliás, o estoicismo pode ser
considerado o pensamento mais original e o que teve a maior duração entre as escolas helenistas, e “muitos dos fundamentos enunciados ainda integram doutrinas modernas e contemporâneas” (Abbagnano, 2003, p. 376).
O seu nome deriva de stoá (pórtico, em grego), pois foi no pórtico da praça do mercado, em Atenas, que o seu primeiro representante, Zenão de Cicio (333-262 a.C.), começou a ensinar publicamente. Zenão não se apegava aos refinamentos sociais e levou uma vida ascética, coerente com o seu pensamento. “Diz-se que, tendo caído e quebrado um dedo do pé, viu nisso um chamado de morte e se estrangulou” (Law, 2008, p. 252).
Segundo a teoria do conhecimento estoica, o mundo é o logos e suas partes se unem entre si pela simpatia, pela correspondência entre os vários aspectos da realidade. Tanto a relação do homem com o mundo quanto a do conhecimento ou da ideia com as coisas também só são possíveis porque há simpatia entre as partes. O mundo, por sua vez, é um corpo vivo animado pelo sopro vital (pneuma), e o pneuma é o logos, e para conhecê-lo, é necessário conhecer a
relação entre a natureza corpórea das coisas e a razão.
Como as demais escolas da época, o estoicismo também primou pela questão moral, assim, a felicidade, para essa escola, consistia em viver de acordo com a ordem universal, desviando-se das paixões, pois a liberdade consistia nisso, e isso faria com que o homem se tornasse livre até mesmo diante da escravidão. A ausência de perturbações, ataraxia, era o ideal ético do estoicismo (Abrão, 1999), e era isso que constituía a prática da virtude e a superação de si; só superando a si mesmo é que o homem se uniria ao Logos (Mondin, 1982).
Sêneca, um dos maiores representantes do estoicismo, era assessor de Nero (37-68 d.C.), porém esse imperador desconfiou que Sêneca tramava a sua queda e o sentenciou à morte, obrigando-o a cometer suicídio e lhe dando a oportunidade de escolher como morrer. Sêneca escolheu deitar-se numa banheira de água morna e cortar os pulsos, uma morte lenta para poder relatar aos seus discípulos o que se sente diante da morte, tendo sido coerente com sua fala “quem não souber morrer bem terá vivido mal” (Sêneca, 1985, p. 407). Percebe-se que ele foi fiel ao ideal de imperturbabilidade defendido durante toda a vida e não caiu em contradição mesmo diante de infame sina. Os estoicos defendiam o amor fati, expressão latina que significa amor pelo destino, não importando qual viesse a ser esse destino.
Não se sabe ao certo quando Epicteto nasceu, possivelmente, foi entre 50 e 60 d.C., mas já no ano 70 d.C. tornou-se escravo, e mesmo nessa condição, começou a ter aulas de Filosofia e percebeu que tinha vocação para isso. Entre 88 e 93 d.C., foi expulso de Roma com outros filósofos e retirou-se para a cidade de Nicópolis, no Épiro, onde fundou uma escola que alcançou grande sucesso, atraindo ouvintes de todas as partes. Não se sabe com certeza a data de sua morte, mas 138 d.C. é uma das mais consideradas (Reale; Antiseri, 2003).
O grande princípio da filosofia de Epicteto consiste na divisão (diáiresis) das coisas em duas classes:
- Aquelas que estão em nosso poder: opiniões, desejos, impulsos e repulsões.
- Aquelas que não estão em nosso poder: todas as coisas que não são atividades nossas, como corpo, parentes, haveres, reputação etc.
O bem e o mal residem exclusivamente na classe das coisas que estão em nosso poder, precisamente porque estas dependem de nossa vontade, e não na outra classe, porque as coisas que não estão em nosso poder não dependem de nossa vontade.
Em grego, a palavra diáiresis significa divisão, já a palavra proáiresis significa opcional, logo, Epicteto colocou a proáiresis como fundamento moral. “A proáiresis (pré-escolha, pré-decisão) é a decisão e a escolha de fundo, que o homem faz de urna vez para sempre e com a qual, determina o diapasão do seu ser moral, e disso dependera tudo o que fará e como o fará” (Reale; Antiseri, 2003, p. 329-330).
A contribuição do helenismo à cultura ocidental
Uma vez que o objetivo da ética era levar o homem a encontrar a felicidade por meio da ataraxia, da imperturbabilidade, pode-se dizer que anacoretas, eremitas e monges ilustram essa visão estoica à medida em que buscam o êxtase místico ou nirvana como um ideal de controle sobre si, como defendido pelo estoicismo.
Os estoicos valorizavam a resignação, isto é, o conformismo, a aceitação, o contrário da indignação, dando origem à expressão “paciência estoica”, o que implica aceitar pacientemente tudo o que acontece, pois faz parte do plano divino, desprezando toda forma de prazer e sendo insensível aos bens do mundo — atitude realçada pelo cristianismo.
No final da Idade Antiga, conhecida como antiguidade tardia, ocorreu o encontro entre a filosofia e o cristianismo, e ambas se influenciaram reciprocamente. Alguns historiadores do pensamento entendem que esse período já faz parte da filosofia medieval, mas cronologicamente ele pertence ao período antigo, embora suas maiores influências tenham ocorrido posteriormente. A filosofia segue as mesmas divisões da história somente na nomenclatura e não nas datas. Trata-se de um período, do século I ao século III de nossa era, em que surgiram tendências obscurantistas, muitas seitas religiosas, sistemas filosóficos, magia e alquimia, contudo, ainda havia quem buscasse interpretar a realidade à luz da tradição filosófica (Helferich, 2006, p. 65), entre os quais, encontra-se Plotino (205-270 d.C.).
Plotino foi o fundador do neoplatonismo, discípulo de Amônio Saccas (175-242 d.C.) e mestre de Porfírio (234-305 d.C.). Ele não apenas retomou o platonismo, mas acrescentou mudanças: evitou o dualismo platônico, retomou a exigência de buscar um princípio único e superou a ênfase moralizante das filosofias da época e o ceticismo sem cair no ecletismo. Plotino resumiu, renovou e ultrapassou a tradição (Abrão, 1999, p. 89); a sua versão do platonismo determinou o desenvolvimento da metafísica cristã na Idade Média.
Foi Plotino quem transpôs a lacuna entre a teoria das ideias de Platão e a teologia cristã. Os teólogos tomaram de Plotino a ideia de que a alma importa mais que o corpo e que, por meio da formação dela, consegue-se alcançar Deus, o uno (Law, 2008, p. 29), que é um mistério, pois é indizível e sobre ele só se pode falar por aproximações; ele não é acessível aos sentidos e ao intelecto, mas transcendente e absoluto. O bem é a ideia pela qual nos aproximamos dele, e o objetivo final da filosofia é contemplá-lo; cabe ao homem cultivar aquilo que, na alma, o aproxima do uno: a unidade da virtude (Abrão, 1999).
Vamos Exercitar?
Por que algumas pessoas se dedicam mais do que outras? Por que algumas pessoas têm mais foco, mais persistência, mais gana? Precisamos entender com mais profundidade essas questões.
Se levarmos em conta o que as escolas helenísticas nos apontam, percebemos que é preciso saber para onde vamos, fazer escolhas acertadas e ter clareza sobre o que é fundamental na vida e o que é supérfluo. Além disso, precisamos deixar de nos incomodar com aquilo que foge ao nosso controle; algumas coisas são escolhas nossas e, portanto, são nossas responsabilidades, mas outras não, conforme nos mostra Epicteto, principalmente.
Desgastar-se com aquilo que não está ao nosso alcance serve apenas para sugar a nossa energia e nos fazer desistir dos nossos objetivos ou, ao menos, nos distanciar deles. Para quem não sabe em que porto quer chegar, nenhum vento lhe é favorável, e esse era um dos lemas dos estoicos.
Saiba Mais
Para saber mais sobre o Epicurismo, leia o tópico 25.4. Epicurismo: Ética, Prazer E Sensação, do livro Curso de Ética Geral e Profissional. Nele, o autor trata dos pontos mais relevantes da contribuição do epicurismo à moralidade.
Para aprofundar os seus conhecimentos de Sêneca, Epicteto e da felicidade estoica, leia o tópico 25.5. Sêneca: O Estoicismo Romano e a Ética da Resignação, do livro Curso de Ética Geral e Profissional. Nele, o autor trata dos pontos mais relevantes da contribuição do estoicismo à moralidade.
Saiba mais sobre a contribuição do helenismo à cultura ocidental lendo o artigo Diálogos e Tensões no Judaísmo no Período Helenista, de Solange Maria Carmo e Aíla L. Pinheiro de Andrade. Nele, as autoras abordam o conceito, o surgimento e os tipos de diásporas judaicas com enfoque especial no período helenista (de 312 a.C. a 31 a.C.), bem como mostram como a influência helenista foi recebida de forma diferente pelos judeus.
Referências Bibliográficas
ABBAGNANO, N. Dicionário de filosofia. 4. ed. Tradução: Alfredo Bosi. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
ABRÃO, B. S. (org.). História da filosofia. São Paulo: Nova Cultural, 1999. (Coleção Os Pensadores).
BITTAR, E. C. B. Curso de ética geral e profissional. São Paulo: Saraiva, 2023. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9786555599602/. Acesso em: 16 jan. 2024.
CARMO, S. M.; ANDRADE, A. L. P. Diálogos e tensões no judaísmo no período helenista. Horizonte, Belo Horizonte, v. 17, n. 52, jan./abr. 2019. Disponível em https://periodicos.pucminas.br/index.php/horizonte/article/view/P.2175-5841.2019v17n52p249/14606. Acesso em: 29 abr. 2024.
EPICURO. Carta sobre a felicidade [a Meneceu]. Tradução: Álvaro Lorencini, Enzo del Carratore. São Paulo: Unesp, 2002.
HELFERICH, C. História da filosofia. Tradução: L. S. Repa, M. E H. Cavalheiro, R. Nascimento. São Paulo: Martins Fontes, 2006.
LAW, S. Filosofia: guia ilustrado Zahar. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008.
MONDIN, B. Curso de Filosofia: os filósofos do ocidente. 8. ed. Tradução: B. Lemos. São Paulo: Paulus, 1982. v. 1.
REALE, G.; ANTISERI, D. História da filosofia: filosofia pagã antiga. Tradução: I. Storniolo. São Paulo: Paulus, 2003. v. 1.
SÊNECA, L. A. Da tranquilidade da alma. 3. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1985. (Coleção Os Pensadores).
Aula 2
A questão dos Universais
A questão dos universais
Olá, estudante! Nesta videoaula, você vai conhecer mais a querela dos universais entre realistas e nominalistas e como se deu o surgimento das universidades; aqui, também falaremos sobre generalização, abstração, correspondência entre ideia ou conceito e objeto ou fato. O nosso intuito é que você conheça as diferentes interpretações de mundo conforme a visão dessas que estão entre as principais correntes de pensamento.
Este conteúdo é importante para o desenvolvimento da sua capacidade crítica diante da realidade.
Vamos lá!
Ponto de Partida
É muito bom ter você conosco para mais uma reflexão filosófica acerca de uma querela da baixa Idade Média ocorrida por ocasião do momento que antecedeu o surgimento das universidades. Estamos nos referindo à questão dos universais: se os conceitos universais (gerais) existem, de fato, ou são apenas vocábulos da linguagem. O homem (enquanto gênero) não existe! A pedra (enquanto gênero) não existe! Existe “esse” homem, “essa” pedra, mas se os universais não existem, como é que chegamos a formulá-los e a compreendê-los?
Nesse momento, surgiram duas interpretações diferentes (e antagônicas) sobre a questão dos universais: os realistas (esses termos existem, de fato) e os nominalistas (só existem os seus nomes), e como dissemos, em meio a esse debate, acabaram surgindo as universidades.
Para nortear a aprendizagem, queremos que você se proponha a refletir sobre a seguinte questão: o limite da linguagem (e do pensamento) é a realidade ou conseguimos pensar e falar sobre coisas inexistentes?
Embarque em mais essa reflexão e boa aprendizagem!
Vamos Começar!
Na baixa Idade Média, a disciplina por excelência, além da teologia, era a lógica, pois era muito importante saber construir argumentos claros e convincentes e encontrar a verdade bíblica, distinguindo o que é linguagem literal e o que é linguagem figurativa ou simbólica.
Preocupados com a questão da linguagem e valendo-se da lógica e da dialética, surgiram, inicialmente, debates acerca de questões relacionadas à alma, e isso acabou desembocando na querela acerca da natureza dos universais (generalizações).
Basicamente, a preocupação era perceber a relação que existe entre as palavras e as coisas, entre os conceitos e a realidade. Rosa, por exemplo, é um nome que sobrevive à morte da própria flor, o que indica que a palavra pode se referir até às coisas inexistentes, logo, será que os conceitos existem por si mesmos, separados dos objetos sensíveis? Para responder a essa questão, surgiram, originalmente, duas correntes: os realistas e os nominalistas, que acabaram se ramificando.
| Qual é o estatuto dos universais? | ||||
| Posição | Realismo exagerado | Realismo moderado | Conceitualismo | Nominalismo |
| Proponente | Guilherme de Champeaux | São Tomás de Aquino | Pedro Abelardo | Guilherme de Ockham |
| Ideia central | Os universais existem e possuem independência e prioridade ontológica sobre os particulares (ante rem). | Os universais existem, mas não são independentes dos particulares, pois estão nos particulares (in re). | Os universais existem na nossa mente (post rem). | Os universais não existem. São apenas nomes que possuem relações estritamente lógicas. |
* Ante rem, antes das coisas; in re, nas coisas; post rem, após as coisas.
Figura 1 | A querela dos universais na escolástica. Fonte: Souza (2018, p. 89).
Realistas
O realismo defende que os universais têm existência efetiva, uma existência anterior e separada das coisas, como ensinava Platão (a posição de Platão é conhecida como realismo exagerado), ou da forma (ideia, conceito) das coisas, como ensinava Aristóteles (a posição de Aristóteles é conhecida como realismo moderado). Para os realistas, os universais existem, realmente; algumas vezes, o realismo tem sido chamado de realismo platônico, por ter sido o primeiro a adotar essa postura.
Por ser moderado, o realismo de Aristóteles, às vezes, é chamado de conceitualismo; “o universal, embora não sendo um arquétipo ideal, é um conceito significativo obtido por abstração” (Abbagnano, 2003, p. 169), postura que será, posteriormente, adotada por São Tomás de Aquino, um dos maiores nomes da baixa Idade Média ao lado de Santo Agostinho, um dos maiores nomes da alta Idade Média. Santo Agostinho se aproxima bastante da concepção platônica, a ponto de constituir o que ficou conhecido como realismo platónico-agostiniano cuja característica principal “consiste em situar, por assim dizer, os universais ou ideias, na mente divina em vez de os considerar como existindo no mundo supra celeste ou inteligível” (Mora, 1978, p. 244).
Na idade média, houve atitudes muito diferentes face a este problema: Desde o realismo extremo, segundo o qual os universais não existem por si fora dos indivíduos nem fora da mente divina, antes existindo nos próprios indivíduos, fora de qualquer consideração mental deles, até um realismo moderado que admite que, pelo menos no seu aspecto lógico, o universal está só na mente ou, para o enunciar mais rigorosamente, não pode existir realmente fora da mente. Mas, em verdade, este existir na mente do universal verifica-se quando este é visto sob o aspecto da concepção da mente; como coisa concebida, em contrapartida, o universal existe realmente fora da mente e ainda nos próprios indivíduos, como já sustentava Aristóteles. Pode dizer-se, portanto, que o universal tem pelo menos fundamento na coisa sem o que não seria universal, nem haveria ciência possível, mas mera posição de algo ou simples imaginação (Mora, 1978, p. 244).
O realismo exagerado afirma que os termos universais são, de fato, coisas ou entidades metafisicas subsistentes, havendo perfeita correspondência entre elas e a realidade, conforme havia sido ensinado por Escoto Eríugena (810-877 d.C.). Naquele momento, essa concepção estabeleceu estreita correspondência entre o pensamento e a realidade, sendo o estudo da linguagem, em última instância, o estudo da realidade, e, “sendo esta uma teofania, era o estudo da própria manifestação de Deus, daquele Deus sobre cujas ideias universais e eternas as coisas eram modeladas” (Reale; Antiseri, 2003, p. 168).
Desse modo, o realismo exagerado era concebido como “posição platônica levada as extremas consequências. Os universais seriam entes reais, subsistentes em si, ideias eternas e transcendentes que têm função de arquétipo e paradigma em relação aos indivíduos concretos” (Reale; Antiseri, 2003, p. 168).
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Nominalistas
Para os nominalistas, os universais (termos que designam ideias gerais, como homem, pedra e árvore) são meras palavras, meros nomes, sem existência real; são abstrações feitas a partir da percepção de objetos individuais (esse homem, essa pedra, essa árvore) (Abrão, 1999).
O nominalismo defendia que os universais (espécies e gêneros) não são realidades exteriores às coisas, como pretendiam os realistas, nem realidades nas coisas, como afirmava o conceitualismo, “mas são apenas nomes, termos ou vocábulos, por meio dos quais se designam coleções de indivíduos” (Mora, 1978, p. 199).
Para os nominalistas, só existem entidades individuais; os universais são apenas nomes, termos da linguagem, e afirmar que os universais existem na mente de Deus é limitar a onipotência divina, segundo Guilherme de Ockham (1285-1347). “Admitir universais nas coisas era supor que as coisas têm ou podem ter ideias ou modelos próprios, limitando-se também assim a onipotência divina” (Mora, 1978, p. 199).
E é nesse ambiente de discussão entre realistas e nominalistas que surgiram as primeiras universidades, sobretudo em Paris; ou seja, esse foi um dos primeiros assuntos aprofundados nos bancos universitários daquela época. Perceba, aliás, a correlação que há entre os termos: a questão dos universais e o surgimento das universidades.
O surgimento das universidades
O império romano caiu no ocidente em 476 d.C. e em 527 d. C. Justiniano, que era um imperador culto que queria resgatar no oriente o brilho que o império tivera em Roma, subiu ao trono, mas, influenciado por sua esposa Teodora, agiu arbitrariamente, sufocando rebeliões e fechando todas as escolas pagãs. Em 529 d. C., fechou oficialmente a Academia platônica e o Liceu aristotélico, dificultando ainda mais a transmissão do conhecimento e da cultura.
Contudo, essa transmissão não se extinguiu totalmente, pois a Igreja mantinha escolas monacais (dos monges) e episcopais (dos bispos), além disso, no mundo islâmico, que passou a incluir a Índia e a Andaluzia, na Espanha, o estudo não cessou. Bagdá foi um grande centro de estudos filosóficos e científicos com a famosa “Casa da Sabedoria”, e esse período ficou conhecido entre os islâmicos como Idade de Ouro da erudição, o qual durou até a época das cruzadas, por volta do século XIII.
No ocidente, porém, muitos anos após as invasões bárbaras, Carlos Magno (742-814 d.C.) se tornou rei dos francos (de 768 a 800 d. C.) e, mesmo não sabendo ler e escrever, percebeu a necessidade de restaurar o sistema educacional em seu império. Contando com a ajuda do monge inglês Alcuíno de York (730-804 d.C.), criou, em 781 d.C., as escolas palatinas, que receberam esse nome por funcionar dentro dos palácios.
A grade curricular elaborada por Alcuíno tinha por base as sete artes liberais, que compreendiam o trívio (gramática, retórica e lógica ou dialética) e o quadrívio ou quatrívio (astronomia, geometria, música e aritmética), subordinadas, porém, à teologia. No Natal do ano 800 d. C., Carlos Magno foi coroado imperador do Sacro Império Romano Germânico pelo Papa Leão III, o qual ele havia protegido diante das conspirações por parte da nobreza romana, e, aos poucos, estendeu o seu sistema educacional por quase toda a Europa, desse modo, estava preparado o terreno para o germinar da escolástica e, posteriormente, das universidades.
Os professores das artes liberais começaram a ser chamados de escolásticos, título que se estendeu também aos docentes de filosofia e teologia. Por isso, compreende-se por escolástica a filosofia e a teologia que eram ensinadas nas escolas medievais cristãs, não esquecendo, todavia, que à teologia cristã se outorgava o título de ciência das ciências e, à filosofia, apenas o de serva da teologia.
O problema fundamental nessa época era o entendimento e a transmissão da verdade revelada dissipando a incredulidade e as heresias, portanto, a filosofia escolástica não teve a autonomia da filosofia grega, pois se limitava ao ensino religioso do dogma (verdade de fé inquestionável).
Normalmente, distingue-se três períodos na filosofia escolástica: a alta, que vai do século IX ao XII; o florescimento, nos séculos XIII e XIV; e a sua dissolução, do século XIV ao Renascimento. No primeiro, concebia-se fé e razão como tendo harmonia intrínseca e substancial; no segundo, a harmonia era considerada parcial e não se descartava a possibilidade de oposição entre elas; e no terceiro, prevalecia a oposição entre ambas (Abbagnano, 2003).
As obras mais utilizadas nessa época foram: o Organon, de Aristóteles; o Timeu, de Platão; o Isagoge, de Porfírio; e A Consolação da Filosofia, de Boécio. O neoplatonismo também foi muito difundido, particularmente por Escoto Eriúgena, o qual, em sua obra Divisão da Natureza, esforça-se por conciliá-lo com o cristianismo.
Visando à difusão do cristianismo, a Igreja se empenhou em propagar o sistema escolar e, no século XIII, a escola adquiriu a configuração de universidade, produto típico da Idade Média. Inicialmente, o termo universidade indicava um centro de estudos, uma associação corporativa, um modelo mais próximo dos atuais sindicatos do que das atuais universidades.
As universidades de Bolonha e de Paris estão entre as primeiras que surgiram e acabaram se tornando uma espécie de modelo para as demais. A universidade de Paris surgiu a partir de uma ampliação da escola da catedral de Nôtre-Dame, e uma das figuras mais importantes do início dessa universidade foi Pedro Abelardo (1079-1142 d.C.).
Envolvido com a questão dos universais, Pedro Abelardo defendia uma solução intermediária: “os universais só existem no intelecto, mas ao mesmo tempo, mantém relação com as coisas particulares na medida em que lhes dão significado. Desse modo, é como significado que os universais subsistem às coisas” (Abrão, 1999, p. 108).
Vamos Exercitar?
Após saber mais sobre os realistas e os nominalistas, certamente, você está em melhores condições de abordar, filosoficamente, se o limite do pensamento e da linguagem é a realidade ou se conseguimos pensar algo que não existe.
Normalmente, quando tentamos criar algo inexistente, misturamos ideias existentes e conhecidas por nós separadamente (o unicórnio, por exemplo, só existe em nossa mente, pois misturamos, numa só, duas ideias existentes separadas, cavalo e chifre) e, unindo-as, formamos uma terceira.
Criação ex nihil (a partir do nada) é muito difícil, embora não impossível e, geralmente, os artistas são considerados artífices dessa façanha, mas entraríamos numa discussão mais profunda, que fugiria um pouco do nosso escopo, que é nos conscientizarmos de que o nosso pensamento se circunscreve dentro de determinados limites e que essa foi a temática abordada por realistas e nominalistas na ocasião do germinar das universidades.
Saiba Mais
Para saber mais sobre os realistas, leia o tópico A Querela os Universais, do livro Filosofia Geral e Jurídica. Nele, o autor trata das questões relacionadas ao realismo e suas ramificações.
Para enriquecer a sua compreensão acerca dos nominalistas, leia o tópico Fé, Razão e Nominalismo, do livro Introdução à Filosofia. Nele, o autor apresenta as principais contribuições do nominalismo à Questão do Universais.
Aprofunde os seus conhecimentos em relação ao surgimento das universidades assistindo ao filme Em Nome de Deus (atenção: existem dois filmes com esse mesmo nome; veja se se trata da história de Abelardo e Heloísa. Abelardo é considerado o primeiro professor universitário do mundo). Esse filme está disponível em vários sites de pesquisa e é baseado no livro Minhas Calamidades, escrito por Pedro Abelardo, mostrando, com detalhes, o surgimento da primeira universidade: a Universidade de Paris.
Referências Bibliográficas
ABBAGNANO, N. Dicionário de filosofia. Tradução: Alfredo Bosi. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
ABRÃO, B. S. História da filosofia. São Paulo: Nova Cultural, 1999. (Coleção Os Pensadores).
GUIRALDELLI Jr., P. Introdução à filosofia. Barueri: Manole, 2003. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788520448168/. Acesso em: 18 jan. 2024.
MORA, J. F. Dicionário de filosofia. Tradução: Antônio José Massano, Manuel Palmeirim. Lisboa: Dom Quixote, 1978.
REALE, G.; ANTISERI, D. História da filosofia: patrística e escolástica. Tradução: Ivo Storniolo. São Paulo: Paulus, 2003. v. 2.
SOUZA, C. V. S. Filosofia geral e jurídica. Porto Alegre: Sagah, 2018. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788595023079/. Acesso em: 18 jan. 2024.
Aula 3
A Fenomenologia
A fenomenologia
Olá, estudante!
Nesta videoaula, você vai conhecer mais o fenômeno enquanto limite do conhecimento; a questão da consciência e da epoché (esvaziamento de ideias concebidas antecipadamente); e a preponderância da intencionalidade. O nosso intuito é que você conheça as diferentes interpretações de mundo conforme a visão dessas que estão entre as principais correntes de pensamento.
Este conteúdo é importante para o desenvolvimento da sua capacidade crítica diante da realidade.
Vamos lá!
Ponto de Partida
Queremos lhe apresentar mais um desdobramento ocorrido na Filosofia entre fins do século XIX e começo do século XX; estamos falando da Fenomenologia — uma corrente filosófica que teve grande impacto nas mudanças ocorridas recentemente em nossa sociedade.
Para os fenomenólogos, o fenômeno (aquilo que aparece, que se manifesta) é o limite do conhecimento, e a consciência que adquirimos do objeto ou da realidade exige a epoché (o esvaziamento, a redução eidética). No processo do conhecimento, há que se reconhecer a preponderância da intencionalidade, pois ela sempre antecede a nossa visão de mundo.
Para nortear o estudo, queremos que você se proponha à seguinte reflexão: há plena correspondência entre a imagem que você tem de você e a imagem que os outros têm de você? Você é aquilo que se mostra, aquilo que aparece? E o mundo é tal qual o concebemos em nossa mente?
Embarque conosco e vamos buscar aumentar o nosso senso crítico-reflexivo!
Vamos Começar!
O problema do conhecimento foi um dos mais pertinentes na Idade Moderna, desde Galileu até Kant, passando por Descartes, Locke, Hume, entre outros. Locke buscou conhecer os limites do nosso conhecimento e concluiu que ele se limitava ao fenômeno, não nos sendo possível conhecer nada além do fenômeno (Locke, 1999); Hume, por sua vez, compartilhou da mesma
ideia de Locke e, também, defendeu que o nosso conhecimento se limitava ao fenômeno (Hume, 1984); por fim, Kant também sustentou que não nos era possível conhecer o númeno, (a essência do mundo), mas apenas o fenômeno (o modo como o mundo se manifesta) (Kant, 2001).
O fenômeno é o limite do conhecimento
O termo fenômeno em língua grega significa aquilo que aparece, ou seja, a aparência. “Para muitos filósofos gregos, o fenómeno é o que parece ser, tal como realmente se manifesta, mas que em rigor, pode ser qualquer coisa diferente e até oposta” (Mora, 1978, p. 106). O fenômeno pode ser entendido como algo que se contrapõe ao ser verdadeiro e que, por vezes, até o encobre. Por exemplo: você não é mais o bebê recém-nascido daquela foto guardada, você não é o corpo que você tem, pois ele está em constante mudança (tente imaginar qual será a imagem que você deixará de você para o mundo), mas pode ser que te vejam e te identifiquem pelo corpo, e, nesse caso, a tua essência, o teu verdadeiro eu não
aparece às pessoas, o que aparece é o teu corpo, que acaba por encobrir o teu ser.
Percebe-se que o conceito de fenômeno é extremamente equívoco, podendo ser a verdade, quando transparente e evidente, ou aquilo que encobre a verdade, ou seja, o falso ser. Não se descarta, ainda, a possibilidade de um fenômeno ser um caminho para a verdade se manifestar.
Há três concepções diferentes de fenomenologia, que tanto podem se apresentar confusamente quanto entrelaçadas na história da filosofia. Até àqueles pensadores para quem a oposição entre fenômeno e ser verdadeiro equivale à oposição entre o aparente e o real, o fenômeno não significa somente o ilusório (Mora, 1978).
Assim, não se pode dizer que o fenômeno seja uma realidade ilusória, mas uma realidade subordinada e dependente, tal qual se pode dizer de uma sombra projetada por uma luz, que não é a luz, mas sem a qual, não nos seria acessível (Mora, 1978). Então, pode-se dizer que o fenômeno não é o ser em si, mas também não é mera aparência; ele é objeto de experiência possível diante do que é simples aparência ilusória e frente ao que se encontra para além da experiência. Segundo Husserl, é o objeto intuído, aparente, tal qual nos aparece aqui e agora (Husserl, 2012). Ou seja, o fenômeno é aquilo que nos é possível apreender, aquilo que conseguimos experienciar, mas não se limita ao experienciável, pois experienciamos a partir da nossa visão, e é interpretado a partir das nossas idiossincrasias.
Edmundo Husserl é um dos maiores nomes da fenomenologia; ele é matemático e se interessou por filosofia por influência de Franz Brentano (1838-1917), com quem aprendeu que os estados mentais são sempre dirigidos para além de si mesmos; por exemplo: a nossa mente não apreende a casa, apreende a ideia de casa. Husserl queria encontrar as bases psicológicas da matemática e da lógica, e, por perceber que a experiência sempre está antes de todo pensamento formal, estudou os empiristas ingleses e acabou chegando ao seu método de análise fenomenológico, ou seja, a descrição do modo como o mundo aparece para a consciência (Reale, 2006).
Husserl discordou de Kant ao não aceitar a diferenciação entre númeno e fenômeno e afirmou que era possível conhecer o númeno. Ele se aproximou, em parte, da teoria de Hegel, que afirmava que a essência do mundo era cognoscível, porém enquanto para Hegel esse conhecimento era possível a partir de uma análise de mundo tomado como totalidade histórica, percebido como espírito da história — o que, no fundo, seria a consciência humana —, Husserl,
discordando dessa visão de totalidade, sustentava que consciência não é o fenômeno, não é o real, mas é aquilo que lhe dá sentido.
A essência do mundo pode ser conhecida por meio de dois processos distintos, a noema e a noesis. O noema é aquilo de que a consciência está consciente, não é o objeto, mas a percepção do objeto, o aspecto objetivo da vivência, ou seja, o objeto considerado pela reflexão em seus diversos modos; já a a noesis é a tomada de consciência do mundo vivido, é o aspecto subjetivo da vivência: apreensão, compreensão, percepção, lembrança, imaginação etc. (Abbagnano, 2007), ela se encontra no movimento de captura do mundo, no intuir, de forma imediata, aquilo com o qual nos deparamos no mundo (Martins, 2017), implicando certa passividade por parte do sujeito para deixar o “objeto lhe falar”, sem especular sobre ele, procurando reduzir a interferência da própria subjetividade nesse processo (Martins, 2017).
Trata-se de uma atitude parecida, mas não idêntica à atitude do empirista, pois permite avançar, visto que Husserl não se limita a conhecer o “objeto” empiricamente, descrevendo suas aparências, uma vez que busca o conhecimento da sua essência. Por isso, quando o “objeto fala” ao sujeito, confere a ele os predicados que expressam o que ele é em si, em sua essência, ou seja, fornece a noema. “Assim, a noesis é o ato mesmo de pensar e a noema é o objeto desse pensamento. Na operação do pensamento não há noesis sem noema. Portanto ninguém pensa sobre o nada” (Japiassú; Marcondes, 2001, p. 137).
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Consciência e epoché
De acordo com Husserl, a fenomenologia trata da questão das essências, da eidética, e não de dados, de fato. A redução eidética é a transformação dos fenômenos em essências, também descrita como redução fenomenológica ou epoché, indicando a transformação dos fenômenos em representações da realidade.
Husserl entende o caráter intencional da consciência como um movimento que transcende o objeto, captando-o em sua totalidade, de modo evidente à intuição em função da presença efetiva desse objeto. Essa noção de objeto não se limita ao aspecto físico, mas estende-se às formas de categorias, às essências e aos objetos ideais (Abbagnano, 2007), e isso permite ao sujeito uma consciência das suas próprias experiências por meio da percepção perfeita entre ser e parecer, embora a intuição permaneça para lá das aparências do objeto externo.
Epoché, em língua grega, significa suspensão do juízo, estado de repouso mental pelo qual nem afirmamos nem negamos nada; foi empregado na Grécia antiga pelos céticos para expressar a sua atitude perante o problema do conhecimento, uma vez que acreditavam que a epoché proporcionaria o estado de imperturbabilidade e a possibilidade de aprenderem de imediato a realidade do objeto. Para esses filósofos céticos da antiguidade, a epoché não tinha apenas um sentido teórico, mas também prático, pois além de referir-se ao conhecimento do objeto, referia-se, também, ao conhecimento do bem, especialmente do bem supremo (Mora, 1978).
Esse vocábulo foi retomado por Husserl com os seguintes sentidos: primeiro, significa suspendermos o juízo perante o conteúdo doutrinal de qualquer dada filosofia e realizarmos todas as nossas comprovações dentro dos limites dessa suspensão; segundo, num sentido mais preciso, significa a mudança radical de uma possível tese natural. De acordo com a tese natural, a consciência capta o mundo como ele foi, é e sempre será (Mora, 1978).
Alterando essa tese, temos a suspensão do juízo ou a sua colocação entre parênteses, não só das doutrinas sobre a realidade como também da própria realidade, portanto, o mundo natural não fica negado nem se duvida da sua existência, apenas a sua compreensão está suspensa. Está aí o motivo da epoché fenomenológica não se comparar com a dúvida cartesiana nem com a suspensão cética do juízo ou a negação sofística da realidade; só assim é possível, segundo Husserl, constituir a consciência pura ou transcendental como resíduo fenomenológico (Mora, 1978).
O método fenomenológico se compõe de dois momentos: a epoché — quando se isola o objeto de tudo aquilo que lhe é próprio para conhecê-lo de modo puro (chamado de momento negativo) — e o momento em que o olhar da inteligência se dirige à própria coisa, nela imerge e a deixa se manifestar (Mondin, 1981, p. 226).
A preponderância da intencionalidade
Segundo Husserl, a nossa consciência é sempre consciência de algo, de alguma coisa, e traz consigo uma intencionalidade, e foi justamente essa intencionalidade que se tornou o eixo da sua metodologia fenomenológica, envolvendo uma descrição pura dos conteúdos da experiência consciente. Mas isso só é possível se suspendermos a crença no mundo natural e todas as suposições que ela produz para a experiência, pois, desse modo, poderíamos examinar o conteúdo essencial da experiência e sua estrutura intencional, bem como descrever a intuição pela mente das essências dos objetos de experiência (Law, 2008).
A fenomenologia é a análise de como se forma, para nós, o campo da nossa experiência, como sintetizamos em nossa mente tudo aquilo que captamos do mundo externo e, assim, chegamos à ideia de um objeto uno e idêntico, transcendendo esse mesmo objeto; ela busca mostrar que a abstração, o juízo e a inferência, entre outros atos mentais, não são empíricos, mas de natureza intencional, que têm as suas correlações em termos puros da consciência intencional, que, por sua vez, não apreende os objetos, apreende seus significados e exige uma atitude de suspensão do mundo natural, colocando “entre parênteses” a crença na realidade do mundo natural e as proposições a que essa crença dá lugar (Mora, 1978).
Isso não significa negar a realidade do mundo natural como os adeptos do ceticismo, mas apenas procurar ver a atitude natural sob outro ângulo. Por isso se diz que o método fenomenológico consiste em examinar todos os conteúdos de consciência, mas não para se certificar se são reais ou não, mas o quantos são dados puros da consciência. Daí a necessidade da suspensão, pois só assim a consciência fenomenológica pode ater-se ao dado enquanto tal e descrevê-lo na sua pureza.
O dado, na fenomenologia de Husserl, não é um material que se organiza mediante formas de intuição e categorias, como na filosofia transcendental, e nem os dados dos sentidos organizados empiricamente, mas a correlação da consciência intencional em que não há conteúdos, somente fenômenos (Mora, 1978).
A consciência carrega sempre consigo uma intenção, sendo por essência determinada pela intencionalidade, entendida como ato de visar as coisas, atribuindo-lhes significado. O mundo, a realidade em que estamos imersos, é o correlato intencional da consciência, e a percepção é o ato intencional da consciência, é a unidade interna e necessária entre o ato e o correlato, entre o perceber e o percebido, em que o percebido é a sua correspondência intencional. É por isso que, conhecendo a estrutura intencional ou a essência da consciência, é possível chegar à essência da percepção ou da imaginação, da memória, da reflexão etc. (Chaui, 2000).
Vamos Exercitar?
No início da aula, propomos a seguinte reflexão: há plena correspondência entre a imagem que você tem de você e a imagem que os outros têm de você? Você é aquilo que se mostra, aquilo que aparece? E o mundo é tal qual o concebemos em nossa mente?
Para resolver essas questões, queremos que você perceba e se conscientiza de que, entre as pessoas dotadas de visão, você é a única no mundo que jamais terá a oportunidade de ver o teu próprio rosto de modo direto. Você sempre se vê, e verá, refletido num espelho, numa foto ou filmagem, mas nunca se vê, e nem verá, como as outras pessoas te veem, também nunca ouvirá a tua voz como os outros te ouvem.
Por outro lado, você é a única pessoa que tem acesso direto aos teus pensamentos, sentimentos e emoções, ou seja, ao teu verdadeiro eu, e essa é uma analogia para mostrar que temos acesso apenas àquilo que aparece, que se mostra, que se manifesta, ou seja, ao fenômeno. Talvez, o mundo seja bem diferente do modo que o concebemos.
Agora, tentemos estender essa concepção à vida humana em nosso planeta, às nossas descobertas científicas, às nossas teorias, e, talvez, fique mais claro que o modo como compreendemos e explicamos o mundo depende muito daquilo que nos é disponibilizado em nossa mente, e é isso que a fenomenologia busca nos mostrar.
Saiba Mais
Para saber mais sobre o fenômeno enquanto limite do conhecimento, propomos que você leia o artigo O que é a fenomenologia? Parte I: A Fenomenologia de Husserl, escrito por Pierre Thévenaz, traduzido por José Olinda Braga e publicado pela Revista da Abordagem Gestáltica. Nele, o autor faz uma análise ensaística primorosa acerca das principais ideais da corrente fenomenológica, de acordo com o pensamento de Edmund Husserl.
Aprofunde os seus conhecimentos de Consciência e epoché lendo o capítulo 3, Fenomenologia, do livro Tópicos Especiais em Filosofia Contemporânea. Nele, a autora apresenta, suscintamente, os pontos mais pertinentes sobre esse assunto.
Para compreender mais a preponderância da intencionalidade, leia o Dossiê 4 do livro Compreender Husserl. Nele, define-se a intencionalidade como o conjunto de atos perceptivos que visam e tocam os objetos do mundo de acordo com critério introspectivo da interioridade.
Referências Bibliográficas
ABBAGNANO, N. Dicionário de filosofia. Tradução: Alfredo Bosi. 5. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007.
CHAUI, M. Convite à filosofia. São Paulo: Ática, 2000.
DEPRAZ, N. Compreender Husserl. 3. ed. Tradução: Fábio Creder. São Paulo: Vozes, 2011.
HUME, D. Investigação sobre o entendimento humano. 3. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1984. (Coleção Os pensadores).
HUSSERL, E. Investigações lógicas. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2012.
KANT, I. Crítica da razão pura. 5. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001.
LAW, S. Filosofia: guia ilustrado Zahar. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.
LOCKE, J. Ensaio sobre o entendimento humano. São Paulo: Nova Cultura, 1999. (Coleção
Os Pensadores).
MONDIN, B. Introdução à filosofia: problemas, sistemas, autores, obras. 10. ed. São Paulo: Paulus, 1981.
MORA, J. F. Dicionário de filosofia. Lisboa: Dom Quixote, 1978.
REALE, G.; ANTISERI, D. História da filosofia: de Nietzsche à escola de Frankfurt. São Paulo: Paulus, 2006. v. 6.
SILVA, S. M. Tópicos especiais em filosofia contemporânea. São Paulo: Contentus, 2020. E-book. Disponível em: https://plataforma.bvirtual.com.br. Acesso em: 07 fev. 2024.
THÉVENAZ, P. O que é a fenomenologia? Parte I, a fenomenologia de Husserl. Tradução: José Olinda Braga. Revista da Abordagem Gestáltica, Goiânia, v. 23, n. 2, p. 246-256, ago. 2017. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1809-68672017000200012. Acesso em: 29 abr. 2024.
Aula 4
O Existencialismo
O existencialismo
Olá, estudante! Nesta videoaula, você vai saber mais sobre os principais filósofos ligados à corrente existencialista, quais sejam: Schopenhauer, Kierkegaard, Nietzsche, Heidegger e Sartre. O nosso intuito é que você conheça as diferentes interpretações de mundo conforme a visão dessas que estão entre as principais correntes de pensamento.
Este conteúdo é importante para o desenvolvimento da tua capacidade crítica diante da realidade.
Vamos lá!
Ponto de Partida
Estamos chegando ao final das nossas reflexões filosóficas e queremos que você conheça mais uma importante corrente filosófica do século XX, o Existencialismo. Você vai conhecer as ideias de alguns dos principais filósofos existencialistas, como Arthur Schopenhauer (1788-1860), Søren Kierkegaard (1813-1855), Friedrich Nietzsche (1844-1900), Martin Heidegger (1889-1976) e Jean-Paul Sartre (1905-1980).
Propomos que conheçamos essa corrente filosófica buscando elementos que nos permitam entender melhor a seguinte situação: em seu livro Como Vejo o Mundo, Albert Einstein diz “Ainda jovem, fiquei impressionado pela máxima de Schopenhauer: ‘O homem pode, é certo, fazer o que quer, mas não pode querer o que quer’; e hoje, diante do espetáculo aterrador das injustiças humanas, esta moral me tranquiliza e me educa. Aprendo a tolerar aquilo que me faz sofrer” (Einstein, 1981, p. 10).
Que essa reflexão filosófica seja mais uma a contribuir com o teu senso crítico e agregue elementos que lhe permitam compreender melhor o mundo em que vivemos!
Vamos Começar!
Os gregos acreditavam em destino, que vínhamos ao mundo com a nossa vida já predefinida e que até os deuses estavam sujeitos a isso; já o cristianismo sustenta a crença de que nascemos com uma essência, somos filhos de Deus e, portanto, a essência precede a existência. Mas uma corrente filosófica contemporânea, o existencialismo, afirma o contrário: a existência precede a essência, ou seja, nascemos e, a partir disso, escolhemos o que seremos.
Schopenhauer e Kierkegaard
Há quem não considere Arthur Schopenhauer um existencialista, mas, certamente, é um dos filósofos que lançou as bases para que o existencialismo se tornasse possível. Ele refletiu sobre a vida concreta, contrapondo-se a Hegel, que privilegiava o espírito.
Schopenhauer tinha grande consideração por Kant e aceitou a divisão da realidade em númeno e fenômeno, mas discordou de Kant ao postular que é possível o conhecimento do númeno, o qual seria, para ele, a vontade. Segundo ele, seria possível termos acesso ao númeno a partir de dentro, por meio da vontade, uma força, uma energia que tudo controla. Trata-se da única força subjacente à totalidade do mundo fenomênico, logo, o universo é um grande impulso cósmico para a existência manifestada em seres conscientes particulares (Law, 2008).
Para Schopenhauer, é a vontade que cria em nós desejos insaciáveis, diante dos quais nos mostramos sempre insatisfeitos e sem o domínio sobre as nossas próprias vidas. Segundo ele, haveria duas saídas para as nossas insatisfações: (1) fugir deste mundo caótico pela arte, a qual nos permite uma experiência transformadora e um alívio do sofrimento, e a música, por sua vez, é vista como um exercício de metafísica, em que a alma não percebe que está filosofando (Schopenhauer, 2005), ou (2) fugir deste mundo pela ascese, um recurso para se suplantar, superar os desejos por meio da abnegação, do desprendimento. “Tudo no mundo é vontade, desejo daquilo que não se possui; logo, a humanidade está entregue a uma dor permanente nascida da insatisfação dos desejos” (Mondin, 1981, p. 236). E a melhor imagem do pessimismo de Schopenhauer talvez seja a definição de WELT (mundo, em alemão) cujo acrônimo é: weh (desgosto), elend (desgraça), leid (sofrimento) e tod (morte) (Law, 2008).
Outro filósofo na base do existencialismo foi Kierkegaard, para o qual não somos responsáveis por nossas vidas, mas, sim, meros joguetes nas mãos do destino. A única maneira de driblar o destino é buscando uma vida de modo profundo e sincero, o que nos conduz para a vida ética, em que a principal tarefa é fazer a opção (Strathern, 1999). A melhor maneira de se fazer isso, segundo Kierkegaard, encontra-se no cristianismo.
Em 1848, Kierkegaard teve uma experiência religiosa e concluiu que só Deus poderia protegê-lo de uma preocupação excessiva consigo mesmo, e, em sua opinião, toda a existência humana opõe-se a Deus (Kierkegaard, 1979); ele afirmou ser impossível entender a existência de forma intelectual e que o homem se desespera quando se identifica com algo exterior a ele, ficando à mercê do destino. Por não alcançar o seu eu ambicioso, nasce um vazio interior acompanhado de uma vontade inconsciente de morrer, e só se escapa desse desespero caso se opte pelo seu próprio eu.
Kierkegaard foi o primeiro pensador a colocar o problema da angústia na pauta dos problemas que mereciam ser tratados como sendo de grande importância, além de ter sido o responsável pela reviravolta que a filosofia contemporânea deu retornando à questão antropológica, sobretudo existencial. As suas ideias foram desenvolvidas por Husserl e Heidegger, originando o existencialismo, que atingiu seu ponto alto com Sartre. O termo existencialismo não foi muito bem aceito entre os filósofos, e foi Sartre, no começo de 1940, desprovido de escrúpulo — pois, naquela época, era pejorativo ser rotulado de existencialista, uma vez que eram considerados superficiais —, o primeiro a aceitar ser chamado de existencialista.
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Nietzsche
Nietzsche discorda de Schopenhauer e afirma que não se deve buscar o aniquilamento da vontade, mas, sim, a afirmação de si mesmo contra qualquer obstáculo, bem como fazer a nossa vontade prevalecer, ser forte e vivermos as nossas potencialidades intensamente.
O pensamento de Nietzsche assenta seus fundamentos na compreensão de que a realidade é composta de uma explosão de forças desordenadas. Diante dessa explosão de potência, que não pode ser refreada por nenhuma lei da razão, pode-se assumir uma dupla atitude: a de fraqueza, como os rebanhos, ou a atitude de força e poder, como um übermensch (homem superior). Os rebanhos, diante da potência desregrada da natureza, inventaram a religião. A ética do homem superior é o triunfo da própria personalidade, além do bem e do mal, desde que se afirme sobre os outros (Mondin, 1981).
As afirmações “Deus está morto!” (Gott ist tot, em alemão) e “Quem o matou fomos nós!” (Nietzsche, 2012, p. 129), usadas por Nietzsche, não se referem, obviamente, à morte de Jesus, tampouco, ao ateísmo nietzschiano, mas querem, sobretudo, indicar que Nietzsche constatou que, na sociedade e na cultura em que ele se encontrava, o fundamento da realidade ou o sentido da vida já não estava mais sendo dado ou não devia mais ser buscado em algo transcendente e, sim, na afirmação de si, na confiança em suas capacidades e potencialidades, superando a si mesmo; por isso a ideia de übermensch é a ideia de superação.
Talvez o grande mérito de Nietzsche tenha sido o de questionar, como ninguém, as estruturas da sociedade e o modo de vida de seus contemporâneos, sobretudo a ética do comodismo e da resignação. Segundo ele, é preciso filosofar com o martelo, ou seja, ir quebrando, estilhaçando conceitos mal formulados ou formulados de antemão, o que ele chamava de preconceito ou pré-juízo. E isso ele fez com um estilo literário único, algo meio próximo de tons proféticos, denunciando o modo de vida vigente. Para ele, tanto Sócrates quanto Platão e o cristianismo nos fizeram muito mal ao nos ensinar que é preciso sofrer com paciência; ele defendia o contrário, que é preciso viver intensamente, vibrar com a vida e desfrutar tudo o que ela tem a nos oferecer, dando vazão à vontade de potência.
De acordo com Nietzsche, o homem não deve temer nada e deve amar tudo o que lhe ocorre, atitude descrita por amor fati, uma expressão latina usada como fórmula para a grandeza do homem e que significa: não querer nada de diferente do que se é, nem no futuro,
nem no passado, nem por toda a eternidade. Não só suportar o que é necessário, mas amá-lo: essa fórmula exprime a atitude própria do homem superior e a natureza do espírito dionisíaco enquanto aceitação integral e entusiástica da vida em todos os seus aspectos, mesmo nos
mais desconcertantes, tristes e cruéis (Abbagnano, 2007).
Heidegger e Sartre
Martin Heidegger é considerado por muitos o fundador do existencialismo, embora se negasse ser um existencialista. Ele foi encaminhado, por sua família, para ser um sacerdote, mas acabou optando pela Filosofia, ao que parece, por influência de Husserl, de quem foi aluno. Tem-se a impressão de que compreendemos melhor a filosofia heideggeriana se levarmos em conta o contexto em que ela se desenvolveu, em uma Alemanha envolta em guerra, morte e medo, logo, a questão era: como compreender o ser diante de tanta estupidez e brutalidade?
O conceito de ser é universal e, talvez, em função disso, é, também, vazio de sentido e muito difícil de ser definido; ele está presente em tudo e, ao mesmo tempo, esconde-se, assim, a única maneira de abordá-lo é recorrendo ao ser de algum ente particular. Desse modo, Heidegger desenvolveu uma filosofia voltada para os problemas concretos da vida e para a angústia humana diante da existência, ou seja, ele buscou aplicar o método fenomenológico ao estudo do ser; à medida que o seu estudo “parte do homem de fato, deixa que ele se manifeste tal qual é e procura compreender a sua manifestação” (Mondin, 1983, p. 188).
Entre os seres existentes, o homem tem primazia, pois é o único com possibilidades de compreender o ser e o único capaz de determinação, haja vista que não está totalmente preso em sua situação, mas é capaz de se tornar algo novo, algo diferente por meio dos seus ideais, planos e possibilidades. O homem tem a possibilidade de ser ou não ser ele mesmo e, assim, a essência do homem consiste na sua existência. Além disto, o homem é único ser que pode projetar o futuro, tendo consciência do seu passado e vivendo o presente, portanto, o elemento temporalidade é a essência com a existência humana.
Sendo o homem um ser-no-mundo com possibilidades de se projetar (existência), abre-se diante dele a opção de levar uma vida autêntica ou inautêntica, banal. Na vida autêntica, o homem assume a própria vida e a conduz por si; na vida inautêntica, o homem se deixa levar pela situação e é conduzido pela massa; não é senhor de si. Quem leva vida autêntica e se projeta no futuro sabe que a última possibilidade será a morte, a qual também deverá ser levada em consideração, pois representa o término desta existência. A morte é presença constante para o ser humano e se faz presente desde que se inicia a existência, mas ao adquirir consciência da morte, o homem cai na angústia.
Por fim, um dos maiores nomes do existencialismo foi Jean-Paul Sartre, que estabeleceu uma radical distinção entre matéria física e consciência, sendo esta caracterizada por sua liberdade. Dizia ele que, seja qual for a nossa situação, somos livres para negá-la, para imaginar as coisas de outro modo e nos empenhar para mudá-las (Law, 2008).
Para os filósofos antigos, tudo no mundo tem uma finalidade, um propósito, ou seja, tudo tem uma essência, uma razão de ser, pois a natureza não faz nada em vão, e isso significa que o homem também tem uma essência e que ela já existe mesmo antes de o homem existir.
Sartre, porém, não concordava com essa ideia e dizia que o homem é totalmente livre e deve assumir a responsabilidade pelo que faz e pelo que se torna; desse modo, segundo ele, no caso do homem, a existência precede a essência; temos de criar um propósito, estabelecer uma essência para nós mesmos. Dizia ele que o homem primeiro surge no mundo, existe, descobre-se ou se percebe e só depois define o que vai ser, não importando tanto o que os homens são, mas o que eles podem se tornar.
Ao abordar a questão do ser, o qual Sartre denominou de ser-em-si, para distingui-lo da consciência (ser-para-si), ele afirmou que sua característica particular é o absurdo: no absurdo está a chave da existência de cada coisa, e o homem se diferencia dos outros seres porque tem a consciência de que é o oposto do ser. Para viver, a consciência necessita nulificar o ser na medida em que, por sua natureza, é o não-ser, o vazio, o nada. O dado constitutivo essencial dos seres humanos não é a consciência, mas a liberdade sem limites e não vinculada a nenhuma lei moral (Mondin, 1981). Não há nada, portanto, que defina a existência humana; estando o homem condenado a ser livre, e com base nessa liberdade, necessita construir a si mesmo.
Vamos Exercitar?
Após conhecermos a corrente filosófica existencialista, devemos ter elementos suficientes para entender melhor e explicar a frase de Schopenhauer citada por Einstein (“O homem pode fazer o que quer, mas não pode querer o que quer”).
Possivelmente, num primeiro momento, pode parecer que a frase seja contraditória, sobretudo o seu final “não pode querer o que quer”, pois, se alguém quer, como pode não querer o que quer? Essa proposta tem a ver com a questão da liberdade, ou seja, o homem tem liberdade de ação (pode fazer o que quer, pois fazer é ação), mas não tem liberdade da vontade (não pode querer o que quer, querer é vontade).
Há pressupostos que antecedem as nossas escolhas, tais como o contexto em que nascemos e somos educados, a época em que vivemos, a língua que falamos (a qual limita o nosso léxico verbal), a presença ou não de religiosidade ou espiritualidade em nossas vidas, a nossa situação material/financeira... enfim, somos plasmados por forças externas que independem de nós, mas nos impactam significativamente.
Poderíamos aprofundar essa questão perguntando-nos se Sartre concordaria que não temos liberdade da vontade. Lembremos que, para Sartre, o homem está condenado a ser livre, e se está condenado, não tem liberdade para escolher não ser livre — o que parece um paradoxo, pois, ao mesmo tempo, isso o torna livre e não livre, ou seja, com outras palavras, Sartre pode ter dito o mesmo que disse Schopenhauer, mas também pode ter dito o seu contrário. Fica a reflexão!
Saiba Mais
Para saber mais sobre Schopenhauer, leia Schopenhauer: o saber do corpo (a partir da página 177), do livro A Aventura da Filosofia: de Parmênides a Nietzsche. Nele, o autor apresenta os principais pontos do pensamento de Schopenhauer. Já para saber mais sobre Kierkegaard, leia A nona lição: existência, do livro 10 Lições sobre Kierkegaard. Nele, é apresentada a concepção de Kierkegaard acerca da existência.
Aprofunde os seus conhecimentos de Nietzsche lendo o artigo Notas sobre a dinâmica dos impulsos em Nietzsche, escrito por Bruno Martins Machado. Nele, são apresentadas as principais ideias de Nietzsche sobre o embate entre impulso e razão.
Conheça melhor o pensamento de Heidegger lendo Oitava Lição: A Angústia e a Descoberta de Si-Próprio, do livro 10 Lições sobre Heidegger. A partir dele, você poderá entender melhor o conceito de ser para Heidegger. Já para conhecer melhor o pensamento de Sartre, leia, no tópico III, Os meios de agir: agir para existir livremente, o subtítulo Saborear a alegria da autenticidade, do livro Ser Livre com Sartre. Nessa leitura, você conhecerá a concepção que Sartre tinha de uma vida livre e autêntica.
Referências Bibliográficas
ABBAGNANO, N. Dicionário de filosofia. Tradução: Alfredo. Bosi. 5. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007.
ALLOUCHE, F. Ser livre com Sartre. São Paulo: Vozes, 2019. Disponível em: https://plataforma.bvirtual.com.br/Acervo/Publicacao/202016. Acesso em: 7 fev. 2024.
EINSTEIN, A. Como vejo o mundo. 23. ed. Tradução: H. P. Andrade. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981.
GHIRALDELLI JR., P. A aventura da filosofia: de parmênides a Nietzsche. Barueri: Manole, 2010. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788520443408/. Acesso em: 7 fev. 2024.
KIERKEGAARD, S. A. Temor e tremor. Tradução: Carlos Grifo; Maria José J. Marinho; Adolfo Casais Monteiro. São Paulo: Abril Cultural, 1979. (Coleção Os Pensadores).
LAW, S. Filosofia: guia ilustrado Zahar. Tradução: M. L. X. A. Borges. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.
MERTENS, R. S. K. 10 lições sobre Heidegger. São Paulo: Vozes, 2015. Disponível em: https://plataforma.bvirtual.com.br/Acervo/Publicacao/49025. Acesso em: 7 fev. 2024.
MONDIN, B. Curso de filosofia: os filósofos do ocidente. 8. ed. Tradução: Benoni Lemos. São Paulo: Paulus, 1983. v. 3.
MONDIN, B. Introdução à filosofia: problemas, sistemas, autores, obras. 10. ed. Tradução: J. Renard. São Paulo: Paulus, 1981.
NIETZSCHE, F. W. A gaia ciência. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
SCHOPENHAUER, A. O mundo como vontade e representação. São Paulo: Editora Unesp, 2005.
STRATHERN, P. Kierkegaard (1813-1855) em 90 minutos. Tradução: Marcus Penchel. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999.
Encerramento da Unidade
Correntes do pensamento filosófico
Videoaula de Encerramento
Olá, estudante! Nesta videoaula, você conhecerá algumas das preocupações e contribuições da Filosofia em diferentes épocas, indo do helenismo, passando pela questão dos universais e chegando à fenomenologia e ao existencialismo. Desse modo, você terá contato com diferentes interpretações de mundo conforme a visão das principais correntes de pensamento.
Este conteúdo é importante para que você se aproprie do legado filosófico para a compreensão e estruturação do mundo da vida.
Vamos lá!
Ponto de Chegada
Agora você deve estar em melhores condições de identificar as diferentes interpretações de mundo e as contribuições de algumas correntes de pensamento, pois conhece como foram se desenvolvendo tais interpretações à luz das correntes aqui abordadas: o helenismo, na Idade Antiga; a Questão dos Universais, na Idade Média; a fenomenologia e o existencialismo, na contemporaneidade.
Vamos, então, consolidar o nosso conhecimento tomando para a nossa base de compreensão a seguinte frase de Albert Einstein: “Aquele que considera a sua vida e a dos outros sem qualquer sentido é fundamentalmente infeliz, pois não tem motivo algum para viver” (Einstein, 1981, p. 13), e guarde essa frase, pois a ela vamos contrapor outra de um importante filósofo contemporâneo. Comecemos lembrando que as questões sobre a felicidade e o sentido da vida, às quais Einstein se refere, ocupam o cenário reflexivo do Helenismo, fazendo com que tanto a corrente epicurista quanto a estoica apresentem as suas contribuições acerca do modo como podemos alcançá-las; além disso, por se tratar de conceitos abstratos e genéricos, essas questões cabem, também, na querela dos Universais, assim como acabam se fazendo bastante presentes tanto na reflexão fenomenológica (sobretudo na questão da busca da essência e da necessidade de epoché, por uma ausência de sentido previamente atribuído à vida) quanto na existencialista (no tocante à questão de escolha livre daquilo que devemos nos tornar), dando-nos, assim, condições suficientes para nos posicionarmos criticamente (leia-se: com critérios) sobre elas.
Reflita Leia o texto a seguir A felicidade e a liberdade começam com a clara compreensão de um princípio: algumas coisas estão sob nosso controle e outras não. Só depois de aceitar essa regra fundamental e aprender a distinguir entre o que podemos e o que não podemos controlar é que a tranquilidade interior e a eficácia tornam-se possíveis. Mantenha sua atenção inteiramente concentrada no que de fato lhe compete e tenha sempre em mente que aquilo que pertence aos outros é problema deles, não seu. Se agir assim, estará imune a coações e ninguém o poderá reprimir; será verdadeiramente livre e eficiente em suas ações, pois seus esforços serão canalizados para boas atividades e não desperdiçados em críticas ou confronto com outras pessoas (Epicteto, 2018). Leia o texto a seguir O filósofo, repito, não fabrica os instrumentos necessários às necessidades correntes, logo, por que atribuir-lhe uma atividade tão subalterna quando ele, na realidade, é um “artista da vida”? As outras artes, aliás, também estão sob o seu domínio, e se é a filosofia que governa a nossa vida, deve também ela governar os acessórios da nossa vida; o seu fim supremo, porém, é determinar em que consiste a felicidade e em guiar-nos pela via que conduz a esse fim. A sua tarefa é distinguir os males reais dos males aparentes; é libertar os espíritos de vãs ilusões; é instilar neles uma grandeza efetiva e reprimir as exageradas aparências derivadas de juízos fúteis; é evitar toda e qualquer confusão entre grandeza real e presunção; é, em suma, facultar-nos o conhecimento da natureza, inclusive da natureza da própria filosofia (Sêneca, 2004). Sêneca (4 a.C. – 65 d.C.) foi um intelectual e político do Império Romano, notável pelos seus escritos sobre a vida, a morte e a felicidade. Diante disso, com base no texto e nos conhecimentos sobre Sêneca, discorra sobre o propósito estoico de sua filosofia. Leia os excertos a seguir I. “O levante dos escravos na moral começa quando o ressentimento se torna criador e gera valores. [...] a moral de escravos precisa sempre de um mundo oposto e exterior [...] – sua ação é por reação. [...] o homem do ressentimento não é franco nem ingênuo, nem mesmo honesto e direto consigo mesmo. Sua alma se enviesa: [...] tudo o que é escondido lhe apraz como seu mundo, sua segurança, seu refrigério; ele entende de calar, de não esquecer, de esperar, de provisoriamente apequenar-se, humilhar-se.” De acordo com os excertos e os seus conhecimentos, explique qual espécie de moral, segundo a concepção nietzschiana, está expressa em cada um dos excertos e quais são as suas características. |
É Hora de Praticar!
Queremos que você contraponha à frase de Einstein (“Aquele que considera a sua vida e a dos outros sem qualquer sentido é fundamentalmente infeliz, pois não tem motivo algum para viver”) a seguinte frase de Nietzsche: “no fato de o ideal ascético haver significado tanto para o homem, se expressa o dado fundamental da vontade humana, [...]: ele precisa de um objetivo e preferirá ainda querer o nada a nada querer” (Nietzsche, 2007, p 96, grifo do autor).
Reflita
Tendo por base as correntes filosóficas com as principais contribuições que você agora conhece, tome as duas frases e encontre nelas pontos convergentes e divergentes.
Resolução do estudo de caso
As duas frases se mostram bem alinhadas ao pensamento helenístico à medida que denotam a necessidade do estabelecimento firme de um ideal a ser alcançado, pois é preciso ter clareza sobre o que se quer para saber onde chegar.
A frase de Einstein parece indicar que a vida, não só individualmente (“a sua e a dos outros”), tem um sentido e que cabe ao homem descobrir qual é; já na frase de Nietzsche, o homem precisa atribuir um sentido (“ele precisa de um objetivo”). Enquanto Einstein estaria valorizando o sentido, Nietzsche estaria valorizando a atribuição de sentido. Nietzsche se alinha mais à Fenomenologia, a qual leva em conta a intencionalidade, e ao existencialismo, em que a liberdade reclama que a existência preceda a essência.
Einstein se afasta do existencialismo quando propõe: “o espírito científico, fortemente armado com seu método, não existe sem a religiosidade cósmica. Ela se distingue da crença das multidões ingênuas que consideram Deus um Ser de quem esperam benignidade e do qual temem o castigo” (1981, p. 23).
Nietzsche, por sua vez, responde com o seguinte texto:
Esse homem do futuro, que nos salvará não só do ideal vigente, como daquilo que dele forçosamente nasceria, do grande nojo, da vontade de nada, do niilismo, esse toque de sino do meio-dia e da grande decisão, que torna novamente livre a vontade, que devolve à terra sua finalidade e ao homem sua esperança, esse anticristão e antiniilista, esse vencedor de Deus e do nada - ele tem que vir um dia...” (Nietzsche, 2007, p. 92, grifo do autor).
Ou seja, o homem deve enfrentar a realidade, tendo ela sentido ou não, desde que traça um objetivo.
Lembremos que querer o nada (aqui há um querer) é diferente de nada querer ou não querer nada (aqui não há um querer), bem como é diferente de não querer mais nada (aqui não há a necessidade de um querer). Vontade de nada tem o sentido, para Nietzsche, de não querer nada daquilo que foi, previamente, estabelecido de um modo que você, livremente, não estabeleceria.
Dê o play!
Assimile
Confira a seguir uma síntese de um dos assuntos desta unidade.
Referências
EINSTEIN, A. Como vejo o mundo. 23. ed. Tradução: H. P. Andrade. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981.
EPICTETO. A arte de viver: uma nova interpretação de Sharon Lebell. Tradução: Maria Luiza Newlands da Silveira. Rio de Janeiro: Sextante, 2018.
NIETZSCHE, F. A genealogia da moral. 2. ed. Tradução: Antonio Carlos Braga. São Paulo: Escala, 2007. (Coleção Grandes Obras do Pensamento Universal – 20).
NIETZSCHE, F. Genealogia da moral, primeira dissertação. In: OS FILÓSOFOS através dos textos: de Platão a Sartre. Tradução: Constança Terezinha M. César. São Paulo: Paulus, 1997.
SÊNECA. Cartas a Lucílio. Tradução: J. A. Segurado Campos. 2. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2004.