A Antropologia Social
Aula 1
Marcel Mauss e a Escola Sociológica Francesa
Marcel Mauss e a Escola Sociológica Francesa
Olá, estudante! Nesta videoaula, veremos um pouco mais sobre os precursores da Antropologia Social na Europa, destacando Marcel Mauss e Émile Durkheim. Esses autores privilegiam a análise das relações simbólicas presentes na social.
Ponto de Partida
Estamos começando as nossas reflexões sobre a Antropologia Social e veremos nesta aula a importância da Escola Sociológica Francesa para o desenvolvimento da Antropologia. A Antropologia Social se desenvolveu, principalmente, na Europa, focando em aspectos ligados às instituições e com ênfase no trabalho de campo empírico. Émile Durkheim foi uma influência teórica importante, apesar desse autor ter sido mais influente na Sociologia.
Essa influência vai ser particularmente forte na obra de Marcel Mauss, um dos pioneiros da Antropologia, que produziu reflexões profundas sobre as etnografias produzidas em sua época. Ele explorou temáticas que até hoje são utilizadas para a compreensão de diversas realidades sociais.
Você já deve ter ouvido a expressão “o corpo fala”, e de fato, é possível dizer que o corpo, ou a corporalidade das pessoas, podem ser reveladoras de muitos aspectos. Não se restringindo a comportamentos individuais, a análise da corporalidade pode nos dizer muito sobre as características coletivas de determinados grupos sociais e de certas sociedades. Ao ler esta aula você, verá como é possível, por meio da observação da corporalidade, discutir muitas questões relacionadas à sociedade.
Vamos Começar!
Émile Durkheim: as formas elementares da vida social
A Antropologia Social nasce na Europa, em especial na Inglaterra, porém é na Escola Sociológica Francesa que está a base de seus conceitos. Daí a necessidade de começarmos analisando o pensamento de David Émile Durkheim (1858-1917), pois esse autor produziu os principais argumentos que vão dar sustentação teórica para a Antropologia social.
Durkheim é mais conhecido como um autor da Sociologia, mas no momento de suas produções iniciais ainda não havia uma formação diferenciada nas Ciências Sociais, é com ele, inclusive, que são estabelecidas as primeiras sistematizações do método sociológico. O termo Sociologia é utilizado pelos autores que estão fazendo as primeiras análises antropológicas. Então, o que distingue a Antropologia da Sociologia nesse primeiro momento? A Antropologia distinguiu-se da Sociologia ao privilegiar os estudos sobre as então chamadas sociedades primitivas, porém essa mudança de objeto de estudo não significou, de imediato, um rompimento teórico. Dessa forma, os autores dedicados a analisar as “sociedades primitivas” passaram a transpor os conceitos utilizados pela Sociologia para tentar entender o seu funcionamento.
Luís Cardoso de Oliveira (2003) mostra a importância da noção de categorias do entendimento humano para a Escola Sociológica Francesa, principalmente nas obras de Marcel Mauss e Émile Durkheim. Ao se valerem dessas categorias, segundo Oliveira (2003), os franceses procuraram refletir sobre a maneira pela qual as sociedades se pensam, bem como os modos que são construídas as representações coletivas sobre a sociedade.
Durkheim e Mauss procuraram mostrar o caráter de construção social de tais categorias, que estariam presentes em toda e qualquer sociedade. Há um consenso entre os intelectuais que leram a obra de Durkheim, apontando que, para esse autor, o social só se explica pelo social. Vamos entender melhor o que significa isso.
No texto “Representações Individuais e Representações Coletivas” de Durkheim, o autor demonstra que o social prevalece sobre o individual, sendo que as representações coletivas têm uma lógica própria, mas o que são representações coletivas? Todas as dimensões da vida ligadas à esfera social – como as representações coletivas – existem independentemente dos indivíduos, ou seja, são exteriores às consciências individuais, elas originam-se das relações sociais e da sociabilidade dos grupos que as sustentam. Isto quer dizer que fenômenos mentais, como as representações individuais, não têm origem nas mentes dos indivíduos.
Vamos a um exemplo: um indivíduo acredita que uma família deve ser composta por um homem, uma mulher e seus filhos. Temos aqui uma representação sobre família. Essa representação é bastante comum entre os indivíduos de nossa sociedade. Como eu a explico? Por que tanta gente pensa assim? A explicação não pode ser feita a partir da interrogação a um indivíduo em particular, eu teria que procurar saber da história desse modelo de família. Por que ela se torna nossa representação individual sobre o que é uma família? Quando nascemos, somos socializados dentro dessa concepção e a naturalizamos como a mais normal, senão a única modalidade normal de família. Percebam que foi uma representação coletiva sobre uma instituição – a família – que adotamos como nossa, e ela vira uma representação individual.
Por isso, podemos dizer, como faz Durkheim, que o social só se explica pelo social. Podemos mencionar também que as representações servem para classificar o mundo. O que é classificar o mundo? É dar uma explicação para as coisas; é ordenar as coisas; é dar sentido ao universo e aos acontecimentos. Heloísa Pontes (1993, p. 92) traz outro exemplo interessante, ressaltando a interpretação de Durkheim sobre religião:
A definição dada à religião, por Durkheim, como um sistema de crenças e de práticas que congrega numa mesma comunidade moral, chamada igreja, todos aqueles que a aderem, deriva de sua tentativa de apreendê-la também como um sistema ordenado de classificação simbólica do universo. […] Trata-se de encontrar o lugar onde se originam os sistemas classificatórios e, ao mesmo tempo, explicar a lógica interna que preside a formação, a organização, o processamento e a atualização dos mesmos. Social, por excelência, os sistemas classificatórios são como que o desdobramento, no plano simbólico da cultura, das relações sociais e do jogo de interdependência que os grupos sociais compostos por indivíduos concretos, estabelecem uns com os outros. […] Ou, dito de outro modo, trata-se de uma tentativa de garantir, do ponto de vista analítico, a indissociabilidade da ação e da representação.
Vamos aproveitar essa reflexão para introduzir um dos precursores da Antropologia social e um dos autores clássicos mais importantes da Antropologia, trata-se de Marcel Mauss.
Marcel Mauss (1872-1950) era sobrinho de Durkheim, e as suas preocupações teóricas são próximas no que se refere à autonomia do social em relação ao indivíduo, mas se distanciam ao atribuir um objeto próprio à Antropologia e enfatizar a análise multidisciplinar. Mauss preocupa-se em pensar os aspectos sociais, culturais, biológicos e psicológicos em suas análises (LAPLANTINE, 2000). Mauss colaborou em alguns textos com seu tio, um desses trabalhos é o artigo “Algumas Formas Primitivas de Classificação”.
O projeto científico de Mauss e Durkheim é que as explicações dos fenômenos sociais sejam feitas a partir do método comparativo. Nesse caso, como demonstra Pontes (1993), a comparação não é entre conteúdos culturais – como acontece no Evolucionismo –, mas focado nos mecanismos, nas formas, nas estruturas sociais (PONTES, 1993).
Em “Algumas Formas Primitivas de Classificação”, os autores estão em busca do que seria o sistema classificatório mais elementar – neste caso, uma sociedade australiana, a partir de evidências empíricas fornecidas pelo material etnográfico disponível na época. Para Pontes (1993, p. 93), “A obra de Durkheim e de Mauss fornece, pela primeira vez na história da ciência, uma teoria dos fundamentos sociais do simbolismo, dos fundamentos simbólicos da vida social e dos fundamentos da sociabilidade”.
Aqui já temos uma especificidade em relação aos trabalhos mais conhecidos de Durkheim: o caráter etnográfico da análise. Nesse caso, parte-se de um caso particular, de evidências empíricas concretas para, a partir daí, formular uma teoria geral e uma explicação que sejam universais.
A opção por um sistema classificatório considerado mais simples está relacionada à busca pela demonstração do caráter lógico de qualquer organização social, por mais simples que possa parecer. Os autores vão demonstrar a correlação entre sistemas social, simbólico e lógico. Os sistemas classificatórios servem para dar sentido ao mundo, mas, também, para orientar as ações dos indivíduos. Como esses sistemas são produtos da própria sociedade, também são capazes de promover mudanças, pois têm um poder simbólico e, assim, são eles que orientam a percepção que os indivíduos mantêm sobre as relações sociais nas quais estão inseridos.
Siga em Frente...
Marcel Mauss: a dádiva e a obrigação de retribuí-la
Uma diferença importante do trabalho de Mauss em relação ao de Durkheim, é que ele se interessou mais pela pesquisa entre as chamadas “sociedades primitivas” não europeias. Marcel Mauss não tem trabalhos monográficos, tampouco se dedicou a fazer trabalho de campo empírico, ele refletia a partir de etnografias disponíveis e era um leitor voraz de tudo que era produzido. Uma de suas análises mais brilhantes é o “Ensaio sobre a Dádiva: forma e razão das trocas nas sociedades primitivas”, publicado em 1925, em que ele analisa as etnografias realizadas em sociedades polinésias, em particular de Samoa, nos fornecendo belos exemplos de relações sociais cotidianas e rituais de trocas, denominada de potlach, que podem revelar aspectos muito profundos da realidade. Ele nos mostra que toda troca de presentes é uma maneira de estabelecer relações sociais e destaca dois elementos centrais desse sistema: “o da honra, do prestígio, do mana que a riqueza confere, e o da obrigação absoluta de retribuir as dádivas sob pena de perder esse mana, essa autoridade, esse talismã e essa fonte de riqueza que é a própria autoridade.” (MAUSS, 2003b, p.195).
Sempre que há uma prestação – quando uma pessoa presenteia outra por exemplo-, há uma contraprestação, ou seja, é “obrigatório” a retribuição de um presente dado. Temos aqui uma relação entre dar, receber e retribuir. Mauss identifica que a obrigação de retribuir o que foi recebido está presente em muitas etnografias. Em muitos casos não se retribui, necessariamente, com o mesmo produto/mercadoria/coisa, assim, a equivalência da reciprocidade pode variar segundo o caso.
Para aprofundarmos a abordagem de Marcel Mauss, vamos recorrer à análise de um dos mais importantes antropólogos da história da Antropologia, trata-se do francês Lévi-Strauss. Em um texto clássico da disciplina, na introdução do livro que reúne alguns dos principais trabalhos de Mauss, intitulado Sociologia e Antropologia, Lévi-Strauss fala-nos sobre o conceito de fato social total.
Segundo Lévi-Strauss (2003), é no “Ensaio sobre a dádiva” que Mauss introduz a noção de fato social total, a qual permeia boa parte de seus trabalhos, mesmo que não delimitada categoricamente. É a partir dela que o social vai se constituir como a realidade, bem como se torna mais clara a ideia do social como integrado em sistema.
Fato social total refere-se à integração das instituições com o total, ou seja, o fato, para ser total, deve poder ser apreendido na experiência individual, na concretude dos atos de um indivíduo e ser revelador de um valor recorrente na sociedade. Segundo Lévi-Strauss (2003), estamos aqui nos referindo a um duplo aspecto e a duas preocupações: a de pensar o social e o individual, o físico e o psicológico. Por conseguinte, o procedimento metodológico que segue é de “toda uma série de reduções” que procure dar conta de modalidades do social, quais sejam: jurídico, econômico, estético, religioso, e assim por diante, relacionados, ou melhor, inter-relacionados, às histórias individuais e às formas de expressões em todos os seus aspectos, como os fisiológicos, as categorias inconscientes e representações conscientes, que são tanto individuais quanto coletivas.
A noção de pessoa em Marcel Mauss
A noção que temos sobre indivíduo é um exemplo importante de um fato social total. Tendemos a tomar como natural a concepção do indivíduo, a nossa experiência cotidiana mostra que todos temos um corpo biológico e, portanto, que somos únicos. Mas podemos relativizar isso? Podemos afirmar que ideia que temos de indivíduo é uma construção social?
Podemos alargar a nossa visão para refletirmos sobre os aspectos simbólicos que formam nossa consciência corporal. Além do fato inegável de que temos um corpo empírico, um corpo biológico, também temos uma visão sobre esse corpo, que deriva da tradição de pensamento à qual nos inserimos.
Tal tema passa por uma questão cara às Ciências Sociais, qual seja: a relação entre indivíduo e sociedade. Mauss (2003b), no seu texto “Uma Categoria do Espírito Humano: a noção de pessoa, a noção do ‘eu’”, procura traçar a história social das noções de indivíduo e de pessoa, analisando o papel do cristianismo e do direito para definição moral e jurídica do indivíduo, vale notar ainda os aspectos econômicos e filosóficos que formam essa noção.
Para ressaltar esses aspectos históricos, Mauss (2003b) analisa diversas etnografias de determinadas civilizações em períodos históricos e regiões geográficas distintas, e propõe um estudo comparativo e histórico na busca da natureza dessas noções. Essa categoria, que na nossa civilização torna-se tão presente e clara desdobrando-se num conceito, não se define tão visivelmente em muitas outras civilizações.
Vamos a um exemplo, em um estudo antropológico chamado Do Kamo, Leenhardt (1971) investiga a concepção de corpo e pessoa entre os Canaque, um povo melanésio. Segundo o autor, esses sujeitos não têm uma representação completa de seu corpo, ele não o concebe como algo delimitado organicamente, o corpo estende-se e confunde-se com a vida, a emotividade, o pensamento; desse modo, a sua noção de “eu” não se define a partir de um organismo, o corpo do melanésio não se separa do mundo natural, social, mítico, e, sendo assim, o corpo não é pensado como um dos elementos constituintes do indivíduo.
Conforme mostra Leenhardt (1975), o humano não se define a partir do corpo, não é percebido objetivamente, é um sentido. A palavra Kamo representa este ser vivente composto por um personagem mítico e um personagem social, que se confundem um no outro, formando um conjunto revestido de humanidade. O Kamo também está presente em outros seres, como nos animais e na natureza. A pessoa Canaque constitui-se, portanto, dentro de uma série de relações que vão além do sentido moderno ocidental de individuo uno e indivisível.
Um outro texto representativo dessa desnaturalização do corpo é “As Técnicas do Corpo” de Marcel Mauss (2003). Por técnicas do corpo, Mauss (2003, p. 401) entende “[...] as maneiras pelas quais os homens, de sociedade a sociedade, de uma forma tradicional, sabem servir-se de seu corpo”. O autor aponta para a ideia de fenômenos sociais “diversos”, em que cada sociedade tem, por sua vez, seus próprios habitus e que acaba por refletir a maneira pela qual os sujeitos se utilizam de seus corpos.
Eis a possibilidade de se relativizar a concepção de corpo e de pessoa, que por vezes é pensada em nossa cultura como um elemento essencial, ou seja, desconstrói-se a naturalidade do corpo e do indivíduo. Como esses exemplos e esse processo de relativização de aspectos tão naturalizados em nossas sociedades nos ajudam a analisar e agir em nosso cotidiano? Será que esse tipo de teoria pode contribuir para a nossa prática profissional e para melhorar a vida de todos em nossa sociedade?
Vamos Exercitar?
Chegamos ao final de nossa aula.
Esperamos que você tenha gostado de nossas discussões, por mais abstratas que possam parecer em alguns momentos, especialmente quando estamos falando de culturas muito diferentes da nossa, é possível relativizar questões que parecem muito naturais para nós, como a ideia de indivíduo.
Além disso, tomar a corporalidade como objeto de estudos pode ser interessante para discutirmos muitos assuntos do nosso cotidiano. Perceba que quando falamos em corporalidade estamos discutindo muitos pontos, podemos falar da moda, das modificações corporais, de musculação, de adornos, pinturas corporais, tatuagens, tudo isso está ligado à nossa corporalidade e está relacionado de alguma forma a valores sociais importantes em uma sociedade.
Já parou para pensar nos padrões de beleza e o quanto eles podem afetar a vida coletiva? A saúde individual e pública? E o consumo? Já pensou que o consumo pode estar diretamente relacionado a concepções coletivas relativas aos corpos dos sujeitos? E o individualismo? Quando falamos em individualismo estamos tratando também de competitividade, de saúde mental.
Nesse sentido, vemos a pertinência de Marcel Mauss até os dias de hoje, há muitas pesquisas em andamento que aproveitam as ideias lançadas por Mauss para refletir sobre o capitalismo e sobre a vida social, entre outros temas importantes.
Saiba Mais
Marcel Mauss: a dádiva e a obrigação de retribuí-la
O artigo que recomendamos é um bom exemplo da atualidade das reflexões de Marcel Mauss. Veja o resumo do artigo e aproveite a leitura.
O autor procede a uma crítica à hegemonia do Homo Economicus e do cálculo utilitário, a partir da Antropologia, tomando por base o paradigma da dádiva de Mauss, que entende a dádiva como fato total, por meio do qual se articulam os quatro princípios da ação humana: interesse e gratuidade, obrigação e liberdade. Recupera os principais argumentos desse paradigma, na relação contraditória entre o interesse e a solidariedade, tentando entender as bases que sustentam a questão da proteção social, concluindo com a análise sobre a renda de cidadania. (CHANIAL, 2006)
CHANIAL, P. Além do domínio do interesse? Dádiva, proteção social e renda da cidadania. Caderno CRH, [S. l.], v. 17, n. 40, 2006.
A noção de pessoa em Marcel Mauss
A comparação entre diferentes contextos sociais nos ajuda a refletir sobre a nossa própria sociedade e concepções que temos como naturais. No artigo indicado aqui, você tem uma reflexão muito interessante sobre a noção de pessoa em Cabo Verde. Aproveite a leitura.
Este estudo sobre as parteiras, o partejar e a noção de pessoa em Ribeira da Barca visa analisar como as técnicas utilizadas no parto se relacionam com a constituição da pessoa. Essa reflexão passa necessariamente por uma discussão da noção de pessoa como indivíduo total, em que não existe uma fronteira visível entre a natureza e a cultura. Essa forma como se constrói a noção de pessoa é verificável na maneira como se molda o corpo na gravidez, no parto e no pós-parto. Neste estudo é usado o método etnográfico de pesquisa pela ênfase conferida às práticas sociais. Nessa ótica, é analisada como se dá forma ao corpo, partindo do princípio de que este é passível de ser moldado, dinâmico e com fluxos vitais, integrado nos ciclos da vida e do ambiente (no qual não existe uma fronteira visível entre natureza e cultura). É importante concluir que em Ribeira da Barca a pessoa é relacional, que se dá por meio da relação com os outros e consigo mesma. (CRUZ; VIEIRA, 2015, p. e40)
CRUZ, C. H. C.; VIEIRA, M. S. As parteiras, o partejar e a noção de pessoa em Ribeira da Barca, Cabo Verde. Civitas - Revista de Ciências Sociais, v. 15, n. 2, p. e40–e58, abr. 2015.
Referências Bibliográficas
CHANIAL, P. Além do domínio do interesse? Dádiva, proteção social e renda da cidadania. Caderno CRH, [S. l.], v. 17, n. 40, 2006. Disponível em: https://periodicos.ufba.br/index.php/crh/article/view/18478. Acesso em: 9 fev. 2024.
CRUZ, C. H. C.; VIEIRA, M. S. As parteiras, o partejar e a noção de pessoa em Ribeira da Barca, Cabo Verde. Civitas - Revista de Ciências Sociais, v. 15, n. 2, p. e40–e58, abr. 2015.
LEENHARDT, M. Do kamo. La personne et le mythe dans le monde mélanésien. Paris: Gallimard, 1971.
LAPLANTINE, F. Aprender antropologia. São Paulo. Brasiliense, 2000.
LÉVI-STRAUSS, C. Introdução à obra de Marcel Mauss. In: LÉVI-STRAUSS, C. Sociologia e antropologia. São Paulo: Cosac & Naify, 2003.
MAUSS, M. As técnicas do corpo. In: MAUSS, M. Sociologia e antropologia. São Paulo: Cosac & Naify, 2003a.
MAUSS, M. Uma categoria do espírito humano: a noção de pessoa, a noção do “eu”. In: MAUSS, M. Sociologia e antropologia. São Paulo: Cosac & Naify, 2003b.
OLIVEIRA, L. R. C. As categorias do entendimento humano e a noção de tempo e espaço entre os Nuer. Brasília, 2003. (Série Antropologia.)
ORTIZ, R. As formas elementares da vida religiosa e as ciências sociais contemporâneas. Lua Nova: Revista de Cultura e Política, n. 87, p. 13-31, 2012. Disponível em: https://www.scielo.br/j/ln/a/ZZSq4YLMnfDRrXfXChr9JZH/#. Acesso em: 9 fev. 2024.
PONTES, H. Durkheim: uma análise dos fundamentos simbólicos da vida social e dos fundamentos sociais do simbolismo. Cadernos de Campo, São Paulo, USP/FFLCH, ano III, n. 3, p. 89-102, 1993.
Aula 2
Malinowski e a Observação Participante
Malinowski e a Observação Participante
Olá, estudante! Nesta videoaula, você vai conhecer Bronislaw Malinowski, o autor que é considerado o “pai” da Antropologia moderna. Este conteúdo é fundamental para a compreensão da Antropologia, pois inaugura o profissionalismo dessa área de conhecimento.
Prepare-se para esta jornada de conhecimento! Vamos lá!
Ponto de Partida
Nesta aula, vamos estudar Bronislaw Malinowski (1884-1942), autor considerado fundamental para o desenvolvimento da Antropologia profissional, com o desenvolvimento da Observação Participante, uma maneira de estudar as sociedades que busca ter acesso a questões que não estão aparentes em um primeiro momento.
Para de fato compreendermos uma realidade, a partir da perspectiva antropológica, é necessário um processo de convivência com os sujeitos da realidade pesquisada. Como essa convivência pode contribuir para a compreensão de uma realidade? É isso que vamos aprofundar nesta aula.
Espero que você goste do material que preparamos para você.
Boa aula!
Vamos Começar!
A importância do trabalho de campo para a Antropologia social britânica
A Antropologia social britânica se consolida com os trabalhos de Bronislaw Malinowski (1884-1942) no início do século XX. A publicação dos Argonautas do Pacífico Ocidental, em 1922, inaugura o que podemos chamar de uma antropologia profissional. Nessa etnografia, Malinowski realiza uma Observação Participante de longa duração entre os nativos das Ilhas Trobriand, um arquipélago no Oceano Pacífico.
Devemos lembrar que no começo do século XX, a sociedade científica ainda está permeada pelo pensamento evolucionista. Na Antropologia, diversos autores estão tentando encontrar alternativas metodológicas para o entendimento das sociedades não ocidentais, já que vinham criticando o método comparativo dos evolucionistas sociais. Eles acabam por rejeitar os pressupostos da história especulativa e linear que tentava recompor os estágios de evolução da cultura.
Ao ressaltarem aspectos como o da organização social, da estrutura social, da análise das instituições, do parentesco, por meio dos estudos empíricos, os antropólogos ingleses, em particular Malinowski, passam a propor que bastava o entendimento da maneira como esses elementos interagem em uma sociedade, para compreender a maneira como ela funciona e organiza-se.
Segundo nos mostra Cardoso de Oliveira (1988), não podemos nos referir à Antropologia britânica sem passarmos por Rivers (1864 – 1922), pois o autor, mesmo antes de Malinowski, trouxe a base de uma Antropologia comprometida com o trabalho de campo empírico. Dedicou-se, especialmente, a uma Antropologia comparativa, estudos sobre organização social e parentesco, temas esses que se tornaram centrais para Antropologia britânica.
Na Introdução ao livro Os Argonautas do Pacífico Ocidental (1922), Malinowski cria o capítulo mais famoso da história da disciplina, no qual ele propõe os procedimentos metodológicos de uma pesquisa campo. Malinowski foi primeiro a realizar pesquisa de campo prolongada, entre 1915 e 1918, já com uma formação específica para isso.
Não era comum até então, nas ciências sociais, um capítulo metodológico que enfatizasse os caminhos específicos da pesquisa. Malinowski (1984) explica que os resultados da pesquisa científica devem ser demonstrados ao leitor de maneira clara e honesta, tal qual se faz nas ciências físicas e naturais, lembrando que é corrente nessas ciências a apresentação de tudo o que foi utilizado para se obter os resultados da pesquisa empreendida.
O autor ainda propõe que só terão valor científico os trabalhos etnográficos que separem as afirmações e interpretações resultados da observação direta do etnógrafo das reflexões realizadas, que deveriam ser fundamentadas no bom-senso e no discernimento psicológico.
Essa observação era importante naquele contexto. Vamos relembrar que o autor está se contrapondo à metodologia do Evolucionismo Cultural. Malinowski (1984) comenta que os homens brancos que viviam na região – missionários, administradores e comerciantes – tinham opiniões preconcebidas sobre os nativos, e que isso não pode ser aceito por aqueles que querem ter uma visão científica e objetiva da realidade. A todo momento o autor lembra que está procurando definir as características de um trabalho científico, sempre citando a superioridade desse tipo de trabalho em comparação aos que poderíamos chamar de “amadores” da análise das sociedades.
Siga em Frente...
A Observação Participante de Malinowski
Bronislaw Malinowski revoluciona a Antropologia moderna ao sistematizar o que ele chamou de Observação Participante. Esse método, em linhas gerais, aponta para a necessidade de:
- o pesquisador ficar atento para que os seus objetivos sejam realmente científicos; deve-se conhecer os valores e critérios da etnografia moderna;
- familiarizar-se com a vida local; vivendo entre os nativos sem precisar da ajuda de outros brancos;
- aplicar-se métodos específicos de coleta, manipulação e registro de dados – o diário de campo.
Quando Malinowski (1984) fala que se deve conhecer os valores e os critérios da etnologia moderna, está apontando para a necessidade de estudar tudo aquilo que está sendo produzido sobre sociedades “exóticas” aos europeus, estar a par de suas últimas descobertas. O autor toma o cuidado de explicar que é preciso estar atento às ideias preconcebidas, pois a leitura sobre certos temas e sociedades pode fazer com que o etnógrafo vá a campo já esperando encontrar determinadas características entre os nativos, ou seja, o pesquisador pode partir para uma expedição com a intenção de provar determinadas hipóteses. Malinowski (1984) afirma que é preciso estar disposto a abandonar essas hipóteses se a evidência empírica apontar para outros caminhos.
Assim, é o campo que deve indicar os temas e as hipóteses a serem refletidas pelo pesquisador. Esse ensinamento é seguido até hoje na disciplina, os antropólogos têm sempre em mente a máxima que “o campo fala', é preciso estar atento para “ouvir o campo” e direcionar a pesquisa a partir dessa escuta.
O segundo ponto levantado anteriormente, como uma das bases para a realização da observação participante, diz espeito às condições adequadas à pesquisa etnográfica. Para tanto, era preciso, segundo Malinowski, (1984) afastar-se da presença de outros brancos, o que faz com que o contato com os nativos seja mais íntimo. Era necessário ter atenção aos detalhes da vida cotidiana. Vamos ver o que significa isso nas palavras de Malinowski (1984, p. 21):
No meu passeio matinal pela aldeia, podia observar detalhes íntimos da vida familiar – os nativos fazendo sua toalete, cozinhando, comendo; podia observar os preparativos para os trabalhos do dia, as pessoas saindo para realizar suas tarefas; grupos de homens e mulheres ocupados em trabalhos de manufatura. Brigas, brincadeiras, cenas de família, incidentes geralmente triviais, às vezes dramáticos, mas sempre significativos, formavam a atmosfera da minha vida diária, tanto quanto a da deles.
Podemos perceber que os detalhes são importantes na descrição, isto se tornará mais tarde, na oportunidade da produção da monografia, fundamental para reconstrução da vida nativa. Essa convivência diária e intensa é o que permite ao pesquisador entender a lógica dos comportamentos nativos.
A compreensão e fluência da língua nativa são tarefas importantes do pesquisador, pois assim é possível dispensar a figura do intérprete, que pode traduzir as falas e conversas sem a precisão necessária para o etnógrafo. Com o tempo e o aprendizado da língua vai se tornando mais fácil formular perguntas e entender as respostas e, principalmente, compreender as sutilezas do idioma, como ler nas entrelinhas das falas.
Aqui devemos perceber a importância da ideia de passar um longo período de tempo em campo. O objetivo final é permitir que o etnógrafo participasse o máximo possível da vida cotidiana dos nativos, pois só assim seria possível atingir o objetivo final da análise, atingir o ponto de vista nativo. O autor ressalta que os detalhes do cotidiano eram tão importantes quanto os eventos mais extraordinários, como um ritual ou uma cerimônia, bem como essa permanência deveria ter o impacto de fazer com que os nativos “esquecessem” a presença do etnógrafo entre eles e agissem “naturalmente”.
A importância do diário de campo na Antropologia
Durante esse trabalho, o etnógrafo deveria anotar basicamente tudo, evitando restringir-se a pontos específicos. Assim, chegamos ao terceiro ponto destacado anteriormente: a ideia de sistematizar e criar um método para a coleta e as anotações dos dados obtidos. Malinowski (1984) sugeria a separação entre o conhecimento teórico e o trabalho de campo, para o autor eram duas funções diferentes.
Malinowski (1984) chama atenção para a necessidade da sinceridade metodológica, deixando claro ao leitor o modo, as circunstâncias e o grau de precisão pelo qual o autor chega às informações que discute. Em geral, o autor vai dizer que quando missionários, comerciantes ou um funcionário travam relações com os nativos é para transformá-los, influenciá-los ou utilizá-los, isto impede a sinceridade metodológica, bem como inviabiliza uma observação imparcial e correta.
Como um Funcionalista, Malinowski busca alcançar uma visão da totalidade da vida tribal e acessar os imponderáveis da vida real, e isso se se trona possível por meio do trabalho da observação. Outros elementos metodológicos são importantes, como questionários, que são úteis para se chegar, como diz o autor, a um “esqueleto” da constituição tribal, porém é insuficiente para conhecer o nativo em carne e sangue.
Aqui surge a indicação para a importância do diário etnográfico, que feito sistematicamente, é a ferramenta ideal para esse modelo de estudo. Algumas peculiaridades da vida nativa podem impressionar o pesquisador de início, no entanto, logo deixam de ser novidades e não são mais notadas. Já outras questões da vida cotidiana só são percebidas depois de maiores conhecimentos da vida nativa. Com as anotações e as descrições sistemáticas no diário, o etnógrafo terá a possibilidade de perceber as variações da vida normal, aquilo que é eventual ou comum. Consequentemente, o método criado por essa Antropologia profissional também era mais eficiente; segundo Malinowski (1984, p. 33-34), essa profissionalização da disciplina tem por objetivo final:
[...] apreender o ponto de vista dos nativos, seus relacionamentos com a vida, sua visão de seu mundo. É nossa tarefa estudar o homem e devemos, portanto, estudar tudo aquilo que mais intimamente lhe diz respeito, ou seja, o domínio que a vida exerce sobre ele. Cada cultura possui seus próprios valores; as pessoas têm suas próprias ambições, seguem a seus próprios impulsos, desejam diferentes formas de felicidade. [...] Talvez a mentalidade humana se revele a nós através de caminhos nunca antes trilhado. Talvez, pela compreensão de uma forma tão distante e estranha da natureza humana, possamos entender nossa própria natureza.
Compreender o ponto de vista nativo e a sua visão de mundo ainda é um dos objetivos da disciplina. Percebemos, também, que o autor ressalta a diversidade social e escapa ao etnocentrismo. Esse modelo metodológico é até hoje uma das ferramentas mais importantes da disciplina, mas, se por um lado Malinowski foi fundamental para o avanço metodológico da disciplina, em termos teóricos, ele não nos fornece contribuições significativas.
Vamos Exercitar?
Nesta aula sobre Bronislaw Malinowski, você viu o desenvolvimento da Observação Participante. No começo da nossa discussão, nós levantamos o questionamento sobre como esse método poderia nos ajudar a compreender determinado contexto social, ou ainda, como a convivência com os sujeitos de uma determinada realidade poderia ser importante para a compreensão de coisas que não estão necessariamente aparentes.
Como exemplo, poderíamos pensar em um estrangeiro que chega ao Brasil com algum entendimento do português falado aqui, mas imagine esse indivíduo conversando com alguém que fala bastante gíria. Será que ele entenderia tudo? As piadas, as palavras com duplo sentido? Ou podemos pensar no próprio brasileiro viajando pelo país. Quantas vezes não nos deparamos com sotaques que tornam a palavra falada quase incompreensível para nós?
Algumas sutilezas da vida real, portanto, só podem ser compreendidas a partir de um processo prolongado de convivência, que permite maior conhecimento sobre as coisas. Demos exemplos aqui sobre a fala, a linguagem, mas poderíamos estender isso para outras questões.
O que você achou da nossa aula? Espero que tenha sido interessante para você como foi para nós.
Saiba Mais
A importância do trabalho de campo para a Antropologia social britânica
Indicamos a seguir um ótimo artigo da antropóloga Mariza Peirano, sobre o aniversário de cem anos da publicação de Argonautas do Pacífico Ocidental. No artigo, você também encontra interessantes imagens da estadia de Malinowski entre os nativos das Ilhas Trobriand. Vejamos o comentário inicial de Peirano (2022):
A primeira grande monografia de Bronislaw Malinowski completa 100 anos. Foi em 1922 que a editora Routledge publicou Argonautas do Pacífico Ocidental. Durante o último século, o livro foi ora aplaudido, ora criticado, mas marcou a Antropologia com um antes e um depois – antes e depois de Argonautas. A obra tornou-se célebre por estabelecer padrões para a pesquisa de campo e resultar de um trabalho longo e intensivo. A partir daí, adquiriu aspectos míticos como rito de iniciação na disciplina. O reconhecimento de que a monografia alcançou enorme prestígio na Antropologia pode ser visto nas inúmeras publicações por ocasião da proximidade do seu centenário, em várias partes do mundo, reunindo estudos, novas avaliações, debates e depoimentos.
PEIRANO, M. Argonautas faz cem anos. Ponto Urbe [online], 30, 2022.
A Observação Participante de Malinowski
Entre as contribuições e preocupações de registro etnográfico de Malinowski está a fotografia. Neste artigo que recomendamos há uma interessante análise sobre essa faceta pouco explorada do trabalho de Malinowski, como a autora nos apresenta no resumo de seu artigo:
A constituição de uma Antropologia visual de cunho científico não se fará independentemente de vários imperativos heurísticos que esboçamos no início deste artigo. Entre eles, evidenciamos a necessidade que se tem de promover uma história da antropologia visual. Nesse sentido, procuramos focalizar o papel desempenhado pela fotografia nas obras clássicas que Malinowski dedicou aos nativos das Ilhas Trobriand, vendo como o antropólogo encarava a fotografia, como a fez, que lugar lhe alocava e a que funções a destinava dentro de seu próprio discurso antropológico. (SAMAIN, 1995, p. 23)
SAMAIN, E. “Ver” e “dizer” na tradição etnográfica: Bronislaw Malinowski e a fotografia. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 1, n. 2, p. 23-60, jul./set. 1995.
A importância do diário de campo na Antropologia
Neste breve artigo, Magnani, um dos mais importantes antropólogos brasileiros, nos fala sobre o caderno/diário de campo e a sua importância na Antropologia. Assim, começa o seu artigo:
Este livro é a edição sem retoques dos meus diários de campo nas duas expedições que fiz, entre 1949 e 1951, às aldeias dos Urubus-Kaapor. Eu tinha, então, 27 anos, o vigor, a alegria e o elã dessa idade, de que tenho infinitas saudades. Enfrentava sem medo marchas de mil quilômetros, temporadas de dez meses (...). Meus diários são anotações que fiz dia a dia lá nas aldeias, do que via, do que me acontecia e do que os índios me diziam. Gastei nisso uns oito grossos cadernos, de capa dura, que ajudava a sustentar a escrita. Porque índio não tem mesa. Muitas vezes escrevia sobre minhas pernas ou deitado em redes balouçantes. Você imaginará a letra horrível que resultava disso.
Assim começava o mais recente livro de Darcy Ribeiro, “Diários Índios”, uma bela edição, mais de seiscentas páginas com dados de campo, relatos das viagens e seus incidentes, descrições de ritos, desenhos, fotos, diagramas de parentesco e até rabiscos feitos pelos próprios índios.
Leia mais em:
MAGNANI, J. G. C. O (velho e bom) caderno de campo. Revista Sexta-feira, São Paulo, n. 1, maio de 1997.
Referências Bibliográficas
OLIVEIRA, L. R. C. Sobre o pensamento antropológico. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; Brasília: CNPQ, 1988.
MAGNANI, J. G. C. O (velho e bom) caderno de campo. Revista Sexta-feira, n. 1, São Paulo, maio de 1997. Disponível em: https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/7493027/mod_resource/content/1/Magnani_caderno_de_campo.pdf. Acesso em: 12 fev. 2024.
MALINOWSKI, B. Introdução: tema, método e objetivo desta investigação. In: MALINOWSKI, B. Argonautas do Pacífico Ocidental: um relato do empreendimento e da aventura dos nativos nos arquipélagos da Nova Guiné melanésia. 3. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1984.
PEIRANO, M. “Argonautas faz cem anos”. Ponto Urbe [online], n. 30, 2022. Disponível em: https://journals.openedition.org/pontourbe/13116?lang=en. Acesso em: 12 fev. 2024.
SAMAIN, E. “Ver” e “dizer” na tradição etnográfica: Bronislaw Malinowski e a fotografia. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 1, n. 2, p. 23-60, jul./set. 1995. Disponível em: https://cchla.ufpb.br/etienne_samain_unicamp/wp-content/uploads/2018/01/Samain-1995-Ver-e-dizer-Malinowski.pdf. Acesso em 12 fev. 2024.
Aula 3
Os Desdobramentos da Antropologia Social Britânica
Os desdobramentos da Antropologia Social britânica
Olá, estudante! Nesta videoaula, você vai conhecer o desenvolvimento do estrutural funcionalismo. Este conteúdo é importante para conhecer os avanços da Antropologia quando as análises passam a se debruçar em novas realidade de pesquisas, em áreas geográficas maiores e com populações mais numerosas.
Prepare-se para esta jornada de conhecimento! Vamos lá!
Ponto de Partida
Nesta aula, vamos conhecer os avanços da Antropologia após os trabalhos de Malinowski, quando a Antropologia já profissionalizada se depara com contextos sociais, culturais e políticos diferentes das pesquisas anteriores. Veremos Radcliffe-Brown (1881-1955) e Evans-Pritchard (1902-1973), dois antropólogos que realizaram pesquisas na África inspirados pela Observação Participante de Malinowski, mas procurando avançar teoricamente.
A leitura e a análise desses autores levam a Antropologia a refletir sobre importantes aspectos políticos e teóricos que, ainda hoje, são importantes para todos aqueles que se propõem a interpretar realidades e contextos sociais a partir dos ensinamentos dessa ciência.
Vamos lá! Espero que você goste da leitura e aproveite muito os conhecimentos aqui discutidos.
Vamos Começar!
Críticas ao funcionalismo de Malinowski
Malinowski insistiu na necessidade de pensar o contexto social e as inter-relações entre as instituições. Se preocupou em se afastar do etnocentrismo, assim como avançou em relação ao método comparativo evolucionista ao não comparar características específicas de uma cultura com outra, ou seja, observou que não era eficiente comparar, por exemplo, a forma de produção das sociedades industriais com as maneiras de se produzir em sociedades tradicionais e passou a tratar a sociedade como uma totalidade.
Eunice Durham (2004) comenta o funcionalismo de Malinowski e demonstra que, para ele, é preciso contrapor as ideias às emoções, aquilo que o pesquisador observa no comportamento nativo deve ser comparado ao comentário que o nativo tece sobre seu próprio comportamento. A sua grande preocupação e a sua tentativa foram mostrar que o chamado 'primitivo' não era irracional ou incoerente, mas que as suas ações poderiam ser explicadas e tinham uma lógica própria.
Uma das preocupações teóricas de Malinowski era tentar entender a totalidade da vida nativa e não se deter em elementos específicos, como a religião ou o parentesco, por exemplo. A análise destes também era fundamental, mas pensadas em sua interdependência.
Percebemos, assim, a grande influência do funcionalismo de Durkheim nessa abordagem, porém também devemos destacar as distinções entre os pensadores. Malinowski (1984) sugere que as instituições ajustavam-se ao todo para garantir que as necessidades individuais – alimentação, reprodução, habitação – fossem supridas, ou seja, o que determina a vida social são as necessidades individuais.
Perceba que essa noção é muito diferente da visão de Durkheim e da Escola Sociológica Francesa, que afirmavam que o social só se explica pelo social. Vejamos um exemplo sobre o assunto. Por que nos alimentamos? Ora, é claro que nos alimentamos para satisfazer as necessidades físicas do corpo, nutri-lo com as vitaminas necessárias para sua reprodução física. Dizer isto não responde a uma série de questões sobre a alimentação. Por que comemos um certo tipo de alimento e não outro? Por que nos alimentamos de coisas que são pobres em nutrientes ou fazem mal ao corpo? Por que comemos no horário X e não Y? Por que certos alimentos não podem ser consumidos por determinados grupos sociais? Há indivíduos que se alimentam em quantidades maiores do que o necessário, e outros em pouquíssima quantidade. Poderíamos continuar fazendo uma série de questões a respeito.
Podemos perceber que a alimentação é algo que vai muito além das necessidades individuais, ela está carregada de questões simbólicas, de restrições religiosas, de convenções sociais, isto só pode ser explicado por meio da análise dos arranjos sociais estabelecidos entre os indivíduos de uma sociedade. Por isso, a ideia de Durkheim de que o social só se explica pelo social. E por esse mesmo motivo podemos fazer a crítica ao Malinowski sobre a sua explicação para a determinação individual da constituição das instituições sociais.
Outros autores da Antropologia social britânica avançaram em relação a esse impasse teórico, como Radcliffe-Brown (1881- 1955) e Evans-Pritchard (1902 – 1973), que procuraram desenvolver as noções de sistema e estrutura. Na próxima seção, vamos nos deter no Estrutural-funcionalismo.
Siga em Frente...
Radcliffe-Brown (1881-1955)
Numa linha mais próxima a de Durkheim, Radcliffe-Brown adota em suas obras a ideia de procurar princípios estruturais abstratos e mecanismos sociais de integração independentemente dos indivíduos. Como mostra Kuper (1978), depois do período funcionalista até os anos de 1930 há uma tendência na Antropologia social britânica, principalmente pós-década de 1940, dos estudos seguirem orientações teóricas mais próximas aos estudos de Radcliffe-Brown.
Radcliffe-Brown (1978) opõe-se ao que ele chama de método histórico – ele está se referindo ao método utilizado no Evolucionismo – em detrimento de um método generalizante, pois, para o autor, sempre que se tenta reconstruir a história busca-se descobrir algo de um passado do qual não se tem registro, portanto se apoia em conjecturas. Radcliffe-Brown (1978, p. 181) sinaliza para a necessidade de se buscar princípios gerais e para “o desejo de alcançar o conhecimento científico da natureza da cultura e da vida social.” O autor, ao nos explicar o seu método, diz que:
O método pode ser definido como sendo aquele pelo qual demonstramos que um fenômeno ou acontecimento particular é um exemplo de uma lei geral. No estudo de qualquer grupo de fenômenos, pretendemos descobrir leis que sejam universais dentro daquele grupo. Quando essas leis são descobertas, elas ‘explicam’ os fenômenos a que se referem. Uma ciência desse tipo, tal como a concebo, continua ainda descritiva, mas, no lugar das descrições de casos particulares e de suas relações particulares, tais como nos dão as ciências históricas, ela nos fornece descrições gerais. (RADCLIFFEBROWN, 1978, p. 182)
O autor distancia-se do Evolucionismo quando opta por pensar determinado elemento da cultura de forma integrada em um sistema. Radcliffe-Brown (1978) nos aponta isso ao tratar do totemismo, quando critica o método evolucionista de isolar fenômenos culturais – como o totemismo. Para Radcliffe-Brown, o totemismo é parte de um extenso sistema de crenças e costumes, podendo ocupar lugar preponderante nesse sistema ou, ao contrário, podendo ter uma posição insignificante. O que é fato, para o autor, é que ele faz parte de relações rituais presentes na sociedade para lidar com a relação homem/natureza.
Para Radcliffe-Brown (1978), o problema maior a ser pesquisado é o da natureza e o da função do ritual e da mitologia. Nesse sentido, o autor aponta para o totemismo como uma forma particular de um problema universal da cultura:
Toda cultura que conhecemos tem algum sistema de crenças e costumes, pelo qual o mundo da natureza exterior é colocado em relação com a sociedade, formando uma única estrutura conceitual, e pelo qual são estabelecidas relações entre o homem e a natureza de um tipo semelhante, em certos sentidos, às relações estabelecidas entre os próprios seres humanos dentro da sociedade. (RADCLIFFE-BROWN, 1978, p. 185)
Vimos que Radcliffe-Brown distancia-se do Evolucionismo e aproxima-se de Durkheim ao falar em função de uma instituição dentro de um sistema integrado. Ele também valoriza a observação participante de Malinowski, apontando que somente o pesquisador de campo pode descobrir os significados dos elementos da cultura. O autor ressalta a busca por “significados”; o significado de um elemento da cultura só pode ser definido quando se vê a cultura como um todo, composto por partes interrelacionadas.
E isto só pode ser acessado pelo etnógrafo ou sociólogo descritivo. Há aqui, portanto, a valorização do empirismo e do método indutivo. Radcliffe-Brown (1978) também chama a atenção para o problema da diacronia e sincronia, optando pela ideia de que seria preciso primeiro tentar entender a natureza da cultura e da vida social, para só depois procurar investigar as mudanças da cultura. Desse modo, teríamos a descoberta do que é universal, por meio da análise sincrônica, o que permitiria a comparação entre sistemas culturais. Assim, fica para um segundo plano a análise da mudança social, que seria tarefa dos estudos diacrônicos. Para Radcliffe-Brown (1978), não há como entender a mudança da cultura sem antes determinar o que é a cultura.
Em outra crítica ao Evolucionismo, o autor alerta para o uso equivocado de termos como ‘primitivo’ e ‘selvagem’, lembrando que o termo primitivo “evoca a sugestão de que qualquer sociedade a que se aplique representa para nós qualquer coisa dos primórdios da vida social” (RADCLIFFE-BROWN, 1978, p. 192). Dessa forma, os estudos do que o autor chama de “velha antropologia” costumavam agrupar um conjunto de sociedades sob a definição de sociedades primitivas, diferenciando-as da sociedade civilizada, que seria a ocidental.
Radcliffe-Brown ainda acredita que os ocidentais deveriam ter um papel civilizatório. Até meados do século XX esse pressuposto é constante nas análises antropológicas, que deixam de observar em suas pesquisas de campo essa relação de poder estabelecida entre pesquisador (associado aos colonizadores) e grupos pesquisados (que sofreram as duras consequências do processo de colonização). A falta de contextualização política e histórica da colonização é recorrente nos trabalhos com características diacrônicas, como os de Radcliffe-Brown e Evans-Pritchard.
Apesar desse limite, característico de toda Antropologia da época, em termos metodológicos, Radcliffe-Brown indica alguns pressupostos interessantes, superando Malinowski ao apontar que a função das instituições sociais não é a de satisfazer as necessidades individuais, mas defende, como Durkheim, que os fenômenos sociais só podem ser explicados a partir do próprio social e que as instituições sociais se integram em um sistema que mantém a sociedade funcionando. Faz, portanto, uma junção interessante da Observação Participante de Malinowski e da análise teórica de Durkheim.
Evans-Pritchard (1902-1973)
Entre as décadas de 1930 e 1940, aconteceu uma mudança importante no que se refere às regiões geográficas estudadas pela Antropologia. Segundo Kuper (1978), as expedições e pesquisas britânicas migram da região do Pacífico para África. Naquele momento, os antropólogos depararam-se com sociedades em grande escala e de difícil demarcação geográfica, constituídas por instituições políticas bastante complexas. Tudo isso produz novas preocupações teóricas, mas prevalecem os preceitos metodológicos do trabalho de campo aos moldes da Observação Participante. Evans-Pritchard fez uma série de visitas aos nuer na década de 1930, na ocasião a população nuer era de aproximadamente 200.000 pessoas, vivendo num território de 78.000 Km² no Sudão Meridional. Segundo Kuper (1978, p. 107):
Evans-Pritchard descobriu e demonstrou pela primeira vez como um sistema político pode existir sem governantes num estado que ele denominou de “anarquia ordeira”, sendo as relações entre grupos territoriais conceptualizados num idioma de relações lineares e regidas por processos de fissão e fusão.
É nesse contexto que surgem os primeiros trabalhos de Antropologia política. A novidade representada pela obra de Evans-Pritchard, segundo Kuper (1978), foi a elaboração de análises que estabeleciam a relação entre estrutura, sistemas políticos e de parentesco. Kuper (1978) demonstra que os administradores coloniais estavam preocupados com os métodos de administração dos povos africanos, pois alguns grupos não se organizavam a partir de instituições políticas centralizadas. Os estudos voltam-se, então, para os sistemas políticos e as formas de controle social. Essa guinada de interesse trouxe contribuições importantes para as ciências sociais e para a filosofia política. Essa preocupação aparece no livro Os Nuer, publicado por Evans-Pritchard, em 1940, que trata desse grupo étnico africano, que hoje se localiza no Sudão. Segundo Kuper (1978, p. 107): os Nuers estavam justamente se recuperando do brutal programa de ‘pacificação’, o qual incluíra o bombardeio de seus rebanhos e o enforcamento de seus profetas – e não estavam por isso no melhor dos ânimos para propiciar uma acolhida hospitaleira a visitantes brancos.
Os administradores coloniais estavam preocupados com os métodos de administração dos povos africanos, pois alguns grupos não se organizavam a partir de instituições políticas centralizadas. Os estudos voltam-se, então, para os sistemas políticos e às formas de controle social. Essa guinada de interesse trouxe contribuições importantes para as ciências sociais e para a filosofia política.
Evans-Pritchard (1981) ressalta que para compreender o estado anárquico dos nuer é preciso primeiro entender a ecologia do povo, seus meios de sobrevivência, e a sua distribuição em relação ao meio ambiente que os cerca. Veremos que isso é fundamental, pois a sua vida está intrinsicamente ligada ao gado. Eles vivem – em termos históricos, estamos falando do momento da pesquisa do autor – do pastoreio e da agricultura. O gado tem um lugar especial para eles, muito mais do que um valor nutritivo, é a coisa mais importante em sua vida, são pastoris pelo sentimento.
Em território nuer, o ano divide-se em duas estações de igual duração, o tempo de chuva e o de seca, o que influencia fortemente em suas relações políticas. Durante as chuvas, eles vivem em aldeias nas partes mais altas, e as terras baixas ficam inundadas, impedindo a agricultura. Com o fim das chuvas, eles deixam as aldeias e passam a viver em pequenos acampamentos.
As aldeias contam com algo entre cinquenta e várias centenas de pessoas, vai depender do território. Os nuer chamam de distrito o conjunto de aldeias que ocupa um determinado raio, sendo que uma mesma aldeia pode ser incluída em mais de um distrito. A formação de um grupo político pode se dar a partir do sentimento de pertencimento a um determinado distrito, a depender da teia de laços sociais que se forma entre os seus membros.
É importante considerar que, como mostra Evans-Pritchard (1981), as pessoas de um mesmo distrito tendem a acampar juntos durante a seca e, assim, assistem a casamentos e participam de cerimônias uns dos outros, casam-se entre si e acabam criando muitas relações. Isto potencializa a formação de uma unidade política, ou seja, o princípio territorial da estrutura política nuer sofre influências da divisão sazonal.
Cada tribo nuer tem um clã dominante, a partir deste há uma estrutura de parentesco formando um agregado político. Os integrantes de uma tribo costumam ser bastante orgulhosos de pertencer ao seu grupo, sendo que os conflitos internos são resolvidos por um “juiz”, e há um direito e mecanismos de resolução das disputas, uma obrigação moral para resolver as desavenças. Os membros de uma tribo costumam se unir contra outras unidades do mesmo tipo e contra estrangeiros.
Assim, o maior grupo político nuer é a tribo. Quando um homem mata outro da mesma tribo, pode-se fazer um acordo de compensar a perda com o pagamento em gado. Já quando um homem mata outro de outra tribo, a retribuição só virá em termos de guerra intertribal. Esse conflito dentro da tribo é chamado de feudo. Alguns feudos são de difícil resolução, quando a tribo tem um número grande de membros fica ainda mais difícil.
No caso de feudos demasiadamente complexos em tribos com grandes divisões pode ocorrer a divisão em duas novas tribos. Muitas relações sociais ligam membros de diferentes tribos, um mesmo clã pode existir em tribos distintas. Assim, qualquer nuer pode deixar sua tribo e ir viver em outra.
Além disso, uma tribo está dividida em segmentos territoriais que se consideram como comunidades separadas. As divisões de uma tribo são chamadas por Evans-Pritchard (1981) de secções tribais, existem as secções primárias, secundárias e terciárias. Pode haver conflitos entre essas secções. Uma secção tribal pode ser formada por várias aldeias, e uma aldeia é dividida em grupos domésticos.
Existe uma série de outras subdivisões entre os nuer, como as de série de idade. É importante notar que a noção de sistema é uma abstração, que permite comparar as relações entre os diversos grupos e, a partir disso, definir a organização política nuer, e o porquê de ela funcionar sem a existência de um poder centralizado como um Estado Moderno.
Estrutura social, conforme mostram Eriksen e Nielsen (2010), é entendida como um sistema abstrato de relações sociais que independe das mudanças dos indivíduos. A sociedade nuer é segmentária com forte importância das linhagens. Percebemos, assim, que Evans-Pritchard não centra as suas preocupações nos indivíduos, ao contrário, descreve tais sistemas e estruturas. Vemos um avanço significativo na Antropologia e na explicação social com Evans-Pritchard. Fica o convite para você ler Os Nuer e conhecer outras facetas incríveis dessa grande nação africana.
Vamos Exercitar?
Chegamos ao final de nossa aula sobre o Estrutural-Funcionalismo. Espero que você tenha gostado.
Talvez você deva estar se perguntando qual é a importância de saber sobre o sistema político de uma sociedade africana, ainda mais no começo do século XX. O que a Antropologia provocou com a sua extensa coletânea etnográfica foi demonstrar a pluralidade de exemplos de possibilidades de vida. Quando nos deparamos com exemplos de outras sociedades, podemos entender melhor o nosso próprio modo de vida. O conhecimento sobre outros modelos de organização política, que não a de um governo centralizado, deveria permitir um melhor entendimento do nosso próprio sistema político.
Será que é possível estabelecer comparações como essas? A comparação sempre é importante, não para julgar os outros, ou para definir quem é melhor, mas isso nos mostra que nosso modo de vida não é natural, não está sempre determinado. O que é resultado de arranjos sociais pode também ser modificado, nesse sentido, se avaliamos que a nossa sociedade não é justa, que nosso sistema político não é o único possível, podemos mais facilmente projetar novas relações e criar novos modelos que sejam mais interessantes para a vida de todos.
Saiba Mais
Críticas ao funcionalismo de Malinowski
Para um aprofundamento do debate sobre a relação entre etnografia, trabalho de campo e teoria, indicamos o artigo da antropóloga Mariza Peirano, intitulado A favor da etnografia. Segundo a autora ao apresentar seu artigo:
O tema que pretendo abordar neste trabalho diz respeito à pesquisa de campo e à etnografia. Tenho a intenção de desdobrar certas questões tratadas anteriormente sobre teoria e etnografia no âmbito de um debate sobre o estatuto teórico das ciências sociais brasileiras. Este é, portanto, um postscriptum ao texto anterior. Uma motivação para continuar a tratar este tema surgiu da constatação de que não só no Brasil, mas também na Europa e Estados Unidos, outros cientistas sociais vinham questionando a etnografia, isto é, por motivos diversos, Rabinow falava de um estágio "beyond ethnography", Martyn Hammersley perguntava "what’s wrong with ethnography?" e Nicholas Thomas se posicionava "against ethnography”. (PEIRANO, 2018, p. 197)
PEIRANO, M. G. S. A favor da etnografia. Anuário Antropológico, [S. l.], v. 17, n. 1, p. 197–223, 2018.
Radcliffe-Brown (1881-1955)
Neste artigo que recomendamos há uma interessante comparação entre Radcliffe-Brown e Franz Boas, uma leitura essencial para compreender melhor esses dois autores clássicos da Antropologia. Leia o resumo do artigo:
Alfred Radcliffe-Brown preconiza “leis gerais” para compreender as sociedades. Franz Boas, munido do conceito de cultura, se detém exclusivamente à microrrealidade em estudo, como se a cultura fosse um fato em si. Destarte, este texto argumenta sobre a necessidade de frentes de investigações na Educação Física escolar que levem em consideração as nuances dos dados que podem se apresentar em diferentes realidades conduzidas por meio da abordagem qualitativa. Em especial, este texto sugere reflexões sobre novas pesquisas que considerem as aparentes tensões entre aspectos “universais” e “singulares” dos dados presentes nos estudos principalmente de caráter antropológico. Desse modo, o presente ensaio objetiva apresentar as possíveis contribuições teóricas dos pensamentos de Alfred Radcliffe-Brown e de Franz Boas especificamente para os estudos comparativos em Educação Física escolar. (SILVA, 2021, p. 135)
SILVA, A. C. Estudos comparativos: contribuições antropológicas de Alfred Radcliffe-Brown e Franz Boas para reflexões sobre novas pesquisas em educação física escolar. Temas em Educação Física Escolar, Rio de Janeiro, v. 6, n. 1, p. 135 – 154, jan./jun. 2021.
Evans-Pritchard (1902-1973)
Em seu livro sobre os Nuer, Evans-Pritchard mostra a rivalidade desse grupo com os Dinka, seus vizinhos. Passado quase um século da pesquisa, como andam essas relações? Se você pesquisar na internet vai perceber que nada tranquilas. Neste artigo que recomendamos, você tem um apanhado desse conflito que se arrasta até hoje, e vai ver como eles se adaptaram a novos modelos de política e organização social, mas, também, mantiveram muito de sua estrutura segmentada. Veja um pequeno resumo de apresentação do artigo:
Quando Evans-Pritchard fez sua pesquisa entre os Nuer, entre 1930 e 1936, informava que eram aproximadamente 200 mil, vivendo ao sul da confluência do Nilo com o Sobat e o Bahr el Ghazal, na então colônia britânica do Sudão (1940: 3). Dizia, na mesma passagem, que sua semelhança com os vizinhos e inimigos Dinka era notável, que reconheciam ambos sua origem comum, e que não se conhecia "a história de sua divergência" (idem). Os Nuer continuam na mesma região, agora pertencente ao Sudão independente, e são hoje bem mais numerosos: em 1982, eram 740 mil no Sudão, e 40 mil na Etiópia. Em conjunto com os Dinka, cuja população é duas vezes maior3, constituem a esmagadora maioria no Sudão meridional, onde também se encontram outras etnias. Os acontecimentos destas últimas décadas mostram que as "divergências" entre Nuer e Dinka não só permanecem, como foram acirradas por conflitos mais amplos e pela introdução de armamento pesado. Mostram ainda que as "semelhanças" entre ambos, aquelas que Evans-Pritchard identificava como estruturais, persistem igualmente. (PERRONE-MOISÉS, 2001, p. 127-128)
PERRONE-MOISÉS, B. Conflitos recentes, estruturas persistentes: notícias do Sudão. Revista de Antropologia, v. 44, n. 2, p. 127-146, 2001.
Referências Bibliográficas
DURHAM, E. R. Malinowski: uma nova visão da antropologia. In: THOMAZ, O. R. (Org.). A dinâmica da cultura: ensaios de antropologia. São Paulo: Cosac Naify. 2004.
ERIKSEN, T. H.; NIELSEN, F. S. História da antropologia. 4. ed. Petrópolis: Vozes, 2010.
EVANS-PRITCHARD, E. E. Os nuer do sul do Sudão. In: FORDES, M.; EVANS-PRITCHARD, E. E. Sistemas políticos africanos. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1981. p. 469-508.
KUPER, A. As décadas de 1930 a 1940: da função à estrutura. In: KUPER, A. Antropólogos e antropologia. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1978.
MALINOWSKI, B. Introdução: tema, método e objetivo desta investigação. In: MALINOWSKI, B. Argonautas do Pacífico Ocidental: um relato do empreendimento e da aventura dos nativos nos arquipélagos da Nova Guiné melanésia. 3. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1984.
MELATTI, J.C. Radcliffe-Brown: antropologia. São Paulo: Ática, 1978. p. 7-39.
PERRONE-MOISÉS, B. Conflitos recentes, estruturas persistentes: notícias do Sudão. Revista de Antropologia, v. 44, n. 2, p. 127-146, 2001. Disponível em: https://www.scielo.br/j/ra/a/CmFchxjSmVvY5gWF3fJQKdt/?lang=pt#. Acesso em: 13 fev. 2024.
PEIRANO, M. G. S. A favor da etnografia. Anuário Antropológico, [S. l.], v. 17, n. 1, p. 197-223, 2018. Disponível em: https://periodicos.unb.br/index.php/anuarioantropologico/article/view/6535. Acesso em: 13 fev. 2024.
RADCLIFFE-BROWN, R. A. A posição atual dos estudos antropológicos. In: KUPER, A. Antropólogos e antropologia. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1978.
SILVA, A. C. Estudos comparativos: contribuições antropológicas de Alfred Radcliffe-Brown e Franz Boas para reflexões sobre novas pesquisas em educação física escolar. Temas em Educação Física Escolar, Rio de Janeiro, v. 6, n. 1, p. 135-154, jan./jun. 2021.
Aula 4
A Antropologia Social entre as Décadas de 1950 e 1980
A Antropologia social entre as décadas de 1950 e 1980
Olá, estudante! Nesta videoaula, você vai conhecer as “teorias da ação”, desenvolvidas pela Antropologia social a partir da segunda metade do século XX. Este conteúdo é importante para a reflexão antropológica, pois busca incorporar as noções de mudança social, ainda bastante marginalizadas na Antropologia social.
Prepare-se para esta jornada de conhecimento! Vamos lá!
Ponto de Partida
Nesta aula, vamos analisar a maneira como a Antropologia social começa a lidar com as ideias de mudança social. Até a primeira metade do século XX, o colonialismo ainda era tratado pela disciplina como algo inevitável e as mudanças ocorridas nas sociedades impactadas por esse processo de dominação vistas como aculturação. Havia uma certa ideia de que essas culturas iriam desaparecer com o tempo.
Nesta aprendizagem, iremos apontar os limites do Estrutural-Funcionalismo para trazer um debate contemporâneo na Antropologia com as chamadas “teorias da ação”, que trazem uma visão que já busca incorporar nas análises uma agência por parte dos nativos frente aos processos de dominação e colonização aos quais estão sendo submetidos.
Esses teóricos procuram incorporar mais aspectos relacionados aos indivíduos e seu lugar na sociedade, já que as teorias funcionalistas e estrutural-funcionalistas tendiam a privilegiar sempre o social frente ao individual. Longe de desprezar a importância da sociedade e do contexto na constituição dos indivíduos, mas atentos a dinâmicas mais complexas, os teóricos da ação vão refletir de maneira mais consciente sobre a mudança social e o poder nesses contextos.
Vamos lá? Tenha uma boa leitura!
Vamos Começar!
O contexto das pesquisas da Antropologia social nos anos 1950
Quando a Antropologia passou a realizar pesquisas de campo em sociedades de grande escala, principalmente na África, tivemos algumas mudanças metodológicas e de enfoque. Após o Estrutural-Funcionalismo de Radcliffe-Brown e Evans-Pritchard, a Antropologia passou a se questionar sobre o problema da mudança social pela qual os povos nativos estavam passando, a partir do processo de migração do campo para as cidades e da emergência de novas nações num contexto pós-colonial.
Estamos nos referindo às pesquisas realizadas, com poucas exceções, entre as décadas de 1950 e 1980. Como mostra Bela Feldman-Bianco (1987), os teóricos da ação passaram a tentar integrar à análise etnográfica, à perspectiva histórica e à análise de dados documentais. A ‘teoria da ação’ não abre mão da observação do comportamento concreto, das ações e interações sociais. Com o seu enfoque microssociológico, vai dizer a autora, a ‘teoria da ação’ preocupa-se em apreender os processos, as ações e as sequências de desenvolvimento, atentando para não perder de vista que as sociedades estão sempre em movimento e em constante fluxo.
Conforme Feldman-Bianco (1987), a antropologia inglesa passou a refletir em como articular o nível micro com o nível macro da análise. Segundo a autora, Nadel é um dos primeiros antropólogos a formular o que deveria ser pesquisado para análises das sociedades contemporâneas, o autor coloca a importância de se focar nos “'espaços intersticiais', ou seja: as relações interpessoais, as interações e as comunicações cotidianas através das quais instituições, associações e maquinarias legais operam” (FELDMAN-BIANCO, 1987, p. 15).
Neste primeiro momento de reelaboração dos princípios da Antropologia social, os autores fazem a crítica ao Funcionalismo, que se refere à noção de que sociedades de pequeno porte, que são fundamentadas predominantemente em parentesco, são sempre simples e homogêneas. Em segundo lugar, como coloca Feldman-Bianco (1987), o Funcionalismo fundamentava-se na noção de que tais sociedades seriam independentes do capitalismo, já que terra e trabalho ainda não haviam se transformado em mercadorias. E, por fim, essas sociedades eram analisadas como totalidades e microcosmos em si.
Para o Funcionalismo, continua a autora, essas sociedades não eram inseridas (pelos antropólogos) em contextos sociais, políticos e econômicos mais amplos. Quando a mudança social era levada em consideração, enfatizava-se o seu papel aculturador, esses estudos – como vimos em Malinowski – eram fundamentados em um enfoque sincrônico e atemporal.
Até meados da década de 1950, a Antropologia procurava transpor para o contexto das sociedades fragmentadas na África os mesmos ideais que utilizavam para pesquisar sociedades consideradas simples e homogêneas. Conforme mostra Feldman-Bianco (1987, p. 17):
Com estes pressupostos de pesquisa, e, além do mais, influenciados, direta ou indiretamente, por políticas colonialistas que visavam pacificar e ‘civilizar’ os colonizados de modo a evitar confrontos sociais, antropólogos optaram por destacar a coesão social em detrimento de análises que pudessem levar em consideração a eventual existência de conflito e contradição. Mesmo quando o conflito tornava-se foco de observação, a tendência era de analisá-lo sob o ângulo de sua possível contribuição para manutenção do equilíbrio social.
Nesse sentido, podemos perceber que a Antropologia, em sua vertente funcionalista e funcional-estruturalista, serviu aos interesses coloniais; esses antropólogos ignoraram o impacto da dominação e exploração colonial sob os povos nativos.
O Estrutural-Funcionalismo é mais duramente questionado a partir da Segunda Guerra Mundial e com a chegada do pós-colonialismo, quando essas sociedades passam por processos acelerados de mudança social, e os instrumentais metodológicos passam a ter que dar conta de analisar o conflito, a contradição e o fluxo social por meio de análises micro.
A teoria da ação e a análise da mudança social
A partir do contexto descrito, temos uma mudança importante, em vez de perguntar como fariam os funcionalistas: como a sociedade se mantém? A ‘teoria da ação’ vai questionar: como a sociedade transforma-se? Temos aqui, segundo Feldman-Bianco (1987), a influência de Marx e de Weber, com a preocupação em torno do processo social. Ainda sem romper inteiramente com a tradição da Antropologia britânica, os teóricos da ação reproduzem preceitos básicos de Malinowski ao focar nos indivíduos em lugar de sistemas, mas também flertam com Radcliffe-Brown que, ao contrário, privilegiou a análise sistêmica em detrimento dos indivíduos.
Um dos principais representantes dessa vertente é Raymond W. Firth (1901- 2002), que buscou apontar a distinção entre estrutura e organização social:
De acordo com essa distinção, estrutura e organização social são dois aspectos complementares da ação social que correspondem, respectivamente, à forma e ao processo na vida social. A estrutura social envolve o desempenho de papéis e proporciona o contexto para a ação. A organização social equivale à atividade ordenada, que inclui tanto os papéis sociais quanto as atividades decisivas mais espontâneas que seguem simplesmente o desempenho de papéis”. (FELDMAN-BIANCO, 1987, p. 21-22)
Os antropólogos passaram a centrar o seu olhar nas ações dos indivíduos, não como pura reprodução dos papéis sociais que ocupam, mas como personalidades que orientam as suas ações com objetivos intencionais. A ideia era contrastar as análises da estrutura, ou seja, a continuidade da forma da sociedade, às ações e interações dos indivíduos no interior dessa estrutura.
Assim, o foco passa a ser os indivíduos e suas estratégias, em vez da descrição de grupos corporativos, comunidades ou localidades. Segundo Feldman-Bianco (1987), ao buscar a identidade da disciplina, esses antropólogos recusaram dialogar com outras áreas de pensamento, o que seria importante à medida que estavam investigando temáticas semelhantes às preocupações de outras disciplinas. Por exemplo: não incluíram as discussões da economia política mais ampla.
Ainda, segundo a autora, não atentaram para as condições que moldam as situações observadas. Ao enfatizarem as opções dos indivíduos em suas ações, não notaram as circunstâncias particulares que configuram as ações e interações individuais.
Feldman-Bianco (1987) mostra que em alguns casos permaneceu a tendência estrutural-funcionalista, de estimular um modelo consensual da sociedade em equilíbrio. A autora aponta que um dos maiores perigos dessa corrente foi a ênfase demasiada na noção de homem “racional” e uma microssociologia destituída de conceito de nível. O que acontece, segundo Feldman-Bianco (1987, p. 24), é que temos uma:
[...] transformação progressiva da ênfase anterior em morfologia, equilíbrio e sistemas sociais para enfoques que tentam captar a variação, a contradição, o conflito de normas e manipulação de regras e, daí, para elaboração subsequente de uma perspectiva processual e histórica. [...]. Este tipo de abordagem pressupõe um modo particular de pesquisa de campo e/ou de pesquisa documental, que resulta numa forma distintiva de etnografia detalhada e microscópica. Possibilita, em última instância, a confluência da Antropologia com a História.
No desenvolvimento antropológico nas décadas de 1950 e 1960, ressalta-se o papel de Max Gluckman (1911 – 1975), importante antropólogo sul-africano que dirigiu a então chamada Escola de Manchester, que foi um centro de pesquisas importante para a temática da mudança social. Conforme mostra Feldman-Bianco (1987), Gluckman seguiu as diferenciações feitas inicialmente por Firth, entre estrutura e organização social e, também, trabalhou com a distinção entre indivíduos vistos como personalidades e indivíduos vistos como ocupantes de status; tratou de analisar a relação entre a ação social e a observação das regras de conduta por parte do indivíduo.
Devemos notar que estamos falando da capacidade do indivíduo em manipular as regras de conduta na sociedade. Assim, o antropólogo faz uma diferenciação entre normas e valores ideais e comportamento concreto. Gluckman tratou de pensar o conflito ao analisar as relações entre brancos e negros na Zululândia, lugar onde realizou pesquisa. Feldman-Bianco (1987) incorporou um vasto material histórico em sua análise e tentou abstrair a estrutura social a partir de exemplos de situações sociais. Também tentou incorporar uma visão de economia política mais ampla.
Vamos ver exemplos dessa abordagem nas palavras do próprio Gluckman (1987, p. 228): a partir das situações sociais e de suas inter-relações numa sociedade particular, podem-se abstrair a estrutura social, as relações sociais, as instituições etc., daquela sociedade. Por meio dessas e de novas situações, o antropólogo deve verificar a validade de suas generalizações.
E, ao analisar situações de relações sociais específicas entre europeus e nativos, o autor demonstra que:
[...] a separação transparece através de todos os padrões de comportamento zulu-europeu. […] Esta separação envolve mais do que a diferenciação axiomaticamente presente em todas as relações sociais. Pretos e brancos são duas categorias que não devem se misturar, como é o caso das castas na Índia ou as categorias de homens e mulheres em muitas comunidades” (GLUKMAN, 1987, p. 242). [...] Os grupos principais de brancos e zulus estão divididos em grupos subsidiários, formalizados e não formalizados, sendo que, de acordo com os interesses, valores e motivos que determinam seu comportamento em situações diferentes, o indivíduo modifica sua participação nesses grupos. (GLUKMAN, 1987, p. 259)
Notamos aqui a ênfase em termos como situações, isto é importante, pois o autor tenta demonstrar que a estrutura social permite certas adaptações dos indivíduos, que são agentes importantes de sua ação e não simplesmente cumprem papéis sociais predeterminados. Sem abrir mão de uma análise sistêmica, o autor também incorpora o indivíduo na análise.
Siga em Frente...
Mary Douglas (1921-2007)
Uma das análises mais interessantes desse período da Antropologia social britânica é a de Mary Douglas (1921 - 2007) em seu livro Pureza e Perigo. Ela argumenta a ideia de sujeira, ou melhor, da poluição como uma instituição social. À baila de uma abordagem comparativa, flertando tanto com o Estrutural-Funcionalismo britânico quanto com a Escola Sociológica Francesa, a autora traz-nos uma rica discussão sobre o simbolismo das representações sobre pureza, sujeira e organização social.
Ancorada no estudo de religiões em “sociedades primitivas”, exemplificadas por diversas etnografias, principalmente de povos africanos, Mary Douglas (1976) trata de temas como ordem e desordem, rituais e magia, poder e política, sexualidade, gênero e violência, entre outros. São inúmeras as abordagens que dialogaram, e continuam dialogando, com a autora, em particular com a obra aqui tratada, o que comprova a sua importância para a Antropologia social.
O tema da transgressão, da margem, da violência ou do conflito, pode ser um viés interessante para mostrar que, apesar da abordagem um tanto quanto formalista desenvolvida em Pureza e Perigo. Vejamos uma passagem para nos servir como ponto de partida:
[...] acredito que ideias sobre separar, purificar, demarcar e punir transgressões, têm como sua função principal impor sistematização numa experiência inerentemente desordenada. É somente exagerando a diferença entre dentro e fora, acima e abaixo, fêmea e macho, com e contra, que um semblante de ordem é criado. (DOUGLAS, 1976, p. 15)
A autora defende que a ideia de sujeira e limpeza nas “sociedades primitivas”, ou em qualquer cultura ágrafa, pareça ser sem tempo e imutável, elas estão sujeitas a mudanças. E, além disso, a noção de sujeira é relativizada pela autora, “não há sujeira absoluta: ela existe aos olhos de quem a vê” (DOUGLAS, 1976, p. 12).
Se a sujeira só existe aos olhos de quem a vê, por outro lado, para Douglas (1976), ela é sempre associada à desordem, ou seja, se em um momento a autora relativiza o conceito, em outro ela essencializa-o. Para a autora, a sujeira não pode ser pensada como um acontecimento isolado e único, ela está integrada em sistema, assim como é um subproduto de classificação e ordenação das coisas. Nesse sentido, a sujeira pode ser pensada como uma categoria residual, quando a focalizamos, alcançamos uma ordem mais profunda que é a tendência de organização das coisas em esquemas, cujos observadores são também produtores dessa ordem. Assim, as discordantes tendem a ser rejeitadas, mas, quando aceitas, interferem na estrutura de pressupostos que então pode ser modificada.
Admitindo-se que a desordem estraga o padrão, ela também fornece os materiais do padrão. A ordem implica restrição; de todos os materiais possíveis, uma limitada seleção foi feita e de todas as possíveis relações foi usado um conjunto limitado. Assim, a desordem por implicação é ilimitada, nenhum padrão é realizado nela, mas é indefinido seu potencial para a padronização. [...] Reconhecemos que ela é nociva para os modelos existentes, como também que tem potencialidade. Simboliza tanto perigo quanto poder. (DOUGLAS, 1976, p. 117)
As pessoas em situação marginal não são seres sociais plenos, separados da sociedade, seus comportamentos antissociais não só são aceitáveis como são prescritos a eles, por consequência cabe aos outros evitar o perigo do contato com esses sujeitos. Mary Douglas (1976) estende essa ideia para imagem que nossas sociedades – que não possui rituais para incorporar tais indivíduos – atribuem a pessoas marginais, que acabam excluídas do convívio social, ou seja, são uma poluição não ritualizada e não incorporada no corpo social, uma sujeira que deve ser varrida e mantida distante para evitar a contaminação. “A poluição para nós é um assunto de estética, higiene ou etiqueta, que somente se torna grave na medida em que cria um embaraço social. As sanções são sanções sociais, ofensa, ostracismo, fofoca ou mesmo ação policial” (DOUGLAS, 1976, p. 94).
Apesar de vivermos em uma sociedade fragmentada, nossos simbolismos perpassam esses fragmentos, assim, o imaginário em torno dos “marginais” como sujeitos violentos e perigosos circula por todo e qualquer grupo social, gerações e gêneros. Nossas pequenas ações cotidianas, como mudar de calçada quando cruzamos com algum “suspeito”, que certamente não será um homem branco usando terno e gravata, ajudam a reafirmar estigmas, mas, ao mesmo tempo, eis mais um saudável paradoxo, reafirma diferenças e corrobora para marcar identidades e fortalecer laços entre minorias excluídas.
Vamos Exercitar?
Nesta aula, refletimos sobre os desenvolvimentos da Antropologia social, com as teorias da ação. Para muitos não há como dividir claramente a Antropologia social da Antropologia cultural, sendo essa divisão mais uma maneira de localizar autores e influências. Compactuamos com a posição de que essas divisões são, às vezes, mais artificiais do que concretas, teríamos, então, dificuldades de colocar certos autores em uma ou outra dessas abordagens. Sendo assim, essa segmentação é mais apropriada para nos ajudar a organizar um pouco melhor as divisões internas da disciplina quando estudamos a sua história.
A grande crítica que devemos fazer à Antropologia social da primeira metade do século XX é em relação à sua falta de contextualização histórica e o seu afastamento dessa abordagem, na opção por análises sincrônicas em detrimento da diacrônica. Não podemos perder de vista que esses antropólogos do começo do século XX estavam realizando pesquisas com populações que estavam sob domínio das sociedades europeias no contexto da colonização.
Ao fazerem isso, de alguma forma, foram, no mínimo, omissos em relação à exploração e violência que os povos nativos estavam sofrendo. Hoje, a Antropologia tem um código de ética bastante claro em relação a isto, indicando que o antropólogo não pode fornecer informações que, de algum modo, possam ser usadas para prejudicar os grupos com os quais se realiza a pesquisa.
Para finalizar as nossas reflexões sobre a Antropologia social, é importante ressaltar que ela trouxe importantes contribuições para o pensamento social e para demonstrar a riqueza da diversidade humana, em suas mais variadas formas de organização social e os mais variados pontos de vista e visões de mundo.
Saiba Mais
O contexto das pesquisas da Antropologia social nos anos 1950
Em nossa aula, estamos vendo o contexto da Antropologia social britânica, em seus estudos na África em meados do século XX. Mas o que estava acontecendo nas ciências sociais e na Antropologia brasileira nesse período? O artigo que indicamos aqui trata justamente desse ponto. Conheça um pouco mais desse período no Brasil. Maio (1999) se propôs a fazer essa revisão, veja o resumo do artigo:
O artigo tem por objetivo descrever o processo de estruturação do ciclo de estudos sobre as relações raciais no Brasil patrocinado pela Unesco no início dos anos 50. Ao realçar a atuação de determinados atores sociais e suas respectivas visões a respeito do empreendimento a ser realizado no país, foi possível verificar os elos de ligação entre as demandas da agência internacional e o leque de questões formuladas pelas ciências sociais brasileiras. Essa agenda, sintetizada por Arthur Ramos no final dos anos 40, colocava para a inteligência do país inserida no mundo universitário o desafio de associar a qualificação profissional nos campos da Antropologia e da Sociologia e o incremento de pesquisas que pudessem decifrar o que o antropólogo considerava ser a singularidade brasileira, o "laboratório de civilização". Para Arthur Ramos, o tema das relações raciais assumia um lugar privilegiado para a percepção e a análise dos desafios da transição do tradicional para o moderno, do cenário de significativas desigualdades sociais e raciais, da diversidade regional e da busca em conformar, em definitivo, uma identidade nacional. (MAIO, 1999)
MAIO, M. C. O Projeto Unesco e a agenda das ciências sociais no Brasil dos anos 40 e 50. Revista Brasileira de Ciências Sociais, v. 14, n. 41, p. 141-158, out. 1999.
A teoria da ação e a análise da mudança social
Mudança social é um tema central para as ciências sociais. Veja neste artigo da socióloga Maria José Rezende mais sobre o assunto:
A teoria da mudança social alinhava as principais questões que a sociologia tem problematizado ao longo de sua formação e desenvolvimento. As teorias lineares e cíclicas condensam os mais importantes debates acerca do assunto. Partindo de alguns pressupostos do Evolucionismo e do Neoevolucionismo, este artigo objetiva trazer à tona tanto as convergências e divergências constituidoras de uma das concepções que têm predominado nas ciências sociais: a perspectiva da linearidade diretiva dos processos históricos, quanto a contraposição a essas correntes feita pela teoria cíclica que tende a acentuar o caráter não-linear e não-diretivo da mudança social. (REZENDE, 2002, p. 349-350)
REZENDE, M. J. de. Teorias da mudança social: as perspectivas lineares e as cíclicas. Revista de Ciências Humanas – UFSC, n. 32, 2002.
Mary Douglas (1921-2007)
Neste artigo, as autoras fazem uma boa revisão da obra e dos principais pontos da Antropologia de Mary Douglas. Conforme as autoras:
Douglas concentrou seus estudos na área de antropologia social, fundamentando-se nas obras de Émile Durkheim, e seguindo uma proposta da análise estruturalista com foco para a religião comparada. Assim, os temas mais recorrentes nas obras de Mary Douglas são: análise de risco, economia, economia do consumo e bem-estar, comida e ritual. Muitos dos trabalhos foram tornados populares fora dos círculos antropológicos. (OLIVEIRA; CASAGRANDE; JARDIM, 2012)
OLIVEIRA, J. de; CASAGRANDE, N.; JARDIM, M. A. C. Homenagem: Mary Douglas (1921 – 2007). REDD – Revista Espaço de Diálogo e Desconexão, Araraquara, v. 4, n. 2, jan/jul. 2012.
Referências Bibliográficas
DOUGLAS, M. Pureza e perigo. São Paulo: Editora Perspectiva, 1976.
FELDMAN-BIANCO, B. “Introdução”. In: Bela Feldman-Bianco (org.). Antropologia das Sociedades contemporâneas. São Paulo: Global, 1987, pp.07-45.
GLUCKMAN, M. Análise de uma situação social na Zuzulândia moderna. In: FELDMAN-BIANCO, B. (Org.). A antropologia das sociedades contemporâneas. São Paulo: Global, 1987.
MAIO, M. C.. O Projeto Unesco e a agenda das ciências sociais no Brasil dos anos 40 e 50. Revista Brasileira de Ciências Sociais, v. 14, n. 41, p. 141–158, out. 1999. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbcsoc/a/QZnghFsznmKFLtHyMWpnwHk/#ModalHowcite. Acesso em: 14 fev. 2024.
OLIVEIRA, J. de ; CASAGRANDE, N.; JARDIM, M. A. C. Homenagem: Mary Douglas (1921 – 2007). REDD – Revista Espaço de Diálogo e Desconexão, Araraquara, v. 4, n. 2, jan/jul. 2012. Disponível em: https://repositorio.unesp.br/server/api/core/bitstreams/14901b55-2c70-4011-977e-e6aeb9319e20/content . Acesso em: 14 fev. 2024.
REZENDE, M. J. de. Teorias da mudança social: as perspectivas lineares e as cíclicas. Revista de Ciências Humanas – UFSC, n. 32, 2002. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/revistacfh/article/view/25269. Acesso em: 14 fev. 2024.
Encerramento da Unidade
A Antropologia Social
Videoaula de Encerramento
Olá, estudante! Nesta videoaula, vamos debater sobre os temas da dominação e do conflito. Este conteúdo é importante para o debate sobre a maneira como lidamos com as diferenças sociais e com as minorias.
Prepare-se para esta jornada de conhecimento! Vamos lá!
Ponto de Chegada
O objetivo desta unidade é apreender as principais ideias da Antropologia Social, desde a influência da Escola Sociológica Francesa, com Durkheim e Mauss, passando pelo empirismo britânico e a importância de Malinowski e pelo Estrutural-Funcionalismo, com papel preponderante de Radcliffe-Brown e Evans-Pritchard e finalmente tratando da noção de mudança social com os debates dos teóricos da ação.
Para finalizar esta discussão, vamos trazer aqui uma reflexão sobre a relação entre Antropologia e poder, principalmente por conta da inserção da Antropologia no continente africano em meio às relações de colonização, o que produziu intensos debates na área ao revisitar o seu papel naquele contexto.
Falar em poder é tratar do tema da dominação e do conflito, o que existe em qualquer sociedade e se expressa de forma muita diversa, não se resumindo ao uso da força e da violência. Nesse contexto, a noção de minorias sociais é importante. Uma minora é um grupo que detém pouco ou nenhum poder em uma sociedade, mesmo que seja numericamente maior, ou seja, minoria não se refere a uma questão estatística, mas é um marcador social.
Há um termo corrente na Antropologia que é o de marcadores sociais da diferença, que se refere a características que fazem com que um indivíduo se diferencie e seja diferenciado dentro das relações sociais em que se insere. Esse marcador depende de situações e contextos específicos, pode ser a raça, a classe social, a etnia, a idade, o gênero, a sexualidade etc. Além disso, mais de um marcador pode ser acionado no jogo das relações sociais, podendo ser utilizado para alimentar e justificar desigualdades.
Quando temos disputas pelo poder e pelo controle em uma sociedade, muitos artifícios podem ser utilizados para que se construa uma hegemonia – conquista e manutenção do poder. Vamos ver o exemplo de como a “idade” tem sido um marcador social importante em diferentes contextos. Rifiotis (1995) aponta que culturas diferentes podem produzir diversas significações para as “idades da vida”, o que está associado aos processos de socialização e a um complexo sistema de aprendizado, de projeção e introjeção, de ligação e de identificação.
Ao tratar da questão etária entre sociedades negro-africanas, Rifiotis (1995) aponta que essa socialização acontece inicialmente no nível familiar, em que temos uma diferenciação entre o mundo adulto dos pais e o das crianças, sendo que há um reforço do lugar do adulto como privilegiado. No caso de sua pesquisa, ele aponta que essa hierarquia extrapola o universo familiar e de descendência, sendo generalizada para toda a sociedade e produz uma solidariedade etária.
Em nossa sociedade também há um processo de diferenciação etária que reforça o lugar privilegiado do adulto em relação às outras fases da vida. Nesse contexto, podemos chamar a atenção para a juventude, que é pensada como uma fase transitória da vida, esses sujeitos são, então, tratados como seres incompletos, em processo de formação ou de preparação para a vida adulta. Há todo um conjunto de ideais que envolve essa fase da vida, como, por exemplo, as noções de tempo livre, liberdade, diversão, irresponsabilidade, sempre associadas aos jovens.
Esse ideal, no entanto, é irrealizável para a maior parte dos jovens brasileiros, nesse sentido, vale ressaltar a questão de classe social. Quando comparamos os jovens em relação à classe, podemos sugerir que experiência pode ser muito diversa, muitas vezes os jovens precisam se inserir precocemente no mercado de trabalho, interferindo no seu processo educativo bem como em relação àqueles elementos citados, como tempo livre. Dessa forma, temos jovens com responsabilidades que a princípio seriam do mundo adulto.
Outros pontos de diferenciação importante são o gênero e a raça. A experiência de uma jovem mulher negra, de grupos populares, provavelmente vai ser diversa em muitos aspectos de uma jovem mulher branca de classe média. As mulheres negras são as que ocupam os piores lugares no mercado de trabalho, com trabalhos precarizados e com baixa remuneração, o que vai impactar em sua trajetória.
Os jovens negros, de modo geral, são mais atingidos pela violência, pela baixa remuneração e por trabalhos com condições precárias. Nesse ponto vale ressaltar a noção de interseccionalidade, que nos remete a pensar na maneira como diferentes marcadores sociais da diferença atuam de forma simultânea, atravessando os sujeitos em sua constituição identitária.
Trabalhos etnográficos (pesquisas empíricas) de diferentes pesquisadores na Antropologia têm procurado demonstrar a maneira como as minorias acabam sofrendo muitas barreiras socioculturais que dificultam a sua inserção social, o que não quer dizer que não existam qualidades e positividades nas vidas desses sujeitos. Apesar das dificuldades, esses sujeitos constroem relações sociais sofisticadas e complexas que lhes permitem resistir às pressões e às expectativas sociais.
Chegamos a outro ponto importante que merece destaque, o da pesquisa etnográfica. A Antropologia se estabelece definitivamente como ciência no começo do século XX, realizando trabalhos na Ásia, Oceania e, posteriormente, na África. Ao realizarem pesquisas na África, como, por exemplo, o trabalho de Evans-Pritchard com os Nuer no Sudão, os pesquisadores se viram diante de um contexto de pesquisa diferente das experiências anteriores, sociedade muito mais numerosas e ocupantes de um território mais extenso. Houve avanços teóricos e metodológicos significativos, bem como novas temáticas surgiram, como o da manutenção da ordem e do poder em uma grande sociedade sem a presença de um Estado e de um poder centralizado; como essas sociedades se mantinham? Como se organizavam? Como resolviam os seus conflitos? Tudo isso foi muito bem tratado por Evans-Pritchard, que nos ofereceu um trabalho incrível.
Porém, apesar dos avanços, a releitura desse período da Antropologia suscitou novas questões, como o da ética na pesquisa e atuação do antropólogo. Nesses trabalhos, não temos a reflexão sobre o contexto político em que as pesquisas foram realizadas. Era um período de colonização e esses povos estavam sendo submetidos às mais variadas violências, sendo que muitos desses trabalhos antropológicos foram financiados pelos colonizadores. Conscientemente ou não, os pesquisadores do período ajudaram nesse processo de dominação dessas sociedades.
Vivemos um novo contexto na Antropologia, hoje. Aqueles que eram tratados como meros objetos de pesquisa passaram a ser interlocutores e sujeitos ativos no fazer antropológico, bem como passou a ser um imperativo refletir sobre o contexto histórico e político no qual a pesquisa está sendo realizada.
Agora, vamos destacar dois pontos do Código de Ética do Antropólogo e da Antropóloga, que nesse momento de nossa argumentação são fundamentais: a “garantia de que a colaboração prestada à investigação não seja utilizada com o intuito de prejudicar o grupo investigado” e o “direito de acesso aos resultados da investigação” (ABA, 2011/2012). Hoje é muito comum que os sujeitos tenham conhecimento o suficiente para lerem a pesquisa realizada e debaterem com os autores sobre as suas considerações, o que aprofunda o processo dialógico que deve orientar a pesquisa.
E, para finalizar, é fundamental que a pesquisa não cause nenhum tipo de prejuízo aos sujeitos que fazem parte desta. O trabalho deve sempre se orientar pelos critérios da ciência, da solidariedade e da justiça. A produção do conhecimento que se constitui a partir do diálogo entre pesquisadores e campo de pesquisa deve contribuir para a melhora de vida das pessoas e das sociedades em que se inserem.
Reflita
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É Hora de Praticar!
Maria Júlia tem 18 anos, é uma mulher negra, moradora de um bairro de periferia, acabou há um ano o Ensino Médio, estudou em uma escola pública e teve curtas experiências no mercado de trabalho. Trabalhou em buffets infantis e entregou panfletos de propaganda nos faróis, ou seja, desde cedo vivenciou experiências em trabalhos precários, marcados pela informalidade e uma baixa remuneração.
Como muitos outros jovens brasileiros, ela enfrenta dificuldades de inserção no mercado de trabalho e a sua condição social a obriga a trabalhar para ajudar no orçamento familiar. Seus pais possuem baixa escolaridade e trabalhos de baixa remuneração: sua mãe é almoxarife na prefeitura de sua cidade, localizada no interior paulista, e seu pai é serralheiro em uma microempresa local. Com a crise dos últimos anos, Maria Júlia tem sido pressionada ainda mais pelos seus pais para trabalhar, mas ela não tem conseguido emprego e se vê no grupo dos milhares de jovens brasileiros desempregados. Além disso, ela tem dificuldades para elaborar um currículo e participar de processos seletivos. Ela sabe que para poder cursar a faculdade de Psicologia (seu projeto de vida) precisa ter um emprego para custear os estudos.
Reflita
De que forma Maria Júlia pode superar parte dessas dificuldades que encontra para se inserir no mercado de trabalho? Como você poderia justificar o fato de a garota ter tido apenas empregos precários e informais? O fato da jovem estar desempregada é responsabilidade individual dela? Por quê? Como a classe social a qual a garota pertence afeta as suas possibilidades de estudar e trabalhar?
Resolução do estudo de caso
O caso de Maria Julia é um exemplo da experiência de boa parte dos jovens brasileiros que vivem uma experiência comum de classe, neste caso, de classes populares. Ao ter que trabalhar para complementar a renda de sua família, ela acaba por ocupar todo o seu tempo livre que poderia ser utilizado para atividades educativas, ou de lazer. Isso também pode prejudicar em seu processo de desenvolvimento escolar, impossibilitando que ela desenvolva a sua capacitação e dificultando sua inserção em postos de trabalho mais qualificados.
Se compararmos com o estilo de vida de jovens de classe média ou alta - que tem tempo livre para práticas esportivas e lazer, possibilidade de fazer cursos de línguas estrangeiras e se dedicar à sua trajetória escolar, se preparando adequadamente para o mercado de trabalho e ocupando, quando adultos, postos qualificados e bem-remunerados -, perceberemos como a desigualdade se reproduz no Brasil, em que jovens pobres, especialmente as mulheres e homens negros têm poucas oportunidades de ascensão social.
Assim, o desemprego é um problema estrutural que atinge desigualmente a população, sendo mais prejudicial aos pobres e aos negros. Somente políticas públicas que combinem boa educação e qualidade de vida para a população em geral é que teremos alguma mudança nesse quadro perverso que atinge a parte mais vulnerável da sociedade brasileira.
Dê o play!
Assimile
Como você montaria um quadro, ou uma nuvem de ideias para exemplificar os conteúdos discutidos em nossas aulas?
Nós montamos assim: os grupos de poder em nossa sociedade são compostos, hegemonicamente, por homens brancos que costumam ter privilégios em sua formação e atuação na sociedade, a balança pende sempre para o seu lado. Por outro lado, minorias, compostas por grupos como jovens, mulheres, negros, entre outras, acabam tendo que enfrentar muito mais barreiras socioculturais.
Referências
ABA – ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ANTROPOLOGIA. Código de Ética. Portal ABANT, 2011/2012. Disponível em: https://portal.abant.org.br/codigo-de-etica/. Acesso em: 15 ago. 2021.
RIFIOTIS, T. Grupos etários e conflito de gerações: bases antropológicas para um diálogo interdisciplinar. Revista Política & Trabalho, João Pessoa, n. 11, p. 105-123, set. 1995.