A Psicomotricidade
Aula 1
Aspectos Gerais da Psicomotricidade
Aspectos Gerais da Psicomotricidade
Olá, estudante! Nesta videoaula, você aprenderá sobre os aspectos histórico e evolutivos da psicomotricidade, desde o seu surgimento até sua incorporação no Brasil. Além disso, você compreenderá o que é psicomotricidade e a sua integração física, mental e emocional. E, por fim, você conhecerá a atuação em psicomotricidade no contexto escolar.
Esta aula é muito importante para a sua formação profissional, pois trará os fundamentos básicos da psicomotricidade e as possibilidades dentro do contexto educacional escolar.
Vamos lá!
Ponto de Partida
Para atingirmos o objetivo dessa aula, seguimos com uma situação hipotética que irá lhe ajudar na compreensão. Você trabalha em uma escola municipal onde as professoras atuam com o conteúdo de Educação Física nos anos iniciais do Ensino Fundamental e na Educação Infantil. A direção escolar vem buscando melhorar os índices de avaliação da escola nos processos de avaliação externa desenvolvidos pelo município, e como uma das ações ela quer diminuir o tempo de atividades que envolvam o brincar, a ludicidade e a educação física para aumentar o tempo dedicado às atividades de Matemática e Língua Portuguesa.
A equipe docente que trabalha com as turmas e os pedagogos que atuam na coordenação pedagógica não concordaram com essa decisão da diretora e marcaram uma reunião formal para convencê-la de manter as aulas.
Você se voluntaria a falar sobre a psicomotricidade, explicando os aspectos históricos, fundamentos básicos e quem pode trabalhar com a psicomotricidade. Para preparar seus argumentos, você decide utilizar três perguntas norteadoras: Como se deu o surgimento da psicomotricidade no Brasil e no mundo? O que é psicomotricidade? Qual é a importância da psicomotricidade no contexto educacional dos alunos?
Responder a essas perguntas é o primeiro passo para compreendermos a psicomotricidade e conseguir aprofundar seu conhecimento.
Boa aula!
Vamos Começar!
Epistemologia e evolução histórica da psicomotricidade
A história da psicomotricidade começou em 1870 quando os médicos neurologistas Fritsch e Hitzig estudavam o córtex cerebral e sentiram a necessidade de nomear uma zona pouco esclarecida. Eles observavam que nessa zona havia uma atividade misteriosa que consistia na junção entre a imagem mental e o movimento, e a partir daí a palavra psicomotricidade foi adicionada em seus discursos (GUSI, 2020).
Assim, a neurofisiologia identificou aspectos de alterações patológicas e disfunções que surgiam em um determinado paciente no qual não se conseguia identificar nenhum aspecto patológico em região central que possuísse relação direta ou indireta com os sinais e sintomas apresentados. Isso gerou um grande questionamento, e o conceito de psicomotricidade auxiliou na explicação de alterações e disfunções patológicas no desenvolvimento da aprendizagem motora e do controle motor sem lesões em regiões motoras centrais.
Ainda que o termo psicomotricidade tenha sido empregado, ele ainda não constituía, de fato, uma ciência completa. Em 1907, Edouard Dupré começou a perceber que nem sempre as incapacidades motoras estão relacionadas a um atraso mental. Mas foi em 1925 que Henri Wallon apresenta uma relação existente entre o movimento e a afetividade, as sensações, a emoção, os costumes e o meio em que a criança está inserida. Pouco tempo depois, em 1935, Edouard Guilmain apresentou a reeducação psicomotora com modelos de exercícios para suprir as demandas mal reguladas na infância (GUSI, 2020).
Em 1947, Julian de Ajuriaguerra traz à tona um grande marco para a psicomotricidade ao afirmar que os transtornos psicomotores podem oscilar entre o neurológico e o psiquiátrico, o que fez com que muitos psicomotricistas da área buscassem NOS estudos da psicanálise as respostas às atuações das vivências emocionais (GUSI, 2020).
Na Europa, entre 1960 e 1970, as pesquisas buscavam estudar as relações entre a pessoa como um todo, desde as suas sensações corporais até a sua interação com o meio, fazendo com que as práticas psicomotoras ganhassem novos formatos e levando ao fortalecimento de uma postura mais relacional a prática. Entre esse período, em Portugal, os psicanalistas João dos Santos e Margarida Mendo preconizaram a psicomotricidade, realizando os primeiros testes motores no Centro de Saúde Mental de Lisboa (GUSI, 2020).
No Brasil, a chegada da psicomotricidade é datada a partir de 1950. No ano de 1955, na cidade de Porto Alegre, a profissional de psicologia Dra. Rosat, diretora do Centro de Educação do Estado, concluiu a criação do Serviço de Educação Especial, em que a atenção dada às crianças especiais possuía um forte aspecto psicomotor, considerando os fatores cognitivos, emocionais e afetivos, formadores de caráter, relacionando-os ao desenvolvimento motor e acreditando em uma via de mão dupla em que um auxilia o outro.
Em 1968, no estado de Minas Gerais, a psicologia deu força ao estudo da psicomotricidade, criando o Instituto de Psicopedagogia, em que o grande diferencial era a visão da psicomotricidade incluída no diagnóstico psicomotor da criança. Nesse período, os profissionais da fonoaudiologia incluíram na formação profissional os aspectos psicomotores. A partir desse ano, muitos foram os profissionais que buscaram formação específica e especializações em psicomotricidade fora do Brasil. Em 19 de abril de 1980, a Sociedade Brasileira de Psicomotricidade foi fundada, e em 1982 aconteceu o 1º Congresso Brasileiro de Psicomotricidade.
Siga em Frente...
Conceitos fundamentais em psicomotricidade
Psicomotricidade é composta pela palavra “psico”, referente às áreas cognitiva e emocional, e pela palavra “motricidade”, referente aos aspectos motores e físicos. Assim, a junção dessas duas palavras significa o mecanismo do corpo e suas ações que se tornam veículos pelos quais a pessoa se move, se relaciona e sente. O conceito de psicomotricidade pode ser entendido como uma ferramenta que busca promover o bom desenvolvimento de habilidades motoras, cognitivas, emocionais e sociais. Assim, podemos dizer que a psicomotricidade integra as interações cognitivas, emocionais, simbólicas e físicas na capacidade do indivíduo de ser e agir em um contexto social (DENCHE-ZAMORANO et al., 2022).
Devido a essa integração entre os aspectos cognitivos, emocionais, físicos e sociais, a psicomotricidade integra diferentes áreas, como: comunicação e expressão, equilíbrio, percepção, coordenação, respiração, esquema corporal, imagem corporal, lateralidade e organização espaço-temporal.
A psicomotricidade tem como objetivo integrar a percepção ao movimento, melhorando e normalizando o comportamento geral do indivíduo. As atividades que envolvem a psicomotricidade são indicadas para todas as pessoas com inteligência normal, com o sem problemas psicomotores; pessoas com deficiência; e pessoas com distúrbios de voz, de fala, de linguagem e aprendizagens isoladas ou associadas. Além disso, a psicomotricidade pode ajudar na coerência da linguagem gestual da criança, com as linguagens oral e escrita, o que tem grande importância no período pré-escolar, auxiliando no processo de alfabetização.
Áreas de atuação da psicomotricidade
A psicomotricidade é uma ciência de abordagem multidisciplinar. Você pode analisar que, ao segregar as informações, diferentes profissões podem contribuir de modo diferente para a evolução psicomotora, porém nenhuma pode contribuir de modo integral, uma vez que cada uma possui a visão com um enfoque diferenciado, sendo que apenas, conjuntamente, o ser humano pode ser tratado de modo psicomotor em sua totalidade.
Dentro da evolução motora, você pode perceber que profissionais como o pedagogo podem ser um dos primeiros a identificar as alterações na evolução psicomotora e, assim, alertar os familiares e outros profissionais, como o profissional de educação física, o psicopedagogo, o fisioterapeuta e o fonoaudiólogo. Estes podem identificar alterações a partir de um ponto de vista diferenciado e propor tratamentos, terapias e reabilitações para o aluno.
Como área de atuação da psicomotricidade, temos três diferentes abordagens: a terapia psicomotora; a educação psicomotora; e a reeducação psicomotora. A terapia psicomotora é destinada às pessoas com desenvolvimento típico ou atípico que apresentam dificuldades de comunicação, expressão corporal e de vivência simbólica. O atendimento é individualizado em clínicas, hospital psiquiátrico, grupos de ajuda psicopedagógicos e centro médico pedagógico. Já a educação psicomotora é uma técnica que utiliza exercícios e brincadeiras apropriados para a idade voltados ao desenvolvimento global da criança, focando nas potencialidades de cada um. É necessário alcançar três metas: aquisição de domínio corporal (definindo a lateralidade, a orientação espaço-temporal, o desenvolvimento a coordenação motora, o equilíbrio e a flexibilidade); controle da inibição voluntária (melhorando o nível de abstração e concentração); e desenvolvimento socioafetivo (reforçando as atitudes de lealdade, companheirismo e solidariedade). Essas atividades podem ser realizadas em espaços próprios para o desenvolvimento psicomotor ou em escolas. E, assim, caso a criança apresente dificuldades que estejam afetando negativamente sua vida, uma reeducação psicomotora é indicada.
Portanto, estudante, entre essas três possibilidades reais, na perspectiva da educação escolar, a atuação do profissional de pedagogia, principalmente na condição docente, estará inserida, de modo geral, dentro do contexto da educação psicomotora, sendo essa ação considerada uma educação de base na escola elementar, que é o ponto de partida de todas as aprendizagens pré-escolares e escolares, principalmente na dimensão do corpo e do movimento.
Para que esse trabalho pedagógico se construa, é necessário que o trabalho com o corpo e com o movimento ocorra da melhor maneira possível, de acordo com a faixa etária, levando em consideração que cada criança tem seu tempo e ritmo de aprendizagem. Nesse sentido, a relevância da psicomotricidade na formação dos professores e na atuação escolar é um dos pilares mais significativos para o desenvolvimento da criança em toda a sua maturação emocional, cognitiva e motora.
Assim, ao envolver os aspectos cognitivos, afetivos, emocionais, sociais e simbólicos que influenciam as ações do ser humano, a psicomotricidade se torna uma área de atuação entre várias disciplinas e profissões, em que o indivíduo deve ser olhado de maneira global e completa.
Vamos Exercitar?
Estudante, pronto para sua reunião com a direção escolar para demonstrar o conhecimento e a importância do brincar, da ludicidade e das práticas motoras para o desenvolvimento das crianças?
Você se voluntaria a falar sobre a psicomotricidade e vai embasar a sua narrativa em três perguntas norteadoras: Como se deu o surgimento da psicomotricidade no Brasil e no mundo? O que é psicomotricidade? Qual é a importância da psicomotricidade no contexto educacional dos alunos?
A psicomotricidade surgiu por volta de 1870 quando neurologistas buscavam explicar uma atividade misteriosa que consistia na junção entre a imagem mental e o movimento, e assim surgiu a palavra psicomotricidade. Na Europa, a partir de 1907, alguns pesquisadores perceberam que havia uma relação entre o movimento e a afetividade, as sensações, a emoção, os costumes e o meio em que a criança está inserida, e que alguns aspectos da psicomotricidade não estavam relacionados com o mal funcionamento do sistema nervoso. Assim, várias pesquisas foram desenvolvidas até chegar no Brasil. Em 1982, foi fundada a Sociedade Brasileira de Psicomotricidade.
Psicomotricidade é uma ferramenta que busca promover o bom desenvolvimento de habilidades motoras, cognitivas, emocionais e sociais e da atuação docente do profissional da educação formado em pedagogia, ao atuar na escola, possibilita a educação psicomotora, um importante processo na construção da totalidade do ser humano.
Saiba Mais
Para aprofundar seus saberes sobre a psicomotricidade e atuação do pedagogo na educação infantil, leia o artigo: A percepção do pedagogo sobre o desenvolvimento psicomotor na educação infantil.
Referências Bibliográficas
DENCHE-ZAMORANO, Á. et al. Bibliometric analysis of psychomotricity research trends: the current role of childhood. Children, 2022.
FERREIRA, R. F. A importância do conhecimento em psicomotricidade para educadores em suas diversas áreas de atuação. Tópicos especiais em ciências da saúde: teoria, métodos e práticas, 2018.
GUSI, E. G. B. Psicomotricidade Relacional. Curitiba: Contentus, 2020.
PEREIRA, R. C. Transtorno psicomotor e aprendizagem. Rio de Janeiro: Thieme Revinter Publicações, 2018.
Aula 2
O Desenvolvimento Psicomotor
O Desenvolvimento Psicomotor
Olá, estudante! Nesta videoaula, você aprenderá sobre o desenvolvimento psicomotor ao longo da vida, aprofundando em seus fundamentos e compreendendo as fases e a ação e atuação profissional.
Esta etapa da disciplina é importante para a sua formação, pois traz conhecimentos acerca da criança e do seu desenvolvimento. E a compreensão das fases desse desenvolvimento permitirá a você elaborar e adequar suas intervenções a partir disso. Além do mais, entender a multidisciplinaridade da psicomotricidade faz com que você saiba que o trabalho é mediado por diversos profissionais, sempre em busca da evolução do ser humano como um todo.
Vamos lá!
Ponto de Partida
Nessa aula, vamos entrar nos fundamentos e nas fases do desenvolvimento psicomotor. É importante agora compreender como acontece o desenvolvimento desses aspectos ao longo da vida para, assim, podermos avaliar, identificar e intervir de maneira adequada em nossas aulas. Para isso, você verá os fundamentos do desenvolvimento psicomotor, as fases do desenvolvimento psicomotor e a psicomotricidade como uma atuação multidisciplinar.
Então, vamos à seguinte situação que ajudará você a compreender a aplicação desse conteúdo. Você trabalha em uma escola municipal onde as professoras atuam também com o conteúdo de Educação Física nos anos iniciais do Ensino Fundamental e na Educação Infantil. A direção escolar vem buscando melhorar os índices de avaliação da escola nos processos de avaliação externa desenvolvidos pelo município, e como uma das ações ela quer diminuir o tempo de atividades que envolvam o brincar, a ludicidade e a educação física para aumentar o tempo dedicado às atividades de Matemática e Língua Portuguesa.
O primeiro bate-papo aconteceu e você deu uma aula sobre a psicomotricidade, explicando os aspectos históricos, fundamentos básicos e quem pode trabalhar com a psicomotricidade. A diretora gostou do conteúdo, mais ainda não se sentiu convencida, solicitando que você se aprofundasse mais no assunto em uma próxima reunião. Assim, pensando em sua fala, você decidiu que é importante falar do desenvolvimento psicomotor e das suas fases, apontando a necessidade de uma atuação multidisciplinar. Para preparar esse conteúdo, você seguiu três perguntas norteadoras: Como acontece o desenvolvimento psicomotor ao longo da vida? As fases do desenvolvimento humano possuem características específicas? Como se dá a atuação multidisciplinar na psicomotricidade?
Ao aprofundarmos mais nos assuntos da psicomotricidade, ficamos cada vez mais perto de uma intervenção pedagógica de qualidade.
Boa aula!
Vamos Começar!
Fundamentos do desenvolvimento psicomotor
O desenvolvimento psicomotor é sobre como o corpo e suas partes se desenvolvem em seu funcionamento ao longo da vida. É através dele que a criança transcende a fragilidade da primeira infância, emergindo como um ser autônomo e independente, desvinculado da assistência externa (PEREIRA, 2018).
Existe uma forte ligação entre as habilidades motoras e as emoções. Como alguém usa o corpo reflete seus sentimentos em relação a coisas ou pessoas. Através de atividades e terapias motoras, podemos ajudar as crianças a melhorar suas interações sociais e emocionais, de forma que elas entendam melhor seus corpos e aprendam gestos apropriados para diferentes situações da vida (PEREIRA, 2018).
O desenvolvimento da criança acontece de forma contínua, sendo que ao nascer a criança possui movimentos reflexos característicos que desaparecem ou evoluem até chegar a movimentos mais refinados e precisos. Além disso, ocorre uma integração entre precisão, rapidez e força muscular que se traduz na necessidade de a criança ter um bom desenvolvimento motor para que possua uma boa evolução motora (PEREIRA, 2018).
O desenvolvimento é individualizado, ou seja, apesar de o desenvolvimento ser universal e relacionado à idade, cada criança é única, pois apresenta diferenças de personalidade, de capacidades físicas, de vivências e de ambientes familiares entre si. Nota-se, também, que o desenvolvimento motor passa por uma séria de fases e estágios relacionados ao seu processo maturacional e às vivências alcançadas por meio de experiências e práticas (PEREIRA, 2018).
Além disso, podemos dizer que o desenvolvimento motor ocorre sempre em um mesmo sentido, sendo céfalo-caudal e próximo-distal. Céfalo-caudal é o desenvolvimento que se inicia na cabeça e gradativamente descende ao resto do corpo até chegar aos pés. Por exemplo: um bebê primeiro tem controle da cabeça, depois do pescoço, posteriormente do tronco para, então, conseguir se sentar. Assim, vem o controle das pernas que permite primeiro engatinhar e depois andar. E o desenvolvimento pode ser próximo-distal, ou seja, primeiro controla o centro e depois as extremidades. Por exemplo, o bebê controla o tronco primeiro, depois os braços, o que permite movimentos mais amplos, e por fim ocorre o controle dos dedos para realização de habilidades motoras finas (PEREIRA, 2018).
Sendo assim, três conhecimentos básicos sustentam a psicomotricidade: o movimento, o intelecto e o afeto. Ou seja, a psicomotricidade é suportada por três pilares: o emocional (o querer fazer), comandado pelo sistema límbico; o motor (poder fazer), comandado pelo sistema reticular; e o cognitivo (o saber fazer), comandado pelo córtex cerebral. Dessa forma, é importante que haja um equilíbrio entre esses três pilares, caso contrário, uma desestruturação na aprendizagem pode acontecer.
Siga em Frente...
Fases do desenvolvimento psicomotor
As fases do desenvolvimento psicomotor são abordadas por diferentes autores e de diferentes formas, cada um trazendo uma nomenclatura diferenciada. No entanto, a definição das fases acontece na tentativa de identificar padrões no desenvolvimento da criança. Nessa disciplina, vamos adotar a classificação das fases de Jean Piaget.
Piaget possui a formação básica de biólogo e dedicou seus primeiros estudos a essa área, porém logo se interessou por sociologia, filosofia e política. Em sua íntima relação com a psicomotricidade, estudou o modo como a inteligência contribui integralmente para a relação do ser humano em seu íntimo com o ambiente externo. Assim, as fases do desenvolvimento psicomotor de Piaget (1999) são:
- Sensório-motor – Do nascimento até dois anos de idade - Período em que os diferentes movimentos reflexos presentes no nascimento e que contribuíam para distintas respostas automáticas foram substituídos, e a partir da maturação do sistema nervoso central tais respostas são conscientes, e não mais autônomas. Recebe esse nome devido ao fato de os processos evolutivos estarem vinculados às sensações em relação às questões motoras, em que a exploração do mundo se relaciona com o momento e os elementos presentes no espaço ao redor da criança, sem que ela possua a percepção de permanência. A evolução do conceito de permanência segue concomitante aos conceitos de temporalidade e causa e efeito.
- Pré-operacional – Dos dois aos sete anos - Seu início está relacionado ao domínio de uma nova modalidade de comunicação: a fala. As ações da criança são compreendidas por ela e analisadas, porém dominadas por um pensamento concreto, rígido e limitado. Tal pensamento limitado é traduzido por Piaget como raciocínio transdutivo, em que, muitas vezes, dois fatos que não possuem ligação acabam sendo erroneamente relacionados. Tal período é, ainda, marcado pelo egocentrismo, quando a descoberta do eu ganha uma proporção elevada, sendo que apenas após alguns anos podemos perceber que a brincadeira nas escolas, por exemplo, passa de individuais para cooperativas. Outro marco dessa etapa está na confusão entre a realidade e a fantasia, percebida quando as crianças brincam com um objeto, por exemplo, sendo capazes de transformar uma caixa de papelão em uma nave espacial. O elemento identificado como principal característica por Piaget é denominado animismo, que seria a ideia que consiste em dar alma ou sentimentos a coisas e objetos inanimados.
- Operações concretas – Dos sete aos 11 anos - Nessa etapa, a noção espacial e de lateralidade é propriamente definida, estando também caracterizada pela fase de operação sobre os objetos. São definidas também questões quanto ao futuro e ao passado, momento em que a questão temporal é conceituada. Em questões pedagógicas, os fatores numéricos ganham grande proporção e são percebidos integralmente quando aprendem conceitos de soma, subtração e outros fundamentos da matemática. Você pode perceber que a criança nessa etapa ainda cria brincadeiras de fantasia, porém esse “faz de conta” possui uma diferença significativa em relação à fase anterior, quando a fantasia era confundida com a realidade. Essa fase de pensamento Piaget chamou de reversibilidade.
- Operações formais – A partir dos 12 anos - Essa fase é marcada pelo potencial adquirido de tornar as situações hipotéticas, logo o raciocínio ganha um grande poder hipotético-dedutivo. A inteligência nessa etapa se conceitua pelo grande poder de solucionar problemas de forma sistemática, utilizando assimilações de alta complexidade.
Contudo, conforme vamos envelhecendo, entramos em uma fase de involução psicomotora, ou seja, fase de perdas psicomotoras devido ao envelhecimento, conhecida como retrogênese psicomotora. Assim, diversos fatores como estilo de vida saudável (alimentação e exercício físico), depressão, solidão, satisfação com a vida, vivências familiares e outros, podem afetar positiva ou negativamente a psicomotricidade na vida adulta e no processo de envelhecimento (FONSECA, 1998).
Compreender as fases facilita o entendimento do que a criança é capaz de fazer, do que é capaz de aprender e se tem algum atraso com relação a outras crianças da mesma idade.
A psicomotricidade como uma abordagem multidisciplinar
Ao longo da sua história no Brasil e no mundo, a psicomotricidade foi ganhando autonomia como uma ciência desvinculada de uma profissão única. Além disso, diferentes profissionais voltaram suas atenções à psicomotricidade e aderiram a terapias, diagnósticos, tratamentos e até disciplinas em cursos de formação, tanto de pós-graduação como de graduação.
Como já abordado anteriormente, a psicomotricidade é uma ciência de abordagem multidisciplinar que engloba todos os profissionais envolvidos com o movimento, com as relações sociais, afetivas e emocionais e com os aspectos cognitivos. Assim, a atuação na área da psicomotricidade pode acontecer por parte dos pedagogos e professores de Educação Física, assim como professores de outras disciplinas. A atuação acontece na percepção de sinais que demonstrem algum atraso ou transtorno, no trabalho junto aos pais e na intervenção.
Além disso, a psicomotricidade pode ser trabalhada em clínicas que atendem crianças com desenvolvimento motor típico, porém com dificuldades, e crianças com desenvolvimento motor atípico, com presença de transtornos. Dessa forma, esse trabalho pode ser feito por profissionais de Educação Física, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, psicólogos, psicopedagogos, médicos e fonoaudiólogos. Existe a possibilidade da intervenção em hospitais e clínicas psiquiátricas também.
Pelo fato de a psicomotricidade envolver os aspectos do movimento, da cognição e das emoções, que podem afetar os aspectos motores, a fala, a escrita, a vida social e a aprendizagem, seria ideal um trabalho em conjunto com os diversos profissionais em suas especialidades na identificação de sinais, no tratamento e na intervenção.
Vamos Exercitar?
Estudante, pronto para mais uma reunião com a direção escolar? O primeiro bate-papo aconteceu e você deu uma aula sobre a psicomotricidade, explicando os aspectos históricos, fundamentos básicos e quem pode trabalhar com a psicomotricidade. A diretora gostou do conteúdo e pediu para que você se aprofundasse mais no assunto em um novo bate-papo que ela agendaria para a próxima semana. Assim, para a próxima conversa, você achou importante falar do desenvolvimento psicomotor e das suas fases, apontando a importância de uma atuação multidisciplinar. Para preparar esse conteúdo, você seguiu três perguntas norteadoras: Como acontece o desenvolvimento psicomotor ao longo da vida? As fases do desenvolvimento humano possuem características específicas? Como se dá a atuação multidisciplinar na psicomotricidade?
O desenvolvimento psicomotor está intimamente relacionado ao desenvolvimento humano. Assim, ele acontece em uma direção céfalo-caudal e próximo-distal, e está relacionado com a idade. Piaget traz o desenvolvimento em quatro fases: sensório-motora, pré-operacional, operações concretas e operações formais. A avaliação, a identificação de transtornos ou anormalidades e a intervenção exigem uma atuação multidisciplinar que envolva professores de Educação Física, pedagogos, médicos, terapeutas ocupacionais, fisioterapeutas, fonoaudiólogos e psicólogos, cada uma trabalhando na sua área em busca da resolução de um mesmo problema.
Saiba Mais
Vamos aprofundar o debate sobre a atuação no campo da psicomotricidade e a função docente na educação infantil? Para isso, leia o artigo: Considerações sobre a psicomotricidade na educação infantil.
Referências Bibliográficas
FONSECA, V. Psicomotricidade: filogênese, ontogênese e retrogênese. Porto Alegre: Artes Médicas, 1998.
GUSI, E. G. B. Psicomotricidade Relacional. Curitiba: Contentus, 2020.
PEREIRA, R. C. Transtorno psicomotor e aprendizagem. Rio de Janeiro: Thieme Revinter Publicações, 2018.
PIAGET, J. Seis estudos de psicologia. Tradução: Maria Alice Magalhães D’ Amorim e Paulo
Sergio Lima Silva - 24º Ed. Rio de Jneiro: FORENSE UNIVERSITARIA, 1999.
Aula 3
Aspectos Teóricos da Psicomotricidade
Aspectos Teóricos da Psicomotricidade
Olá, estudante! Nesta videoaula, você irá se aprofundar nas teorias da psicomotricidade. Você irá conhecer os teóricos mais influentes que estudaram o movimento a partir das emoções e da cognição. Cada um desses teóricos contribuiu profundamente para a psicomotricidade, explicando os processos envolvidos nela.
Todo esse conteúdo é muito importante para a sua formação, pois trará os processos históricos do surgimento das teorias e as principais características de cada teórico, facilitando a compreensão dos aspectos relacionados à psicomotricidade.
Vamos lá!
Ponto de Partida
A psicomotricidade surgiu de um processo histórico na tentativa de compreender o movimento por meio das emoções, do pensamento, do raciocínio e dos aspectos cognitivos envolvidos. Compreender os teóricos que buscaram explicar a psicomotricidade nos permite entender o seu porquê e pesarmos na ação a partir do que motivou sua evolução.
Então, vamos à seguinte situação que ajudará você a entender a aplicação desse conteúdo. Você trabalha em uma escola municipal onde as professoras atuam também com o conteúdo de Educação Física nos anos iniciais do Ensino Fundamental e na Educação Infantil. A direção escolar vem buscando melhorar os índices de avaliação da escola nos processos de avaliação externa desenvolvidos pelo município, e como uma das ações ela quer diminuir o tempo de atividades que envolvam o brincar, a ludicidade e a educação física para aumentar o tempo dedicado às atividades de Matemática e Língua Portuguesa.
O primeiro bate-papo gerou interesse na diretora, que solicitou uma nova conversa. Você decide, então, falar do desenvolvimento psicomotor e das suas fases, apontando a importância de uma atuação multidisciplinar. No final da segunda conversa, a diretora pergunta quem são os teóricos envolvidos com a psicomotricidade e como eles abordam a ideia de corpo, psicomotricidade e significação. Você diz que os nomes são diversos e sugere mais um encontro planejado para um outro dia. Ela aceita a proposta.
E, então, como você poderia elaborar e sistematizar esses conhecimentos para essa nova reunião?
Boa aula!
Vamos Começar!
Desenvolvimento da psicomotricidade segundo as teorias psicogenéticas
A psicogenética é uma área de estudo que busca entender o desenvolvimento das funções da mente, em que a evolução pode explicar ou oferecer informações complementares para encontrar respostas para aspectos psicológicos gerais. Dessa maneira, a teoria psicogenética está relacionada ao conhecimento e à aprendizagem, que contribuem tanto para a psicologia quanto para a educação. Sendo assim, essas teorias contribuem para um olhar sobre o indivíduo como um todo e seu relacionamento com o ambiente.
A teoria da psicogenética tem como objeto de estudo o ser humano, suas leis e seu modo de pensar como produto da infância, sendo considerada uma das teorias do construtivismo pelo seu alcance na educação e conduta sobre a aprendizagem.
O surgimento das teorias psicogenéticas se deu pelo psicólogo experimental, filósofo e biólogo suíço Jean Piaget, que defendia que a afetividade era um subproduto do cognitivo, e depois representada por Wallon, entre outros teóricos.
Jean Piaget
Ele é conhecido pela sua contribuição não apenas em relação à psicomotricidade, mas também em relação à filosofia, à pedagogia, entre outros estudos. Piaget possui a formação básica de biólogo e dedicou seus primeiros estudos a essa área, porém logo se interessou por sociologia, filosofia e por política. Em sua íntima relação com a psicomotricidade, estudou o modo como a inteligência contribui integralmente para a relação do ser humano em seu íntimo com o ambiente externo. Foi Piaget o teórico que dividiu o desenvolvimento nas seguintes fases: sensório-motora, pré-operacional, operações concretas e operações formais.
Henri Wallon
Henri Paul Hyacinthe Wallon, nascido em 1879 na França, país de forte conscientização psicomotora, tendo vivido até a data de 1º de dezembro de 1962, possuía uma forte bagagem cultural, uma vez que em sua vida atuou como médico, psicólogo, político e filósofo, vivenciando as catástrofes das grandes guerras mundiais e sendo responsável por atender muitas crianças que foram vítimas das calamidades que ocorriam na época. Wallon, junto a outros políticos da época, criaram diferentes projetos sociais para favorecer o desenvolvimento psicomotor das crianças. Ele foi um profissional da área da saúde que se preocupou em desvendar o que existe por trás de cada movimento que fazemos, não apenas se limitando ao aspecto visível e percebido pelo senso comum, mas avaliando até mesmo a relação do tônus com os aspectos mentais.
Wallon se diferencia de Piaget e de Lebouch por não analisar o esquema corporal como uma porção apenas envolvida com os aspectos psicológicos ou com os aspectos biológicos, mas sim por compreendê-lo como uma constante evolução que atua como base sólida de sustentação da personalidade da criança. Ou seja, o esquema corporal para Wallon é o antecessor de uma personalidade íntegra. É visto e explicado pela escola Walloniana que a primeira via de comunicação essencial e total da criança está em suas ações motoras, uma vez que a verbalização, ou seja, a fala, ainda não dominada é incapaz de conseguir exteriorizar todas as necessidades e vontades da criança que, de modo parcialmente inconsciente, possui desejos, vontades e sentimentos demonstrados por suas ações motoras.
Algumas fases são percebidas por Wallon e foram nomeadas, sendo elas: fase impulsiva, tônico-emocional, sensório-motora, projetiva e personalística. Você deve atentar, ao estudar as fases de Wallon, que elas não possuem ponto-final antes de iniciar a próxima, mas sim que as fases acabam se entrepondo, ou seja, antes do término de uma fase a seguinte já se iniciou.
- Fase impulsiva: é a primeira fase, iniciada logo no nascimento, relacionada totalmente as “explosões” reflexas e automatizadas que refletem as sensações de satisfação ou insatisfação.
- Fase tônica-emocional: normalmente, essa fase se inicia aos seis meses de vida e finaliza-se aos 12 meses e é marcada pelo significado não automático das ações motoras. Nesse período, as sensações são as desencadeadoras das ações, ainda com forte maturação tônica.
- Fase sensório-motora: período percebido aos 12 meses, momento em que a criança ganha o mundo através da marcha e inicia a integração entre as sensações e os atos motores. A marcha simboliza a orientação dos movimentos. Para Wallon, a capacidade de repetir movimentos nessa etapa é a percussora do movimento intencional, logo, o movimento inteligente.
- Fase projetiva: fase entre o terceiro e quarto ano de vida, que Wallon entende que o real domínio da linguagem é capaz de objetivar a intenção, conceituando a ação como resultado de uma análise mental das situações. Período marcado pela imitação, mostrando a ligação entre o meio externo e a percepção da criança.
- Fase personalística - Fase entre o quinto e sexto ano de vida, em que o conceito do eu está em plena maturação, com a identidade em crescimento. Nessa fase, os movimentos representam claramente os desejos.
Julian de Ajuriaguerra
Ajuriaguerra foi um médico de origem basca, com formação na França, que realizou muitas pesquisas na área da neurofisiologia, neuropatologia e neuropsiquiatria infantil. Foi na neuropsiquiatria infantil que contribuiu para a psicomotricidade. Ele acreditava que a evolução da criança acontecia pela consciencialização e pelo conhecimento cada vez mais profundo do seu próprio corpo. Assim, a criança elabora todas as suas experiências vitais e organiza sua personalidade única por meio do corpo. Ou seja, a criança é seu corpo (FONSECA, 2008).
Ajuriaguerra introduziu o temo somatognosia, que significa reconhecimento (gnosia) do corpo (soma), e a partir dele apresentou os conceitos de imagem corporal e esquema corporal. A somatognosia é a tomada de consciência do corpo como um todo e de suas partes que estão intimamente ligadas e inter-relacionadas conforme a evolução de movimentos voluntários, ou seja, toma-se consciência do corpo a partir de experiências (FONSECA, 2008).
Le Boulch
Também francês, Le Boulch foi o precursor do termo psicocinética ao incluir na
prática pedagógica profissional os conceitos motores aplicados que podem contribuir diferencialmente para o desenvolvimento cognitivo e motor das crianças. A psicocinética visa a uma sequência evolutiva lógica sobre a aquisição de instrumentos de expressão entre o ser interno e o meio externo. Podemos entender psicocinética como o elo entre a educação e o movimento.
A visão de Le Boulch quanto ao desenvolvimento psicomotor possui íntima relação com o momento escolar. O pesquisador percebe que o período em que a criança frequenta a escola é primordial para sua base psicomotora, estando intimamente relacionado com até 75% do desenvolvimento total.
Lev Vygotsky
Vygotsky era formado em Direito, Literatura, História, Filosofia, Psicologia e Medicina. Sua vida não foi muito longa, falecendo aos 39 anos, depois de 14 anos combatendo a tuberculose. Vygotsky estudou as funções psíquicas superiores humanas, como o controle do comportamento, a memorização ativa, atenção voluntária, o raciocínio dedutivo, entre outros temas. Ele buscou estudar as mudanças qualitativas do comportamento humano observadas no desenvolvimento ao longo da vida e a sua relação com o ambiente social (FONSECA, 2008).
Segundo Vygotsky, a cultura é parte da natureza humana de cada indivíduo, remetendo à ideia de que a origem das funções psíquicas são socioculturais e surgem a partir de funções psicológicas básicas de origem biológica. Assim, Vygotsky acreditava que os principais objetivos da psicomotricidade seriam a consciência do próprio corpo, a organização do esquema corporal, a organização espaço temporal, o domínio do equilíbrio e a eficácia das coordenações globais. Todos esses elementos em conjunto na geração de uma melhor adaptação do indivíduo ao mundo, auxiliando na sua aprendizagem de habilidades (PERES; CRUZ, 2014).
Siga em Frente...
O corpo e sua relação com a psicomotricidade
A psicomotricidade se dá pelos processos motores, cognitivos e emocionais que acontecem simultaneamente na expressão do movimento. Assim, o movimento realizado tem seu significado a partir das possibilidades motoras de execução, dos pensamentos e raciocínios, e dos aspectos emocionais, como a afetividade.
Todo esse processo ocorre pelo estímulo que é recebido, pela ativação dos órgãos dos sentidos (sensação) e da atribuição, e pela interpretação desses estímulos (percepção), chegando à cognição. Assim, a cognição tem como responsabilidade organizar como pensamos e construímos o pensamento. Esses pensamentos são ligados ao comportamento motor por meio das células nervosas, realizando processos biológicos e gerando a contração muscular para que a ação seja realizada.
Dessa maneira, o desenvolvimento psicomotor ocorre por meio de processos de aprendizagem, em que os elementos motores são desenvolvidos e auxiliam nos movimentos e na realização de habilidades motoras. A forma como o indivíduo entende seu corpo (imagem e esquema corporal) pertence aos aspectos cognitivos que irão influenciar a atuação dos outros elementos motores e, consequentemente, a realização de habilidades motoras. Do mesmo modo que a forma como esse corpo se organiza no espaço, se equilibra e se coordena, influencia nos movimentos e na forma como o indivíduo se vê.
Assim, os significados dados ao corpo, ao objeto, ao ambiente e às emoções vão interferir na forma como esse corpo se movimenta no espaço e a sua relação com os elementos psicomotores.
Vamos Exercitar?
Estudante, continuamos na busca pela efetivação dos espaços do corpo e do movimento na construção de um sujeito em sua totalidade. Vamos seguros para mais uma reunião com a direção escolar?
Primeiro, você explica sobre a psicogenética, que foi um termo abordado por Jean Piaget, que tem como objeto de estudo o ser humano, suas leis e seu modo de pensar como produto da infância, sendo considerada uma das teorias do construtivismo pelo seu alcance na educação e conduta sobre a aprendizagem. Outros teóricos também contribuíram para a psicomotricidade, como: Henry Wallon, Le Boulch, Ajuriaguerra e Vygotsky. Assim, o significado a partir do movimento acontece por meio da estreita relação do corpo e da mente.
Saiba Mais
Wallon oferece significativo aparato teórico e procedimental que em muito contribui para o trabalho com a educação psicomotora. Sobre essa abordagem, leia o texto a seguir: Tendências da educação psicomotora sob o enfoque walloniano.
Referências Bibliográficas
FONSECA, V. Psicomotricidade: filogênese, ontogênese e retrogênese. Porto Alegre: Artes Médicas, 1998.
HAYWOOD, K. M.; GETCHELL, N. Desenvolvimento motor ao longo da vida. Porto Alegre: Artmed, 2010.
PERES, T. S.; CRUZ, M. A. O. Psicomotricidade no processo de alfabetização da criança. Perspectivas em psicologia, v. 18, n. 2, 2014. pp. 136-152.
Aula 4
Elementos Psicomotores
Elementos Psicomotores
Olá, estudante! Nesta videoaula, você irá conhecer os elementos psicomotores e compreender a definição de esquema corporal, imagem corporal, equilíbrio, lateralidade, organização espaço-temporal, ritmo, tônus muscular, motricidade e coordenação motora, e suas influências no desenvolvimento e na aprendizagem psicomotora.
Esta aula é de grande importância na sua formação profissional, pois você conseguirá identificar os elementos psicomotores e pensar nas possíveis formas de intervenção pedagógica nos mais diferentes contextos e objetivos educacionais.
Vamos lá!
Ponto de Partida
A psicomotricidade surgiu de um processo histórico na tentativa de compreender o movimento por meio das emoções, do pensamento, do raciocínio e dos aspectos cognitivos envolvidos. Entender os teóricos que buscaram explicar a psicomotricidade permite saber o seu porquê e pesarmos na ação a partir do que motivou sua evolução.
Então, vamos à seguinte situação que ajudará você a compreender a aplicação desse conteúdo. Você trabalha em uma escola municipal onde as professoras atuam também com o conteúdo de Educação Física nos anos iniciais do Ensino Fundamental e na Educação Infantil. A direção escolar vem buscando melhorar os índices de avaliação da escola nos processos de avaliação externa desenvolvidos pelo município, e como uma das ações ela quer diminuir o tempo de atividades que envolvam o brincar, a ludicidade e a educação física para aumentar o tempo dedicado às atividades de Matemática e Língua Portuguesa.
O primeiro encontro aconteceu e você deu uma aula sobre a psicomotricidade, explicando os aspectos históricos, fundamentos básicos e quem pode trabalhar com a psicomotricidade. A diretora gostou do conteúdo, mais ainda não se sentiu convencida e pediu para que você se aprofundasse mais no assunto em um segundo encontro, no qual você abordou o desenvolvimento psicomotor, as suas fases e a atuação multidisciplinar. Dando continuidade a essa temática, a diretora solicitou um terceiro encontro, em que você abordou as teorias psicomotoras. E, como em todos os encontro e embates, você mencionou os elementos psicomotores, o que deixou a diretora curiosa para saber mais a respeito. Por isso, ela pediu uma última reunião de debate fechar o assunto.
Assim, para nortear esse bate-papo, você focou em responder às seguintes questões: Quais são os elementos psicomotores? Como eles contribuem para o desenvolvimento psicomotor e para a aprendizagem?
Você já sabe elencar os elementos psicomotores?
Boa aula!
Vamos Começar!
Esquema corporal
O esquema corporal é um elemento básico do desenvolvimento psicomotor da representação consciente do próprio corpo. Sua formação começa no nascimento e finaliza aos 12 anos. Assim, a personalidade da criança se forma a partir da consciência de si, de seu corpo, de seu ser, das possibilidades de agir e de se transformar. Por meio do esquema corporal, a criança desenvolve a capacidade de correr sem se chocar em móveis, de reconhecer as partes do seu corpo, sendo capaz de nomear e sinalizar, e de escolher trajetos que sejam melhores para o tamanho de seu corpo (GUZI, 2020; PEREIRA, 2017).
Segundo Pereira (2017), o desenvolvimento do esquema corporal ocorre em três etapas:
- Corpo vivido – até os três anos de idade: fase de identificação das partes do corpo a partir das vivências e experiências.
- Corpo percebido ou descoberto – de três a sete anos: quando ocorre a organização do esquema corporal, que acontece por meio da função de interiorização.
- Corpo representado – de sete a 12 anos: fase em que ocorre a estruturação do esquema corporal, em que a criança o amplia e organiza, devido à noção do todo e das partes do corpo, do conhecimento das posições e do controle e domínio corporal.
- O esquema corporal mal desenvolvido acarreta sérios problemas na orientação
- temporal e espacial, no equilíbrio e na postura (PEREIRA, 2017).
Imagem corporal
A imagem corporal é a imagem mental do corpo a partir das vivências do indivíduo. Essa imagem envolve a expressão da história psicomotora, abrangendo as áreas motora, afetiva e cognitiva, cujo desenvolvimento de estruturação e reestruturação acontece por meio da inter-relação das áreas fisiológicas, sociológicas e libidinais. Podemos dizer que a imagem corporal é a representação visual que a pessoa tem do seu próprio corpo (GUZI, 2020; PEREIRA, 2017).
Contudo, para diferenciar esquema corporal de imagem corporal, podemos entender que o esquema corporal é o mesmo para todos os indivíduos, por exemplo, saber onde fica a cabeça, as mãos, os pés e seus formatos e localizações. Já a imagem corporal é a imagem que cada indivíduo tem de seu próprio corpo relacionado à sua história, ou seja, se essa pessoa sente muito magra ou muito alta, por exemplo (GUZI, 2020).
Equilíbrio
O equilíbrio tem como significado o controle da estabilidade postural, com a ação do sistema vestibular que integra as informações proprioceptivas, visuais, cinestésicas e tônicas que são recebidas pelo cerebelo (FONSECA, 2008). Assim, o equilíbrio pode ser estático ou dinâmico.
O equilíbrio estático é a manutenção da postura em diferentes posições, por exemplo: ficar em pé, sentado, ajoelhado. Ele é mais abstrato, exige mais concentração e quando está sob controle facilita a aprendizagem. Já o equilíbrio dinâmico é o sair e voltar para o eixo corporal, como se deslocar caminhando e inclinar o corpo a frente e voltar. Ele depende de como o esquema corporal se estrutura e da integração do sistema neuropsicomotor.
Lateralidade
A lateralidade é a opção de utilização do lado corporal de maior precisão, força e destreza. É a noção do lado que prefere para realizar movimentos (direita ou esquerda), por exemplo: escrever com a mão direita, chutar com o pé esquerdo. A lateralidade pode envolver o corpo todo ou partes dele, como a visão, a audição, os membros superiores e inferiores. Conforme a criança vai crescendo, ela vai definindo a sua preferência lateral pela agilidade e força. Além disso, a lateralidade pode ser influenciada por hábitos sociais, por meio de estímulos de um dos lados do corpo (GUZI, 2020; PEREIRA, 2017).
A lateralidade pode se manifestar de três formas:
- Homogênea: quando a pessoa tem preferência de utilização dos olhos, ouvidos, braços e pernas de um mesmo lado do corpo.
- Cruzada: quando a pessoa apresenta uma preferência de utilização que não se concentra somente de um lado do corpo, por exemplo: ela chuta com o pé direito e escreve com a mão esquerda.
- Ambidestra: quando a pessoa apresenta a preferência de utilização dos dois lados, e os dois apresentam a mesma destreza.
O desenvolvimento da lateralidade é muito importante, pois influencia na percepção que a pessoa tem do seu esquema corporal e na simetria de seu corpo. Além disso, contribui para determinar a estruturação espacial, ou seja, sua percepção do eixo de seu corpo e do ambiente em relação a esse eixo. Assim, a criança que não desenvolveu a lateralidade apresenta problemas de estruturação espacial e não consegue distinguir seu lado preferido (GUZI, 2020; PEREIRA, 2017).
Siga em Frente...
Organização espaço-temporal
A orientação espaço-temporal é a consciência que tomamos da situação dos objetos e das pessoas entre si. Compreende a noção de direção, de organização diante de tudo que nos cerca e de distâncias. Como o espaço e tempo são indissociáveis, não é possível compreendê-los sozinhos, por isso utilizamos o termo organização espaço temporal. Dessa maneira, a organização espaço-temporal tem sua importância no processo de adaptação do indivíduo no ambiente, já que todo corpo ocupa um espaço em um dado momento (GUZI, 2020; PEREIRA, 2017).
Quando se fala em orientação espacial, diz respeito a como nos vemos e vemos as coisas a nossa volta, tomando nós mesmos como referência. Em um primeiro momento, a criança se orienta no espaço de forma inconsciente e gradativa até conseguir dominar seus movimentos e reconhecer um sentido do espaço. A organização espacial tem como objetivo desenvolver a capacidade de orientação no espaço, associar ideias, analisar e sintetizar, formar conceitos básicos em relação a distância, dimensão, forma, posição e altura, e desenvolver a percepção, o ritmo e o raciocínio. Assim, trabalhar a orientação espacial no permite que a pessoa se conscientize de suas ações de maneira mais completa (GUZI, 2020; PEREIRA, 2017).
Já a orientação temporal é a capacidade de nos situarmos no tempo, da ordem de sucessão dos acontecimentos (antes, durante e depois), de quanto dura um intervalo (pouco tempo, muito tempo, períodos curtos e longos), dos períodos que se renovam de forma cíclica (dias da semana, meses do ano, estações do ano) e da irreversibilidade do tempo (noção de envelhecimento das pessoas, plantas, animais) (GUZI, 2020; PEREIRA, 2017).
Ritmo
O ritmo abrange a ideia de ordem, duração, sucessão e alternância. Primeiro, percebemos o ritmo interno, depois o externo e, por fim, vem a percepção e reprodução das estruturas rítmicas. O ritmo está presente na maneira como andamos, falamos e em como realizamos os gestos das atividades diárias. Além disso, o ritmo está presente na dança, na música e nas coreografias. Assim, podemos dizer que cada pessoa tem o seu ritmo, o qual se inicia com os ritmos naturais internos, como o ritmo do batimento cardíaco, por exemplo. Por isso, o ritmo é um fenômeno individual e espontâneo (PEREIRA, 2017).
Tônus
O tônus é uma atividade postural que permite uma fixação dos músculos em determinadas articulações, o que garante as atitudes, posturas, mímicas e emoções, que são resultados de todas as ações motoras humanas. Essa garantia acontece, pois o tônus muscular está associado à unidade funcional do cérebro, às funções de alerta e de vigilância e às condições genéticas. Assim, o tônus muscular é uma tensão fisiológica dos músculos que garantem o equilíbrio estático e dinâmico, a coordenação motora e o controle postural, sendo ele a base das atividades práticas.
Motricidade
A motricidade é compreendida como as sensações conscientes do ser humano em movimento com intencionalidade e significado que ocorre no tempo e no espaço que envolvem a percepção, memória, emoção, afetividade, projeção e raciocínio. Além disso, a motricidade pode ser vista de diferentes formas, como gestos, falas, cênicas e outros (KOLYNIAK FILHO, 2010). De acordo com a musculatura envolvida, a motricidade pode ser classificada em motricidade ampla ou fina. A motricidade ampla envolve grandes grupos musculares na sua execução, por exemplo: correr, nadar, pedalar, jogar futebol, rebater ou segurar uma bola. Já a motricidade fina envolve pequenos grupos musculares na sua execução, como escrever, desenhar, pintar uma tela, tricotar, apertar o botão do controle do videogame.
O desenvolvimento da motricidade acontece de forma progressiva, dos grandes músculos para os pequenos músculos e do simples para o complexo, sendo dependente dos processos maturacionais da criança. Além disso, a motricidade se desenvolve a partir da evolução dos outros elementos psicomotores, como: lateralidade, organização espaço-temporal, esquema corporal, coordenação motora e equilíbrio.
Coordenação motora
É a associação entre o corpo e a motricidade, a qual é aumentada de forma gradativa a precisão e a harmonização da postura e da locomoção, bem como todas as atividades motoras. A coordenação motora pode ser: estática, ampla ou fina (GUZI, 2020; PEREIRA, 2017).
A coordenação motora estática é aquela realizada em repouso, o que envolve o equilíbrio entre ações de músculos antagonistas, nas quais se estabelece um tônus e permite a conservação voluntárias das atitudes. A coordenação motora ampla ocorre em atividades de movimentação e experimentação, nas quais o indivíduo busca o equilíbrio e em que grandes grupos musculares estão envolvidos. Como exemplos, temos: andar, correr, saltar, arremessar, nadar, andar de bicicleta, dentre outros. Já a coordenação motora fina é aquela que envolve a habilidade e destreza manual, pois envolve pequenos grupos musculares. Em muitas tarefas, a coordenação motora vem acompanhada da coordenação visomotora, que diz respeito à coordenação da visão e do objetivo da tarefa, envolvendo o controle dos olhos e da musculatura que realiza o movimento. Por exemplo, na motricidade fina temos a escrita, em que a pessoa movimenta os dedos e acompanha com os olhos. Na motricidade ampla, temos o jogador de basquete que coordena os braços para o arremesso e acompanha com o olhar a bola em direção à cesta (GUZI, 2020; PEREIRA, 2017).
Assim, a atuação docente tem uma perspectiva toda dimensão do corpo, dos aspectos motores em sua plenitude, dos aspectos relacionais e cognitivos, pois todos estão, sob a perspectiva da psicomotricidade, diretamente relacionados e possuem suas funções no desenvolvimento integral, na totalidade do sujeito.
Vamos Exercitar?
Estudante, nesse último encontro decisivo, você elencou de forma direta, e com demonstração de saber prático e teórico, os elementos psicomotores, sendo eles: esquema corporal, imagem corporal, equilíbrio, lateralidade, organização espaço-temporal, ritmo, tônus muscular, motricidade e coordenação motora.
Quando esses elementos estão bem desenvolvidos, a dimensão motora, do movimento, da sociabilização, dos aspectos cognitivos e emocionais dos alunos, também flui com mais facilidade, e o aluno aprende melhor.
Cada elemento desses está interrelacionado com os outros e são dependentes entre si. Esses elementos precisam ser desenvolvidos na infância, e, caso não seja, o aluno pode apresentar dificuldades motoras, sociais, afetivas e emocionais, ou seja, não sendo educado em sua totalidade.
E é nesse aspecto que é sistematizado todos os saberes e a importância do movimento, do pular, do saltar, do correr para as crianças em idade escolar. Não são apenas ações motoras isoladas e desconexas. Não é apenas uma dimensão física. É todo o corpo em sua plenitude em ação, corpo este que está em formação, em construção, seja no aspecto biológico, seja no aspecto social e cultural. Assim, com os saberes da psicomotricidade, a atuação docente possibilita um direito ao aluno: o direito a seu desenvolvimento integral.
Saiba Mais
Jogo, brincadeira e psicomotricidade: o seguinte artigo aborda aspectos do cotidiano do pedagogo e de sua atuação docente com os estudantes. Sobre esse tema, leia e estudo: A importância dos jogos e brincadeiras como elemento psicomotor no processo ensino e Aprendizagem.
Referências Bibliográficas
FONSECA, V. Psicomotricidade: filogênese, ontogênese e retrogênese. Porto Alegre: Artes Médicas, 1998.
FONSECA, V. Desenvolvimento psicomotor e aprendizagem. Porto Alegre: Artmed, 2008.
GUSI, E. G. B. Psicomotricidade Relacional. Curitiba: Contentus, 2020.
KOLYNIAK FILHO, C. Motricidade e aprendizagem: algumas implicações para a educação escolar. Construção psicopedagógica, v. 18, n. 17, 2010. pp.53-66.
PEREIRA, R. C. Transtorno psicomotor e aprendizagem. Rio de Janeiro: Thieme Revinter Publicações, 2018.
Encerramento da Unidade
A Psicomotricidade
Videoaula de Encerramento
Olá, estudante! Nesta videoaula, vamos estudar sobre a psicomotricidade e sua fundamentação teórico e prática para a educação motora. A dimensão da totalidade no desenvolvimento do aluno perpassa as bases da psicomotricidade, em seus aspectos emocionais, sociais e motores. Assim, a psicomotricidade se coloca como base teórica para orientar o trabalho e o desenvolvimento dos alunos em todos os seus aspectos, principalmente os aspectos motores, sabendo reconhecer sua relação com a integralidade do aluno.
Esse conhecimento sobre a psicomotricidade dá suporte ao trabalho do pedagogo na compreensão e no desenvolvimento desde a inserção dos alunos no mundo da educação escolar, reconhecendo as etapas de desenvolvimentos e as dimensões motoras que necessitam ser observadas e desenvolvidas de modo planejado no trabalho educacional.
Prepare-se para essa jornada de conhecimento. Vamos lá!
Ponto de Chegada
A psicomotricidade, cuja história remonta a 1870 com os médicos neurologistas Fritsch e Hitzig, surge da observação de uma atividade misteriosa que conecta a imagem mental ao movimento. Ao longo do tempo, diversos estudiosos contribuíram para sua evolução.
Em 1907, Edouard Dupré percebeu que incapacidades motoras nem sempre estão ligadas a um atraso mental. Em seguida, Henri Wallon estabeleceu a relação entre movimento e afetividade, emoção e meio ambiente, em 1925, enquanto Edouard Guilmain, em 1935, introduziu a reeducação psicomotora para suprir demandas mal reguladas na infância. Julian de Ajuriaguerra, em 1947, destacou a oscilação dos transtornos psicomotores entre o neurológico e o psiquiátrico, incentivando o estudo da psicanálise para compreender as vivências emocionais.
Na Europa, entre 1960 e 1970, houve um foco crescente nas relações entre o indivíduo e seu meio, resultando em práticas psicomotoras mais relacionais. Em Portugal, João dos Santos e Margarida Mendo foram pioneiros na aplicação da psicomotricidade, realizando os primeiros testes motores em Lisboa.
No Brasil, a psicomotricidade começou a ganhar destaque a partir de 1950. Em Porto Alegre, Dra. Rosat introduziu a atenção psicomotora no Serviço de Educação Especial, relacionando fatores cognitivos, emocionais e motores no desenvolvimento infantil. Em 1980, foi fundada a Sociedade Brasileira de Psicomotricidade, seguida pelo primeiro Congresso Brasileiro de Psicomotricidade, em 1982.
Conceitualmente, a psicomotricidade combina aspectos cognitivos, emocionais, motores e sociais, visando promover o desenvolvimento integral do indivíduo. Suas áreas de atuação incluem comunicação, equilíbrio, percepção, coordenação, esquema e imagem corporal, entre outras. Além de beneficiar pessoas com deficiências ou distúrbios, a psicomotricidade também contribui para a coerência da linguagem gestual das crianças, facilitando o processo de alfabetização.
Em suma, a psicomotricidade é um conhecimento complexo e multifacetado que se expandiu ao longo dos anos, abrangendo uma ampla gama de áreas de atuação e influenciando o desenvolvimento infantil e a prática educacional e também terapêutica em diversos contextos.
As fases do desenvolvimento psicomotor, conforme abordadas por Jean Piaget, permitem uma compreensão das etapas pelas quais as crianças passam desde o nascimento até a adolescência.
A primeira fase, sensório-motor, ocorre do nascimento até os dois anos, caracterizada pela transição dos movimentos reflexos para ações conscientes, em que se explora o ambiente sem percepção de permanência.
A fase pré-operacional, dos dois aos sete anos, é marcada pelo desenvolvimento da fala e pelo pensamento concreto, egocêntrico e fantasioso, em que a criança confunde realidade e fantasia.
Já as operações concretas, dos sete aos 11 anos, são caracterizadas pela definição de noções espaciais, operações sobre objetos e compreensão do tempo. Nessa fase, as habilidades numéricas e a reversibilidade do pensamento começam a se desenvolver.
Na fase das operações formais, a partir dos 12 anos, há uma capacidade crescente de raciocínio hipotético-dedutivo e solução sistemática de problemas.
Entender essas fases é crucial para identificar a capacidade e o progresso das crianças em comparação com outras da mesma faixa etária, além de auxiliar na detecção de eventuais atrasos no desenvolvimento.
Por outro lado, à medida que envelhecemos, ocorre uma fase de involução psicomotora, conhecida como retrogênese psicomotora. Essa fase está relacionada a perdas psicomotoras decorrentes do envelhecimento, influenciadas por diversos fatores como estilo de vida saudável, saúde mental, relações familiares e satisfação com a vida. Compreender esses aspectos pode contribuir para um envelhecimento mais saudável e uma melhor qualidade de vida na fase adulta.
Outro saber relevante é a psicogenética, que é uma área de estudo que busca compreender o desenvolvimento das funções mentais, oferecendo insights valiosos para aspectos psicológicos gerais. Jean Piaget, um dos principais expoentes dessa teoria, dividiu o desenvolvimento humano em quatro fases: sensório-motora, pré-operacional, operações concretas e operações formais. Nesse contexto, Piaget investigou como a inteligência influencia a relação do indivíduo com o ambiente externo.
Henri Wallon, outro nome importante na psicogenética, ampliou o entendimento sobre o desenvolvimento infantil ao analisar o papel do corpo na formação da personalidade. Wallon destacou várias fases do desenvolvimento, como a impulsiva, tônico-emocional, sensório-motora, projetiva e personalística, enfatizando a interconexão entre o desenvolvimento psicomotor e psicológico.
Julian de Ajuriaguerra contribuiu para a psicomotricidade ao enfatizar a consciencialização do corpo como um aspecto fundamental no desenvolvimento da criança. Ele introduziu o conceito de somatognosia, que se refere ao reconhecimento do corpo e suas partes inter-relacionadas, influenciando a formação da imagem corporal e do esquema corporal.
Le Boulch introduziu o conceito de psicocinética, destacando a importância da educação e do movimento na formação psicomotora das crianças. Ele enfatizou que o ambiente escolar desempenha um papel crucial no desenvolvimento psicomotor, contribuindo significativamente para até 75% do desenvolvimento total.
Lev Vygotsky, por sua vez, explorou as funções psíquicas superiores e sua relação com o ambiente social. Ele argumentou que a cultura influencia diretamente o desenvolvimento psicomotor e cognitivo, destacando a importância da consciência corporal, da organização do esquema corporal, do domínio do equilíbrio e das coordenações globais para uma melhor adaptação ao mundo e aprendizagem de habilidades.
Esses teóricos enriqueceram o campo da psicomotricidade, fornecendo insights sobre o desenvolvimento infantil e o papel do corpo na formação da personalidade e habilidades cognitivas. Suas contribuições continuam a influenciar a compreensão e prática da psicomotricidade nos dias de hoje.
Os aspectos corporais são essenciais no trabalho com a psicomotricidade. O esquema corporal é a representação consciente do próprio corpo, fundamental para o desenvolvimento psicomotor da criança. Sua formação ocorre desde o nascimento até os 12 anos, influenciando diretamente a personalidade e as habilidades motoras. O esquema corporal permite à criança reconhecer e nomear as partes do corpo, além de escolher trajetos adequados e evitar colisões. Um desenvolvimento inadequado do esquema corporal pode resultar em problemas de orientação temporal e espacial, equilíbrio e postura.
A imagem corporal, por sua vez, é a representação mental do corpo baseada nas experiências individuais. Ela reflete a história psicomotora do sujeito e está relacionada às áreas motora, afetiva e cognitiva. Enquanto o esquema corporal é comum a todos, a imagem corporal é única para cada indivíduo, refletindo sua percepção pessoal do corpo.
O equilíbrio é essencial para a estabilidade postural e é influenciado pelo sistema vestibular, que integra informações sensoriais. Pode ser estático, mantendo a postura em diferentes posições, ou dinâmico, durante o movimento. A lateralidade refere-se à preferência de utilização de um lado corporal sobre o outro e influencia na percepção do esquema corporal e na estruturação espacial.
A organização espaço-temporal envolve a consciência da posição dos objetos e das pessoas no espaço e no tempo. Ela é fundamental para a adaptação do indivíduo ao ambiente e compreende a orientação espacial e temporal. O ritmo, por sua vez, abrange a ordem, duração e alternância, sendo presente tanto nos movimentos cotidianos quanto em atividades como dança e música.
O tônus muscular garante a estabilidade e o controle postural, sendo essencial para as atividades motoras. Por fim, a motricidade engloba as sensações conscientes do movimento humano, envolvendo percepção, memória, emoção e raciocínio. Pode ser ampla, abrangendo grandes grupos musculares, ou fina, utilizando pequenos grupos musculares, e seu desenvolvimento é progressivo e dependente dos processos maturacionais da criança.
É Hora de Praticar!
A pedagoga Ana é responsável por uma turma de 1º ano do Ensino Fundamental I em uma escola da rede pública. Ela está planejando uma série de atividades para desenvolver habilidades psicomotoras em seus alunos, que incluem equilíbrio, coordenação motora e lateralidade, visando também o desenvolvimento do esquema corporal. Ana está ciente da importância dessas atividades para o crescimento físico e cognitivo das crianças, conforme a teoria da psicomotricidade.
No entanto, ela se depara com um desafio: alguns alunos da turma apresentam dificuldades específicas em algumas dessas áreas. Por exemplo, João tem problemas de equilíbrio e tende a perder o equilíbrio facilmente durante atividades que exigem movimento mais intenso. Maria tem dificuldade em coordenar os movimentos dos membros superiores e inferiores de forma harmoniosa, afetando sua capacidade de realizar tarefas simples, como arremessar uma bola. Lucas parece ter uma dificuldade significativa em identificar e nomear as partes do corpo, sugerindo um possível atraso no desenvolvimento do esquema corporal.
Como pedagoga, Ana precisa desenvolver um plano de ação que aborde essas questões de maneira eficaz e inclusiva. Como podemos pensar a orientação dessa situação-problema?
Reflita
Qual é o conceito de psicomotricidade e a sua relação com o trabalho docente em diversos contextos educacionais?
Como o pedagogo pode utilizar as teorias da psicomotricidade no trabalho com o corpo e o movimento?
Como compreender a importância dos aspectos motores e corporais, relacionando com o planejamento do trabalho docente no desenvolvimento psicomotor dos alunos?
Resolução do estudo de caso
Ana precisa planejar atividades que proporcionem experiências variadas, desafiadoras e estimulantes para todos os alunos, levando em consideração suas necessidades individuais. Além disso, ela precisa garantir que essas atividades sejam integradas ao currículo escolar e alinhadas aos objetivos de aprendizagem estabelecidos.
Para isso, Ana decide criar uma série de estações de atividades motoras, onde os alunos poderão explorar diferentes habilidades psicomotoras de forma lúdica e interativa. Cada estação será projetada para trabalhar aspectos específicos, como equilíbrio, coordenação motora e lateralidade, e será adaptada para atender às necessidades individuais de cada aluno.
Por exemplo, uma estação pode envolver jogos de equilíbrio, como caminhar em uma linha reta ou pular em um pé só, com variações de dificuldade para desafiar os alunos em diferentes níveis de habilidade. Outra estação pode incluir atividades que promovam a coordenação motora fina, como encaixar peças de quebra-cabeça ou desenhar padrões com giz colorido. Ana também planeja incorporar jogos que estimulem a lateralidade, como arremessar bolas em alvos específicos usando a mão dominante.
Ao longo das atividades, Ana observará de perto o progresso de cada aluno e fará ajustes conforme necessário. Ela também incentivará a colaboração e o apoio mútuo entre os colegas, promovendo um ambiente inclusivo e de apoio. Com dedicação, planejamento cuidadoso e uma abordagem centrada no aluno, Ana está confiante de que pode ajudar seus alunos a desenvolverem suas habilidades psicomotoras e a alcançarem seu pleno potencial na sala de aula.
E você, como encaminharia essa situação?
Dê o play!
Assimile
Referências
FONSECA, V. Psicomotricidade: filogênese, ontogênese e retrogênese. Porto Alegre: Artes Médicas, 1998.
FONSECA, V. Desenvolvimento psicomotor e aprendizagem. Porto Alegre: Artmed, 2008.
KOLYNIAK FILHO, C. Motricidade e aprendizagem: algumas implicações para a educação escolar. Construção psicopedagógica, v. 18, n. 17, 2010. pp.53-66.